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A Língua Portuguesa na base escrita do vietnamita

In O Mundo de Língua Portuguesa on 29 de Julho de 2012 by ronsoar Tagged: , ,

Ronaldo Santos Soares
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

O sistema de escrita romanizado do vietnamita surgiu no século XVII
e foi inspirado na escrita da Língua Portuguesa.

 

:::  Do período das Grandes Navegações até o século XVIII, a Língua Portuguesa foi utilizada como língua franca de comunicação entre os europeus e os povos das regiões costeiras da Ásia. A presença da Língua Portuguesa e a sua importância no comércio entre a Europa e o Oriente deixou influências no modo de vida dos diversos povos que com ela tomaram contacto.

Assim foi também na Cochinchina, região do Sudeste Asiático, onde hoje é o sul do Vietname (ou Vietnã). Foi ali, no delta do rio Mecong, por volta de 1560, onde naufragou o navio que levava Camões de Macau até Goa, tendo o poeta conseguido a nado, e de forma heroica, salvar a sua vida e os manuscritos de Os Lusíadas – aquela que se tornaria a grande obra da literatura portuguesa.

Mas um outro facto de ligação entre a Língua Portuguesa e o Vietname é relatado neste texto de Pedro Sebastião, escrito para o Instituto Camões e publicado em maio de 2011. Trata-se do sistema romanizado de escrita da língua vietnamita, planeado pelo padre jesuíta português Francisco de Pina e concluído por seu discípulo, o padre francês Alexandre de Rhodes.  :::

Baía de Ha Long, no Vietname: a Língua Portuguesa foi língua franca de comércio entre os europeus e os povos da Ásia, entre os séculos XVI e XVIII.
 

–– O português na base escrita do vietnamita ––

Pedro Sebastião, do Instituto Camões
26 de maio de 2011

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:::  Foi o padre jesuíta Francisco de Pina quem trouxe a concepção romanizada à escrita do Quốc Ngữ, a língua nacional do Vietname  :::

Muito me apraz ter tomado conhecimento de mais um cunho lusitano no contributo de um feito maior como é o da construção de uma linguagem escrita, romanizada, sendo essa relativa a um país tradicionalmente reconhecido por uma cultura tão díspar como é o Vietname.

Centremo-nos na figura do padre jesuíta Francisco de Pina. Natural da cidade da Guarda (1585/1586?), terá chegado à Cochinchina (sim, ela existe) por volta do ano de 1618, onde terá desenvolvido a sua atividade até à sua morte, em 1625, na cidade vietnamita de Da Nang.

Entrou para a Companhia de Jesus aos 19 anos e desenvolveu os seus estudos em Letras e Teologia no Colégio Jesuíta de Macau. Esta instituição, que foi estabelecida segundo o modelo da Universidade de Coimbra, já conferia, desde os finais do séc. XVI, os graus académicos de Mestre em Letras e de Doutorado em Teologia. Como disciplinas complementares, eram ministradas outras matérias como a língua japonesa, as religiões orientais, a pintura e a música.

Por outro lado, não poderemos esquecer que a Residência dos Jesuítas nesta região do Mar do Sul da China, permanecia na cidade do centro litoral vietnamita, denominada de Hoi An, e não em Macau, como logicamente se poderia entender. Saiba-se que a sede dos jesuítas na Ásia seria no Japão e que estes mantinham, por razões histórico-comerciais, a sua influência nessa zona costeira do Vietname.

Acabados os seus estudos, Pina muda-se então para a missão de Hoi An. E é aí, no contacto com os falantes nativos, que se apaixona pela língua vietnamita e se autopropõe a realizar uma tarefa de todo exigente e pioneira: romanizar a língua escrita do Vietname, que até então era apresentada sob o antigo registo baseado em ideogramas de feição chinesa.

Para quem não sabe, a língua vietnamita atual não se escreve por ideogramas como o chinês, o japonês ou outros idiomas asiáticos. Embora manifeste acentuação e sintaxe particulares, apresenta-se-nos através dos mesmos caracteres por nós utilizados, organizados em torno de um alfabeto.

Pina terá sido então o iniciador do processo, no que viria a concretizar-se no Quốc Ngữ‘ ou “Língua Nacional” e no desenvolvimento e adoção oficial de um registo romanizado e distinto do chinês.

No entanto, o trabalho revelou-se muito mais complexo e, por isso mesmo, demasiado moroso. À medida que iam chegando novos missionários, Pina concentrava-se agora, e, em simultâneo, a formar estes seus discípulos na língua vietnamita. Isto é: precisava de ajuda! E, terá sido no meio daqueles sacerdotes, oriundos não só de Portugal, mas também de Itália e de França, que se distinguiu um jovem padre jesuíta francês, de nome Alexandre de Rhodes, que terá sido o precursor de Pina no trabalho a realizar, e, julga-se, o finalizador do projeto, já que Pina teria falecido entretanto.

Este facto ter-lhe-á conferido os “louros” da obra, assumindo praticamente o papel de criador do projecto, “o pai do Quốc Ngữ“, secundarizando-se, durante séculos, a figura primordial do jesuíta português que esteve na base de todo este primoroso trabalho linguístico.

:::  Bibliografia
ROLAND, Jacques. Pionniers Portugais de la Linguistique Vietnamienne. Bangkok: Orchid Press, 2002.

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PEDRO SEBASTIÃO. O português na base escrita do vietnamita.
Extraído do Instituto Camões (Lisboa, Portugal).
Publicado em: 26 maio 2011.

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O padre jesuíta francês Alexandre de Rhodes elaborou o Diccionario Anamita-Português-Latim, publicado em Roma em 1561.

–– Sobre Alexandre de Rhodes ––
Alexandre de Rhodes, nascido em 1591 em Avinhão (Avignon), na França, ingressou na Companhia de Jesus em 1612. Partiu de Lisboa para Goa, na Índia, em 1619. Por seis anos, exerceu trabalho missionário católico entre Goa e Macau, na China. Em 1624, chegou à Cochinchina, o sul do atual Vietname. Conheceu o padre Francisco de Pina, o único na missão jesuíta que falava fluentemente a língua vietnamita.

Com o falecimento do padre Francisco de Pina, Alexandre de Rhodes prosseguiu com sua obra, divulgando o alfabeto romanizado da língua vietnamita e elaborando uma gramática da língua, além do Diccionario Anamita-Português-Latim, publicado em Roma em 1651, com mais de 8 mil verbetes em vietnamita traduzidos para o português e para o latim. Essa obra, aliás, era a continuação de um dicionário português-vietnamita elaborado pelos jesuítas portugueses Gaspar do Amaral e António Barbosa.

A Língua Portuguesa, em sua época, era a língua franca não apenas da catequese católica como também das relações políticas e comerciais nas regiões costeiras de todo o continente asiático, o que ajuda a explicar o uso do português como base alfabética para a escrita da língua vietnamita. A escrita ganhou uma acentuação própria, adaptada à pronúncia tonal da língua vietnamita, muito parecida com os dialetos da língua chinesa.

Alexandre de Rhodes permaneceu na Indochina até a metade da década de 1640, quando foi preso a mando de um rei vietnamita e condenado à morte, porém, sua pena foi depois comutada para a de banimento. Retornou a Roma e, de lá, foi enviado para trabalho missionário na Pérsia, onde morreu em 1660.

A escrita romanizada do vietnamita possui acentos gráficos próprios, adaptados à pronúncia tonal da língua.
 

O modelo de escrita para o vietnamita somente tornou-se a ortografia oficial em 1918, durante o domínio colonial francês da Indochina. E revelou-se uma importante ferramenta de difusão do ensino e da escrita, pois era mais fácil de ser aprendido que os ideogramas tradicionais inspirados na escrita chinesa. Por isso, os governos do Vietname usam oficialmente desde 1954 uma escrita simplificada, de fácil compreensão da língua, que foi, no passado, criada e inspirada na Língua “filha ilustre do Latim”.

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(Postado por Ronaldo Santos Soares.)

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