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Portugal e Japão: uma relação entre povos desde a época das Grandes Navegações

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 3 de Dezembro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , ,

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Em 1543, marinheiros das naus portuguesas vindos de Macau, na China, desembarcaram nas praias da ilha de Tanegashima, no sul do arquipélago nipónico, para estabelecer comércio com o povo japonês, então relativamente isolado do mundo exterior.

Assim, Portugal tornou-se a primeira nação europeia a estabelecer contactos com o Japão, durante o período das Grandes Navegações. Foram aqueles portugueses desembarcados em Tanegashima que ainda teriam introduzido as armas de fogo no arquipélago japonês.

A chegada dos portugueses ao Japão é citada no livro História da Expansão e do Império Português, elaborado pelo professor da Universidade Nova de Lisboa, João de Oliveira e Costa. A obra abrange todo o período em que existiu o Império Português, que começou em Ceuta em 1415 e encerrou-se com a transferência de Macau à China em 1999.

A seguir, a reportagem da Agência EFE sobre o multissecular contacto entre portugueses e japoneses, inclusive entre as Línguas Portuguesa e japonesa. “Os portugueses mudaram a história do Japão, mas este manteve a sua própria civilização”, disse Oliveira e Costa.  :::

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–– Portugal e Japão: uma desconhecida relação
fruto da audácia lusa ––

Sabrina Aïd,
da Agência EFE (Espanha)
19 de novembro de 2014

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Apesar de ambos os países estarem em pontos distantes do planeta, Portugal e Japão conservam uma relação peculiar e pouco conhecida, que começou há 400 anos, graças à ousadia dos navegadores portugueses.

“O Japão foi o país asiático que sofreu o maior impacto e as maiores transformações vindas da expansão portuguesa”, disse o historiador e professor universitário João Oliveira e Costa, um dos autores do livro História da Expansão e do Império Português, publicado recentemente pela editora Esfera dos Livros.

A audácia dos navegadores portugueses no “descobrimento” do Brasil ou do caminho marítimo para a Índia já inspirou epopeias como Os Lusíadas, mas o impacto das naus portuguesas no remoto Japão é um capítulo pouco conhecido.

Iniciado em 1415 com a conquista de Ceuta [na África do Norte], o Império Colonial Português estendeu-se na África, na Ásia e na América do Sul, e ainda apenas três décadas mais tarde ocorreu o primeiro contacto com as ilhas nipónicas.

–– Semi-isolamento e primeiro contacto com europeus ––
Os japoneses conheceram um povo europeu pela primeira vez quando um grupo de comerciantes portugueses desembarcou em seu território em 1543, e desde então, desenvolveu-se uma intensa interação económica, assim como social e religiosa.

A escopeta portuguesa foi um dos objetos que causou maior impacto ao povo local japonês, que até então desconhecia as armas de fogo e lutava nas guerras com flechas e outras armas brancas.

“O Japão era um país semi-isolado até a chegada dos portugueses. A relação luso-nipónica contribuiu para uma atualização significativa dos conhecimentos da civilização japonesa”, disse Oliveira e Costa, cuja obra [sobre o Império Português] reúne de forma inédita desde o início da expansão marítima portuguesa (1415) até a independência [transferência da soberania à China] da colônia chinesa de Macau (1999).

–– Palavras portuguesas e arte namban ––
Além das armas de fogo, os portugueses introduziram várias palavras na língua japonesa durante o período conhecido como “Comércio Namban”.

Assim, os japoneses adotaram vocábulos da Língua Portuguesa como pan (pão), tabako (tabaco), botan (botão) e kirishitan (cristão).

“A chegada das naus portuguesas, com os seus trajes, estranhos para eles, com animais nunca vistos no Japão [galinhas, patos ou coelhos], com tripulantes negros, com costumes diferentes, foi registada pelos artistas japonenses”, disse o docente da Universidade Nova de Lisboa.

Outro reflexo da interação entre europeus e japoneses foi a arte namban, normalmente observada nos biombos japoneses, nos quais foram retratados os contatos comerciais entre as duas civilizações, à maneira de um álbum de imagens.

“Há vários museus japoneses com peças associadas à cultura namban, principalmente as de caráter religioso, como pinturas, bandeiras e armas dos cristãos”, relatou o historiador, que destacou os móveis lacados que evocam o Ocidente.

A cultura namban deixou a sua marca não só nas artes visuais, mas também nos rituais religiosos, nas artes interpretativas e na cultura científica de ambas as civilizações.

–– “Os portugueses mudaram a história do Japão” ––
Outras marcas relevantes perderam-se devido aos conflitos políticos e religiosos, que levaram inclusive à perseguição de cristãos no Japão, considerados um perigo para o arquipélago por ser uma bandeira colonizadora.

“Tudo o que estava relacionado com os portugueses foi destruído. Todas as igrejas foram destruídas no século XVII”, constata Oliveira e Costa.

Apesar dessas tensões, a prova viva da relação centenária que uniu Japão e Portugal durante quase um século está em Macau, que se tornou uma importante porta para o comércio entre China, Europa e Japão.

A pequena Macau, transferida para a administração de Pequim em 1999, é um ponto onde convergem a identidade portuguesa e chinesa, uma ponte entre a cultura ocidental e oriental.

“Os portugueses mudaram a história do Japão, mas este manteve a sua própria civilização”, lembrou Oliveira e Costa, que explicou a razão pela qual este episódio da história acabou por ter menos peso que a colonização portuguesa do Brasil em 1500.

Diante de uma civilização de tecnologia escassa, especialmente em relação às armas, os portugueses impuseram sua força diante dos aborígenes do Brasil.

“Embora, no caso do Japão, que nunca passou pela cabeça dos portugueses colonizá-los”, disse Oliveira e Costa para concluir a chave da questão, “toda a gente sabia que o país dos samurais era impossível de se conquistar”.  :::

(Tradução de Ronaldo Santos Soares)

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Com base em
AÏD, Sabrina. Portugal y Japón, una desconocida relación fruto de la audacia lusa.
Extraído da Agência EFE (Espanha)
Publicado em: 19 nov. 2014.

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