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Assim (não) se vê a influência da Língua Portuguesa – Renato Epifânio

In Defesa da Língua Portuguesa,Língua Portuguesa Internacional,O Mundo de Língua Portuguesa on 30 de Dezembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , , , , , ,

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O presidente do Movimento Internacional Lusófono (MIL), Renato Epifânio, lançou críticas em opinião recentemente veiculada no jornal Público aos resultados de uma pesquisa sobre a influência mundial das línguas, conduzida por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, sigla em inglês) dos EUA.

A pesquisa foi realizada mediante elaboração de mapas a partir de três grandes massas multilingues de dados: uma do Twitter, outra do Wikipédia e outra de uma lista de traduções literárias de livros impressos.

“Verificamos que a estrutura destas três redes globais de línguas está centrada na língua inglesa, como um eixo global, e ao redor de um punhado de línguas de um eixo intermediário, que inclui o espanhol, o alemão, o francês, o russo, o português e o chinês”, explicam os autores do estudo publicado em novembro de 2014 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, dos Estados Unidos da América.

Renato Epifânio contesta os resultados desta investigação e alega que “muito poucas línguas deveriam estar acima da Língua Portuguesa, desde logo pela sua geográfica difusão”, pois “estamos a falar de uma Língua com difusão na Europa, nas Américas, em África e na Ásia”.

O autor do artigo lamenta que, em virtude de muita divisão ainda reinante entre os países da Lusofonia no trato com a Língua comum e de muita relutância quanto ao princípio da gestão conjunta da Língua, “são os lusófonos os primeiros a não valorizar devidamente a sua cultura histórica”.

Mas ressalva que, em relação ao papel global da Língua Portuguesa, “o mais importante é essa capacidade ‘pontifícia’ (“construtora de pontes”) que a Língua e cultura portuguesa historicamente tiveram e que ainda hoje é reconhecida”.

Ventos da Lusofonia reproduz a seguir o artigo de opinião de Renato Epifânio, a criticar os resultados do estudo sobre o poder de influência das línguas no mundo. O artigo foi publicado na edição de 29 de dezembro de 2014 do jornal Público, de Portugal.  :::

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–– Assim (não) se vê a influência
da Língua Portuguesa ––

Renato Epifânio,
do jornal Público (Portugal)
29 de dezembro de 2014

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:::  Muito poucas línguas deveriam estar acima da Língua Portuguesa, desde logo pela sua geográfica difusão.  :::

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Num interessante artigo publicado no dia 22 de dezembro (Influência de uma língua mede-se pela capacidade de ligar línguas diferentes), o jornal Público reproduz os dados essenciais de um estudo saído na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Neste, defende-se que “ao contrário do que se poderia pensar, a influência global de uma língua mede-se principalmente pelo seu nível de ligação com outras línguas, e, em particular, pela sua capacidade de mediar a comunicação entre línguas que de outra forma não conseguiriam ‘falar’ entre si”.

Surpreendentemente, porém, à luz dessa premissa, a Língua Portuguesa aparece numa posição “intermédia”, quando deveria aparecer numa posição mais cimeira.

Se a premissa é, como no artigo se enfatiza, a “capacidade de estabelecer pontes entre línguas associadas a culturas por vezes muito diferentes e afastadas do ponto de vista geográfico”, então muito poucas línguas deveriam estar acima da Língua Portuguesa, desde logo pela sua geográfica difusão: falando só dos países de Língua oficial portuguesa, estamos a falar de uma Língua com difusão na Europa, nas Américas, em África e na Ásia.

Se contarmos, como devemos contar, com as várias diásporas lusófonas e com outras regiões que, historicamente, mantiveram laços com o espaço de Língua Portuguesa, essa difusão geográfica alarga-se ainda mais.

Manifestamente, contudo, isso não foi tido em conta neste estudo – o seu coautor português, Bruno Gonçalves, chega mesmo a manifestar a sua “surpresa” pela “ligação [da Língua Portuguesa] à língua malaia”. Como se na Malásia não existisse, ainda hoje, uma significativa comunidade lusófona, em grande parte residente no chamado “Bairro Português de Malaca”, que tem preservado essa ligação à Lusofonia, mesmo com poucos ou nenhuns apoios oficiais.

A este respeito, não pode deixar de ser referida a Associação Coração em Malaca, sediada em Portugal, que, através dos seus membros – desde logo, da sua Presidente, Luísa Timóteo – não se tem cansado de manter essa ponte, que já levou, inclusive, a que alguns membros dessa comunidade tivessem estado recentemente em Portugal.

Este exemplo é, de resto, multiplicável a muitos outros países, sendo que o mais importante nem é sequer isso: o mais importante é essa capacidade pontifícia (“construtora de pontes”) que a Língua e cultura portuguesa historicamente tiveram e que ainda hoje é reconhecida – nomeadamente, no mundo árabe.

Daí o papel que a Lusofonia poderia hoje ter à escala global na resolução de alguns conflitos, inclusive de cariz religioso. Enquanto cultura em que desde sempre conviveram as “três religiões do Livro” – judaísmo, cristianismo e islamismo –, a cultura lusófona poderia dar um importante contributo para a paz mundial.

Infelizmente, contudo – importa reconhecê-lo –, são os lusófonos os primeiros a não valorizar devidamente a sua cultura histórica. Não surpreende, por isso, que muitos não lusófonos não a conheçam e que surjam mesmo estudos internacionais que façam tábua rasa dessa nossa cultura. Assim (não) se vê a “influência da Língua Portuguesa”.  :::

EPIFÂNIO, Renato. Assim (não) se vê a influência da Língua Portuguesa.
Extraído do jornal Público – seção Opinião
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 29 dez. 2014.

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Oportunidades e proximidade cultural atraem brasileiros para Angola

In Lusofonia e Diversidade,O Mundo de Língua Portuguesa on 29 de Dezembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , ,

Michèlle Canes
da Agência Brasil
28 de dezembro de 2014

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Localizada na região ocidental da África, Angola tem 18 milhões de habitantes, de acordo com a embaixada do país no Brasil. Com a história marcada por uma longa guerra civil, os angolanos conheceram a paz em 2002 e precisaram reconstruir o país.

Apesar das dificuldades, muitos brasileiros veem o país como um lugar acolhedor e que oferece boas oportunidades. Hoje, aproximadamente 30 mil brasileiros vivem no país africano, segundo a Embaixada do Brasil em Luanda, capital angolana. O fator que mais atrai brasileiros é o trabalho.

“Hoje a gente tem pessoas em todas as áreas. Desde cabeleireiros, manicures a engenheiros, pessoal de música. Tudo. Fora a mão de obra mais específica para a construção civil, para a área do petróleo”, conta o fotógrafo Sérgio Guerra, que vive há 17 anos no país.

“Inicialmente foi o trabalho que me atraiu. Aqui, a gente consegue entender a sociedade [angolana], as demandas da população.” Sérgio viajou por todo o país e conheceu pessoas e realidades diferentes durante o período de guerra civil. “E isso foi me aproximando do país, da cultura, das pessoas. Eu, que já vinha da Bahia, com uma referência de África muito forte, só fui confirmando essa estreiteza de afinidades.”

–– “Grande significado e respeito” para o professor em Angola ––
O professor e especialista em marketing [análise de mercados] Cláudio de Holanda Santos também foi a Angola para trabalhar, e acabou se apaixonando pelo país. Em Angola há 12 anos, ele conta que chegou logo depois do fim dos conflitos para trabalhar como coordenador de um projeto de reinserção social de ex-militares por meio de formação profissional. O projeto, que contava com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, ajudou na formação de 38 mil ex-militares.

O resultado do trabalho rendeu novas oportunidades, e o administrador ajudou também a fundar a Escola Nacional de Administração, um trabalho conjunto com o governo local e a Fundação Getúlio Vargas [do Brasil].

Ele lembra que um dos pontos que chamam a atenção, mesmo depois de tanto tempo, é o interesse da população angolana pelo desenvolvimento. “Aqui, uma necessidade deles é aprender. O professor passa a ter um papel com grande significado e respeito. Isso me deixou apaixonado, e é a razão de estar aqui até hoje.”

Cláudio também destaca a aposta do país no investimento em educação. “Eles sabem que não basta ter informação: é importante ter o conhecimento. Muitos estrangeiros estão explorando várias áreas, e o angolano precisava ter condições de tocar o seu país. Por isso, eles estão mandando vários jovens angolanos para toda parte do mundo para aprender.”

–– “Tem muita coisa parecida” ––
A cultura, as belas praias e a alegria do povo são pontos de destaque entre as semelhanças entre o Brasil e Angola. Milena Vieira chegou ao país há sete anos para prestar assessoria na área de saúde.

Hoje, a enfermeira virou empresária. “Eu não tive dificuldade nenhuma de adaptação. Morei na Bahia e no Rio de Janeiro, e vejo que aqui, na capital, tem muita coisa parecida. Quando eu estou no Rio de Janeiro, até brinco dizendo que parece que estou em Luanda. Tem muita coisa parecida.”

Por ser um país em reconstrução, as oportunidades surgem a todo o momento. “Eu via que faltava tudo no país. Tinha muita coisa a ser trabalhada. E me chamou a atenção uma vez que eu precisei fazer um carimbo, e o custo era muito alto”, conta Milena. A necessidade virou negócio. Hoje ela vende carimbos e chaves.

–– Cidades inteiras a ser construídas do zero ––
Cláudio destaca que, com o acordo de paz de 2002, o país passou a ter que construir tudo que havia sido destruído pela guerra. “Estão começando as indústrias agora. Estão começando os serviços agora. Tudo está começando.”

A área de construção é uma das que mais chamam a atenção. Sérgio diz que o nível de crescimento do país é grande e que, nos últimos sete anos, novas cidades foram construídas do zero. “São cidades inteiras com edifícios e estrutura urbana, todas feitas nos últimos oito anos, sete anos. São essas possibilidades que dão oportunidades aos brasileiros e às empresas brasileiras.”

–– Angola ainda tem muito a crescer ––
Apesar das oportunidades, as dificuldades ainda são muitas. Brasileiros que vivem no país ressaltam que é possível perceber a melhora na estrutura de Angola, mas que ainda há muito a ser feito. “Problemas básicos. Ninguém consegue se livrar dos geradores, dos problemas com água. Ainda temos muitos problemas com abastecimento”, afirma Sérgio Guerra.

Custo de vida alto, falta de lazer, engarrafamentos e problemas sociais decorrentes da guerra também são constantes na vida dos angolanos. Para os brasileiros, o país ainda tem muito a crescer.

“Viemos com um objetivo: é trabalho mesmo. Ninguém vem para cá desfrutar das belezas naturais, infelizmente, ainda. E acredito que essas coisas devem mudar. Mudou muito. Cinco anos atrás, não tínhamos nada, e mudou bastante. A tendência é que fique melhor com o passar dos anos”, diz Milena.

“Hoje é um país muito diferente daquele que eu conheci. É um país que tem estabilidade econômica, a inflação está controlada, o país tem comprometimento com a institucionalidade, o que abre muitas possibilidades de trabalho e de relações internacionais”, enfatiza Guerra.  :::

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CANES, Michèlle. Oportunidades e proximidade cultural atraem brasileiros para Angola.
Extraído da Agência Brasil.
Publicado em: 28 dez. 2014.

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Influência de uma língua mede-se pela capacidade de ligar línguas distantes

In Defesa da Língua Portuguesa,Lusofonia e Diversidade on 25 de Dezembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , , , , ,

Ana Gerschenfeld,
do jornal Público (Lisboa, Portugal)
22 de dezembro de 2014

:::  Nem o número de falantes, nem a riqueza económica são o que mais condiciona a influência de uma dada língua a nível global: conclui estudo com participação portuguesa.  :::

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Está a pensar em aprender chinês (ou melhor, mandarim) ou a aconselhar os seus filhos a optarem por essa segunda língua estrangeira? É certo que, quando olhamos para o astronómico número de pessoas que fala hoje chinês – e para o crescente poderio económico da China –, temos tendência para pensar que, a par (ou talvez em vez) do inglês, o chinês é que será a língua do futuro.

Porém, a acreditar nas conclusões de um estudo realizado por uma equipa internacional, entre os quais um cientista português, essa escolha poderá não ser a mais acertada… A língua franca do futuro poderá ser outra – e as mais importantes no ranking [classificação] mundial também poderão ser outras.

Os resultados, publicados na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), mostram que, ao contrário do que se poderia pensar, influência global de uma língua mede-se principalmente pelo seu nível de ligação com outras línguas. E em particular, pela sua capacidade de mediar a comunicação entre línguas que de outra forma não conseguiriam “falar” entre si.

A questão reside em saber, no fundo, como avaliar a influência de uma língua na cultura global. Ora, até aqui, os parâmetros utilizados têm sido, justamente, o número de pessoas que falam uma dada língua e o nível económico dessas pessoas.

Mas agora, estes cientistas decidiram avaliar esse poderio linguístico com outra bitola: mapeando as redes de ligações entre as diferentes línguas do mundo. E concluem que, muito mais do que ao peso da demografia ou da riqueza – que obviamente também contribuem para o poderio das diversas línguas –, o sucesso global de uma língua deve-se sobretudo ao número e à força dessas ligações.

Mais: o que define a influência global de uma língua, argumentam os autores, é a sua capacidade de estabelecer pontes entre línguas associadas a culturas por vezes muito diferentes e afastadas do ponto de vista geográfico.

“O chinês – ou mandarim para ser mais preciso –, apesar de ter um grande número de falantes, é uma língua relativamente periférica, ou seja é uma língua que está isolada sobre si mesma e não interage com as restantes”, explicou ao Público Bruno Gonçalves, coautor português do artigo, a trabalhar na Universidade de Aix-Marseille (França).

“Ou seja, o chinês é útil na China, mas está longe de ser uma língua falada frequentemente noutros países ou regiões. Isto deve-se tanto à sua complexidade – que dificulta a aprendizagem – quanto ao tamanho da China – que facilita o isolamento cultural, visto poderem ser autossuficientes.”

–– Twitter, Wikipédia & Companhia ––
Para determinar as ligações existentes entre as línguas e avaliar a sua força, os cientistas – liderados por César Hidalgo e incluindo Steven Pinker – ambos do célebre Media Lab do Massachusetts Institute of Technology [o Instituto de Tecnologia de Massachusetts] ou MIT, EUA) – construíram três mapas diferentes a partir de três grandes massas de dados, respectivamente provenientes do Twitter, da Wikipédia e de traduções literárias.

No caso do Twitter – explica em comunicado o MIT –, o critério de ligação entre duas línguas era que o autor de um tweet [as micropostagens do Twitter] na sua própria língua (a primeira) também tivesse produzido pelo menos três tweets na segunda língua. Os dados representavam assim 17 milhões de tweets produzidos em 73 línguas por cerca de 280 milhões de utilizadores deste serviço online [em linha].

Quanto à força da ligação entre duas línguas, era medida pelo número de utilizadores desse “par” de línguas. Essencialmente, “a força de ligação entre as diversas línguas é dada pelo número de pessoas bilingues”, diz-nos Bruno Gonçalves.

No caso da Wikipédia, o critério era semelhante: os “editores” daquela megaciberenciclopédia eram retidos para análise quando tinham editado artigos na sua língua-mãe e noutras línguas. O conjunto final continha 2,2 milhões de tais editores.

–– A lista de traduções literárias da UNESCO ––
Por último, para gerar os dados de base relativos à tradução literária, os cientistas utilizaram o chamado Index Translationum da UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] – um catálogo de 2,2 milhões de traduções de livros em mais de mil línguas, publicadas entre 1979 e 2011. Aqui, a força da ligação entre duas línguas era determinada pelo número de traduções que existiam de uma para a outra.

Para obter as redes, os cientistas utilizaram, lê-se no artigo da PNAS, um algoritmo semelhante ao que o motor de pesquisa da Google utiliza para fazer o ranking das páginas da Web nas suas listagens de resultados de pesquisa. Esse algoritmo utiliza o número e a qualidade dos links [enlaces ou hiperligações] que apontam para um dado site [sítio de Internet] como estimativa da importância desse site.

–– Duas listas de personalidades e de suas publicações ––
Por outro lado, para validar os seus mapas de forma independente, os cientistas recorreram a mais dois conjuntos de dados que ligam pessoas famosas e difusão linguística: uma lista (obtida anteriormente por César Hidalgo) de 11.340 pessoas que tinham artigos acerca delas na Wikipédia escritos em mais de 26 línguas; e uma outra lista, publicada num livro da autoria do politólogo norte-americano Charles Murray, das 4.002 pessoas mais citadas em 167 obras de referência (de enciclopédias a inquéritos) publicadas à escala mundial.

Resultados? Os três mapas das redes linguísticas não eram idênticas – o que era de esperar, uma vez que o grupo de “autores” utilizado para cada um dos mapeamentos era diferente: no caso do Twitter, representava uma parcela dos internautas bilingues; no caso da Wikipédia, uma mistura de curiosos e especialistas (poliglotas) de um tema; e, no caso da base de dados da UNESCO, obras literárias de fama internacional.

“Por exemplo”, lê-se no mesmo comunicado, “na rede da Wikipédia, o alemão é muito mais central do que o espanhol, enquanto o contrário se verifica na rede gerada a partir do Twitter.”

Da mesma forma – e pela mesma razão –, a rede derivada dos dados da UNESCO estava mais em linha com a lista de famosos de Murray, cujos elementos proveem das artes e das ciências. Pelo seu lado, as redes derivadas do Twitter e da Wikipédia correspondiam melhor à lista de famosos estabelecida pelo coautor César Hidalgo com base na Wikipédia, que é mais inclusiva, uma vez que contém famosos das mais variadas profissões, da música pop ao desporto.

Mas mesmo assim, fosse qual fosse a lista de celebridades considerada, havia sempre pelo menos um dos mapas que conseguia prever de forma mais fiável a composição dessa lista com base na “centralidade” da língua na rede correspondente do que no PIB [Produto Interno Bruto] ou no número de falantes associados.

–– Línguas do futuro? ––
Uma coisa é certa: no topo da influência global está atualmente o inglês. Com 1500 milhões de falantes e um elevado rendimento per capita, os novos resultados também confirmam esta língua como a mais capaz de ligar outras línguas entre si – o que aliás já todos sabíamos.

Quanto ao chinês (com mais de 1.600 milhões de falantes) ou o árabe (500 milhões de falantes), apesar de estas línguas serem mais faladas do que línguas como o português (290 milhões), o francês (200 milhões), o alemão (185 milhões), ou o italiano (70 milhões), ambas surgem nos resultados como mais periféricas, menos centrais do que este conjunto de línguas europeias.

De facto, a seguir ao inglês, as línguas mais centrais a nível global são o francês, o alemão, o espanhol, o italiano e o russo (nessa ordem, com os três últimos no mesmo patamar). E, no “círculo” seguinte, encontram-se, entre outras, o holandês (com apenas 27 milhões de falantes), o português, o sueco (com dez milhões) e o dinamarquês (com seis milhões).

“O português é uma Língua intermédia”, explica ainda Bruno Gonçalves. “Porque, apesar de estar difundida pelo mundo e ter ligações a línguas mais distantes, tanto geográfica como linguisticamente, não tem a importância global de uma língua como o inglês tem atualmente ou como o francês teve em décadas passadas.”

“Para mim, o resultado mais surpreendente em relação ao português foi a sua ligação à língua malaia e ao finlandês, que são visíveis nas redes derivadas do Twitter e da Wikipédia”, acrescenta Bruno Gonçalves.

–– “Cultura e língua estão ligadas” ––
Seja como for, todas estas línguas medianamente periféricas – e muito menos faladas do que o chinês ou o árabe – revelam-se, nos três mapas, mais centrais do que o chinês ou o árabe (os diversos mapas estão acessíveis no site do projeto).

E em particular, no mapa derivado do Twitter, o português e o espanhol são as línguas indo-europeias mais centrais a seguir ao inglês – enquanto as línguas “sino-tibetanas” como o chinês se tornam praticamente irrelevantes.

Poder-se-á objetar que estes dados estão enviesados, dado que consideram populações não representativas da totalidade da população humana – e que portanto não representam a influência real de cada língua. A isso, César Hidalgo responde no mesmo comunicado: “Quero dizer claramente que este estudo não é sobre línguas globais. As três redes são representativas de elites. Mas, ao mesmo tempo, essas elites são os motores da transferência de informação entre culturas.”

“O que estes resultados demonstram é que a cultura e a língua estão intrinsecamente ligadas, e que promover uma é promover a outra”, frisa Bruno Gonçalves.

–– Quanto ao português? E haverá uma nova Língua franca? ––
Como preservar o português? “Através de medidas que aumentem o número de estrangeiros que falam a nossa Língua – promoção de aulas de português para estrangeiros, etc. – ou que difundam a cultura portuguesa, como a tradução de livros de autores nacionais para outras línguas”, responde-nos o cientista.

E qual será a língua franca do futuro?, perguntámos. “Será provavelmente uma mistura de línguas. O inglês manterá o seu domínio, mas acho que não corremos o risco de ter uma única língua global que elimine as outras.”  :::

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GERSCHENFELD, Ana. Influência de uma língua mede-se pela capacidade de ligar línguas distantes.
Extraído do jornal Público – Lisboa, Portugal.
Publicado em: 22 dez. 2014.

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Curso de tradução das Línguas Portuguesa e chinesa dos Institutos Politécnicos de Leiria e de Macau

In Língua Portuguesa Internacional,O Mundo de Língua Portuguesa on 20 de Dezembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , , , ,

Da Agência Lusa
20 de dezembro de 2014

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O Instituto Politécnico de Leiria (IPL) e o Instituto Politécnico de Macau (IPM) promovem em parceria há oito anos o Curso de Tradução e Interpretação Português-Chinês e Chinês-Português.

Esse curso especial de tradução já formou 114 tradutores e intérpretes, sendo 44 licenciados portugueses e 70 chineses, colocados em empresas privadas e instituições governamentais, dando-lhes habilidades de comunicação tanto na Língua Portuguesa quanto no chinês mandarim: a versão oficial adotada pela República Popular da China.

Iniciado em 2006, o Curso de Tradução e Interpretação Português-Chinês e Chinês-Português funciona em paralelo nas duas instituições: o primeiro e quarto ano no país de origem dos alunos e os dois anos intermédios em Portugal, para os chineses, e na China, para os portugueses.

“Essa é uma das mais-valias: potenciar a formação num contexto de imersão linguística”, disse à Agência Lusa a professora da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do IPL, Inês Conde, coordenadora do curso.

De acordo com Inês Conde, empresas privadas da área da tradução em Portugal, Brasil e Angola, órgãos de comunicação social da Região Administrativa Especial de Macau, universidades e entidades representantes do governo da República Portuguesa na China estão entre os organismos que têm garantido saídas profissionais aos alunos.

–– Diferenças de métodos de ensino de línguas ––
Durante as aulas, todos os alunos portugueses e chineses sentem as diferenças nas metodologias de ensino – conforme é praticado em Portugal ou na China –, embora Inês Conde sublinhe ser “mais difícil” aos alunos chineses assimilarem o método português do que o contrário.

“Os professores portugueses usam muito as estratégias criativas ou espontâneas de escrita ou produção oral, e os alunos chineses estão habituados a um sistema de mais memorização, repetição até de conteúdos e de estruturas gramaticais. Eles têm muita facilidade em estudar a gramática e sentem mais dificuldade na produção oral espontânea, sem preparação prévia”, explicou.

Já os portugueses, continuou, embora em geral adorem a experiência de estudar em Pequim e de sentir a “pulsão” da capital do país mais populoso do mundo – “o mar de gente que pulsa em Pequim todos os dias” –, relatam as diferenças encontradas na metodologia chinesa, “um tipo de ensino que requer muita disciplina, muito estudo, muito trabalho, muito treino linguístico”.

O feedback [retorno] que o Instituto Politécnico de Leiria tem dos responsáveis do seu congénere de Macau – com quem a parceria permitiu desenvolver uma “relação muito próxima com docentes e funcionários, quase familiar” – é o de que os alunos portugueses que ali demandam “são muito bons a aprender línguas estrangeiras”.

–– Alunos chineses são “muito respeitadores” e os portugueses, “mais informais” ––
No relacionamento com os professores, os alunos macaenses oriundos do Politécnico de Macau “têm uma relação muito cordial e muito formal”, principalmente no início do ano letivo. “Depois percebem que podem estar um pouco mais à vontade, mas são muito respeitadores, muito bem comportados nas aulas, respondem muito bem às solicitações dos docentes”, refere Inês Conde.

Os portugueses, esses, são mais informais, denotam “algumas características típicas” do país de origem, “nem sempre respeitam as horas de entrada nas aulas”, assinala, com um sorriso, a coordenadora do curso.

“Temos alunos que já falam chinês quase sem as marcas da sua origem, da sua língua materna. Têm-nos dito que trabalham e vão ao encontro das exigências que lhes são feitas na aprendizagem do mandarim”, frisou.

No regresso a Leiria, no quarto ano do curso, os professores de chinês destacados na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais “ficam muito contentes por perceberem que houve uma evolução enorme nos dois anos que passaram na China, e o trabalho que é feito já é de grande complexidade”.

No último ano os estudantes trabalham géneros textuais legais, administrativos, relacionados com a economia ou com a literatura “e conseguem atingir bons resultados”, manifestados, depois, nos estágios profissionais que se realizam no segundo semestre do quarto ano. “Fazem tradução de chinês para português e, se lhes pedirem, também de português para chinês”, revela.  :::

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–– Extraído da Agência Lusa ––

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Embaixador de Portugal na China elogia Macau como “ponto de encontro” entre os dois países

In Lusofonia e Diversidade,O Mundo de Língua Portuguesa on 11 de Dezembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , , ,

Da Rádio China Internacional
10 de dezembro de 2014

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Este ano marca o 15º aniversário do retorno da administração de Macau para a China. Em entrevista à Rádio Internacional da China, o embaixador de Portugal em Pequim, Jorge Torres Pereira, avaliou que a região tem um papel muito importante no relacionamento entre os dois países, e serve como um “ponto de encontro” para a China, Portugal e todos os países de Língua Portuguesa.

“Eu creio que o mais importante dizer, agora que consumamos quinze anos desta transferência da soberania à Republica Popular da China, é que Macau constitui ativo muito importante do relacionamento bilateral entre Portugal e a China.

Continuamos – quer o governo português, quer o governo da República Popular da China – a considerar que é um aspecto importante e simbólico da excelência do relacionamento entre os dois países o facto como Macau tem influenciado positivamente a atitude dos dois governos.”

Macau foi um dos primeiros locais de encontro entre China e Portugal, e essa importância permanece até hoje. O embaixador Jorge Torres Pereira disse acreditar que a cidade tem um potencial ainda maior no relacionamento bilateral.

“Portugal foi dos países que mais cedo teve contactos com a China. Nós gostamos de dizer que ‘por mar fomos os primeiros a chegar’. E pouco depois Macau foi, no fundo, um ponto de encontro entre a cultura chinesa e a realidade da China e a realidade portuguesa.

E esse papel de ponto de encontro, no fundo, nunca se perdeu. Foi adquirindo, ao longo da história, diferentes aspectos e, na história mais recente –depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China, depois da Declaração Conjunta Sino-Portuguesa–, o que nós temos visto nestes últimos quinze anos, é que cada vez mais há resultados concretos deste bom relacionamento, e há cada vez mais potencial de explorar e há cada vez mais áreas de cooperação que passam por Macau.”

Macau é palco do Fórum de Cooperação entre China e países lusófonos. Pereira também vê com bons olhos o evento na promoção dos intercâmbios e cooperações bilaterais e multilaterais.

“De certa maneira, balizam o que este Fórum poderá fazer nestes próximos anos e confirmam aquilo que eu venho de dizer, que há uma perspectiva otimista em relação à cooperação entre China e os diferentes países em que se fala português, em setores que, aliás, tem vindo a ser olhados desde o começo do formato.

É evidente que cada um dos países de Língua Portuguesa tem relações bilaterais com a China muito importantes, e nós não temos a pretensão de dizer que o fórum multilateral –que é o Fórum de Macau– substitui as relações bilaterais de cada um desses países. Agora, o que nós achamos é que é um espaço complementar muito importante, onde se podem descobrir sinergias, onde podem-se descobrir oportunidades que vão para além do relacionamento bilateral.”  :::

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–– Extraído da Rádio China Internacional ––

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Jorge Sampaio: CPLP “podia aproveitar melhor” vantagem de ter uma Língua comum

In Língua Portuguesa Internacional,Lusofonia e Diversidade on 8 de Dezembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , , ,

Da Agência Lusa
4 de dezembro de 2014

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O antigo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, esteve presente na sessão de abertura da Conferência da Aliança Progressista, que decorreu em Lisboa nos dias 4 e 5 de dezembro de 2014.

Jorge Sampaio considerou que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) “podia aproveitar melhor” o fato de ter uma Língua comum, defendendo mais políticas concertadas de cooperação para o desenvolvimento.

“Na CPLP, podemos aproveitar melhor o fato de termos uma Língua comum, com a revitalização destes fóruns em torno de uma agenda forte com prioridades comuns, da Língua aos oceanos, da cooperação à investigação, e isso podia ser portador de mudanças reais na vida de milhares ou milhões de pessoas”, disse o ex-presidente da República Portuguesa entre 1996 e 2006.

Para o antigo chefe de Estado português, a complementaridade de recursos, de instrumentos e de capacidades que existe no espaço da CPLP e de outros organismos similares obriga a “políticas concertadas de cooperação para o desenvolvimento movidas pela luta contra as desigualdades e que garantam que os jovens consigam ter acesso a mais oportunidades”, sendo crucial o desenvolvimento de “um novo paradigma da cooperação”.

Em sua intervenção, Jorge Sampaio passou em revista algumas das suas reflexões sobre o desenvolvimento e os grandes problemas que o mundo enfrenta, sublinhando a importância da “cooperação regional, onde há tanto por fazer”, e da apreensão que sente com a falta de solidariedade não só entre as gerações, mas também entre os mais ricos e os mais pobres.

A este propósito, salientou que os 85 multimilionários apontados pela organização internacional de ação social Oxfam detêm o mesmo valor que os 50% mais pobres da população mundial, o que significa – disse ele – que “85 pessoas têm os mesmos recursos que os 3,5 mil milhões de pessoas”.  :::

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–– Extraído da Agência Lusa ––

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Maioria da população dos países lusófonos tem cerca de um terço de jovens

In Lusofonia e Diversidade,O Mundo de Língua Portuguesa on 29 de Novembro de 2014 por ronsoar Tagged: , , , ,

Da Agência Lusa
18 de novembro de 2014

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Cerca de um terço da população da maioria dos países de Língua oficial portuguesa tem entre 10 e 24 anos e pode “transformar o futuro” do seu Estado, segundo o relatório do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) divulgado em 18 de novembro.

“O Poder de 1,8 Mil Milhões de Adolescentes e Jovens e a Transformação do Futuro”: este é o título do estudo sobre o estado da população mundial em 2014, que defende que o atual número de jovens no mundo – um recorde – pode impulsionar o desenvolvimento socioeconómico, com o adequado investimento na sua educação, na saúde e na proteção de direitos.

Dos nove lusófonos, apenas em Portugal e no Brasil os jovens não representam atualmente cerca de um terço da população: são 16% no país europeu e 25% no país sul-americano, embora neste caso ascendam ainda assim a 50,9 milhões.

Entre os restantes membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Timor-Leste apresenta o maior número de jovens, com 38% da população entre os 10 e os 24 anos, seguido de Angola e de Moçambique, ambos com 33% (7,2 milhões e 8,7 milhões respectivamente).

Cabo Verde e Guiné-Bissau têm 32% de jovens entre os 10 e os 24 anos, São Tomé e Príncipe tem 31% e a Guiné-Equatorial 30%.

O diretor-executivo do FNUAP, o nigeriano Babatunde Osotimehin, salientou, em um comunicado de divulgação do estudo, a oportunidade que a existência de um grande número de jovens representa para os países. Mas advertiu, no entanto, que “eles só podem transformar o futuro se tiverem competências técnicas, saúde, poderem decidir e fazer escolhas”.

O “dividendo demográfico” – que ocorre quando a população em idade ativa é maior do que a dependente e mais jovem – “tem o potencial para retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza e elevar os padrões de vida, lançando as economias”, afirma o relatório do FNUAP.  :::

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–– Extraído da Agência Lusa ––