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Antonio Carlos Sartini, do Museu da Língua Portuguesa, sobre a projeção mundial do Português

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 19 de Junho de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , , ,

Baseado em reportagem de Andréia Azevedo Soares
do jornal Público (Portugal)
13 de junho de 2014

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O Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, no Brasil, é um dos mais visitados do Brasil e da América Latina. Desde a inauguração em 2006, recebeu mais de 3,5 milhões de visitantes.

Localizado no prédio da Estação da Luz, no centro da maior cidade brasileira, o museu está a preparar uma exposição interativa em homenagem a Eça de Queirós (1845-1900). Como é marca no museu paulistano, a mostra apresentará seus conteúdos com interatividade e o recurso às tecnologias multimédia.

O diretor do museu, Antonio Carlos Sartini, em entrevista ao jornal Público durante sua visita a Lisboa, adiantou ainda que a exposição permanente do espaço cultural vai sofrer “uma grande reformulação” até 2016.

Sartini acredita que “a Língua Portuguesa está está vivendo um momento muito interessante”, por sua crescente aceitação internacional e pelo facto de ser estimado que haja 300 milhões de pessoas no mundo a falarem português nos próximos dez anos. E também creditou ao Acordo Ortográfico parte do sucesso da atual difusão internacional da Língua Portuguesa.

A seguir, trechos da entrevista de Antonio Carlos Sartini concedida à repórter Andréia Azevedo Soares, do jornal Público, de Portugal, publicada em 13 de junho de 2014:

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António Carlos Sartini, diretor do Museu da Língua Portuguesa: "Somos um museu único no mundo."

António Carlos Sartini, diretor do Museu da Língua Portuguesa: “Somos um museu único no mundo.”

:::  Foi veiculada na imprensa brasileira a informação de que o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, estaria a preparar uma exposição sobre Eça de Queirós para o final de 2014. Pode dar-nos mais detalhes?  :::
Antonio Carlos Sartini – Não sei bem se será no final do ano. Ainda não há a data fechada. Este é um ano bastante atípico para o Brasil – é um ano de Copa do Mundo e de eleições também. É um ano mais difícil em termos de captação de recursos [financeiros]. Muito provavelmente, a exposição de Eça de Queirós vai ficar para 2015. Isto é também para fazer as coisas com mais calma e tranquilidade.

Temos aqui uma responsabilidade muito grande para com o Eça de Queirós e para com os nossos públicos, o brasileiro e o português, uma vez que o Eça é um patrimônio das nossas culturas. Já tivemos uma experiência anterior que foi a de trabalhar com [a obra do poeta] Fernando Pessoa [1888-1935mostra ocorrida em 2010] e que foi muito bem sucedida. Criámos uma exposição de grande sucesso no Brasil e que, depois, veio para a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e foi eleita a melhor exposição do ano em Portugal.

É uma responsabilidade muito grande, e por isso não podemos ter pressa – os projetos têm de amadurecer no seu tempo. Mas a exposição vai acontecer, com certeza absoluta.

:::  Quais são os desafios de apresentar um autor português consagrado ao público brasileiro?  :::
ACS – Acho que é importante pensarmos que o Museu da Língua Portuguesa é um dos mais visitados no Brasil. Desde a inauguração, tem uma média de 1.500, 1.600 visitantes por dia. Mais de 65% do nosso público são jovens estudantes da rede pública, jovens que nunca visitaram antes um museu.

O Brasil é um país onde temos problemas muito graves de Educação. Menos de 4% da população tem hábitos constantes de leitura. Então, quando você pensa em levar um nome como Fernando Pessoa, ou Eça de Queirós, para estes públicos, você está lidando com pessoas que não têm contacto nenhum com o autor e a sua obra.

Todo mundo já ouviu falar de Machado de Assis [1839-1908], mas ninguém leu, até porque infelizmente a escola apresenta Machado de Assis no momento errado, quando os alunos ainda são muito jovens. Há uma obrigatoriedade: você tem de ler o Machado de Assis porque ele é o nosso clássico. Então, o museu tem de ter muito cuidado na hora de aproximar estes públicos dos grandes autores. A melhor maneira de apresentar um autor é através da sua obra.

O Museu da Língua Portuguesa realizará uma mostra sobre Eça de Queirós, nos mesmos moldes em que realizou sobre Machado de Assis: dois dos maiores romancistas da Língua. 

O Museu da Língua Portuguesa realizará uma mostra sobre Eça de Queirós, nos mesmos moldes em que realizou sobre Machado de Assis: dois dos maiores romancistas da Língua.
 

O museu completa oito anos e meio com a mesma exposição [permanente]. Quando foi inaugurado, pouquíssimos museus se dedicavam a um acervo como esse. Nenhum outro museu se dedicava a um idioma – e nesse ponto nós continuamos pioneiros.

:::  Não há um museu na África do Sul dedicado ao africâner?  :::
ACS – Há, mas ele é muito distinto do Museu da Língua Portuguesa. Na verdade, é um Memorial do Africâner, de 1975. Tem uma finalidade política muito diferente do Museu da Língua Portuguesa; veio marcar um período muito angustiante da História da África do Sul. Então nós ousamos dizer que, enquanto museu com os nossos objetivos, a nossa tecnologia e maneira de expor, somos um museu único no mundo.

Quando o museu foi inaugurado, não tínhamos parâmetro. O grande questionamento que nós tínhamos era: quanto tempo dura uma exposição de longa duração de um museu que trata de um património intangível, mas ao mesmo tempo dinâmico?

Nós achávamos que [duraria] uns cinco anos. Mas já vamos com oito anos e meio e o nível de visitação e de ineditismo continua muito forte. Até 2016, o nosso grande trabalho vai ser renovar a exposição.

As mostras do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo são conhecidas pela interatividade e pelo recurso às tecnologias multimédia. 

As mostras do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo são conhecidas pela interatividade e pelo recurso às tecnologias multimédia.
 

:::  Fala-se na possibilidade de o português tornar-se uma das Línguas oficiais das Nações Unidas. Como representante máximo de um museu dedicado à Língua, como vê esse processo? É um sonho ou uma possibilidade real?  :::
ACS – Politicamente, é extremamente importante. O mundo da Lusofonia caminhou bem nesse sentido. Temos aí o novo Acordo Ortográfico de 1990, que demorou muito tempo a ser implementado. Eu sei que tem muita gente a favor e muita gente contra, mas politicamente é interessante. Isto permite que a Língua Portuguesa se torne uma Língua oficial em organismos internacionais.

A Língua Portuguesa está vivendo um momento muito interessante. O Brasil é um mercado em crescimento de 200 milhões de pessoas. Angola tem experimentado um crescimento econômico astronômico, de 13% ao ano. Moçambique tem um crescimento um pouco mais moderado, mas também positivo.

Sartini defende o Acordo Ortográfico: "É preciso que a escrita da Língua seja coesa para que se torne oficial em organismos internacionais."

Sartini defende o Acordo Ortográfico: “É preciso que a escrita da Língua seja coesa para que se torne oficial em organismos internacionais.”

:::  Isto tem tornado a Língua Portuguesa mais apetecível?  :::
ACS – Sem dúvida. Isto cria interesses em torno da Língua Portuguesa. Os chineses são excelentes comerciantes e pessoas “antenadas” com o mundo. Hoje temos mais de 20 universidades chinesas com cursos de Português. E o aumento do número de alunos na China é incrível. A cada ano, o Brasil tem de exportar professores para a China porque há um interesse do Governo chinês em que se fale cada vez mais português.

Há muitas reservas de petróleo que foram descobertas em território lusófono. Tudo isso tem criado um interesse econômico muito grande e dá uma vitalidade enorme à Língua. Acho portanto muito justo que esta Língua se torne oficial nos organismos internacionais.

É lógico que esse processo sempre gera descontentamentos [devido ao Acordo Ortográfico]. Mas, para que ela seja oficial, é preciso que seja coesa, pelo menos na sua forma culta, normativa. Ela não se tornou oficial até hoje porque há uma forma de escrever no Brasil, outra em Portugal… Para chegarmos a uma forma única, alguém tem de abrir mão de alguma coisa – e isso deixa as pessoas desconfortáveis. Mas eu tenho a certeza de que em pouco tempo as pessoas vão esquecer isso.

:::  Como é que o Acordo Ortográfico “entrou” no Museu da Língua Portuguesa? De que forma isto ficou registado na exposição?  :::
ACS – Eu não diria registrado, o Acordo Ortográfico foi absorvido. Na realidade, sempre que existem Acordos Ortográficos, eles vêm refletir a evolução da Língua. Existem fenômenos que são muito mais importantes do que o Acordo Ortográfico. É por isso que você tem acordos ou reformas ortográficas que são um pouco melhores. Às vezes demoram 20 anos, às vezes 40 anos. De alguma forma, essa reforma vai oficializar alguma coisa que na prática já vinha existindo. Interessa-nos muito mais essa evolução natural, essa prática do que a cristalização trazida por uma reforma ou um Acordo.

Nós tivemos o cuidado de, quando o acordo foi assinado, encomendar um guia ao professor Ataliba Teixeira de Castilho, o nosso consultor linguístico, junto com as FMU [Faculdades Metropolitanas Unidas, de São Paulo]. Esse guia foi distribuído para todas as escolas públicas do Estado de São Paulo e para os 200 mil visitantes que foram [nessa altura] ao Museu da Língua Portuguesa.  :::

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Clique aqui para ler na íntegra a entrevista do diretor do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, Antonio Carlos Sartini, concedida à repórter Andréia Azevedo Soares, do jornal Público, de Portugal, e publicada em 13 de junho de 2014.

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António Sartini: “A língua portuguesa está vivendo um momento muito interessante”.
(Entrevista a Andréia Azevedo Soares.)
Extraído do jornal Público (Portugal) – seção CulturaÍpsilon.
Publicado em: 13 jun. 2014.

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Leia também:
Museu da Língua Portuguesa de São Paulo: reforma e exposição sobre a evolução da Língua – 25 de dezembro de 2012

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