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A história de uma tipografia portuguesa de Goa

In Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 11 de Outubro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , ,

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Existe uma rica e longa história muito especial entre duas importantes civilizações que muito acrescentaram uma à outra – entre a Índia e o mundo de Língua Portuguesa. Dentre as nações do Ocidente, a presença portuguesa foi a que teve mais longa duração na Índia: durou mais tempo que a do domínio britânico, por exemplo.

A Índia foi o destino principal das Grandes Navegações portuguesas dos séculos XV e XVI. Goa foi a capital do Estado da Índia Portuguesa e esteve sob administração lusa de 1510 a 1961, quando – após muita relutância do autoritarismo português contra a transferência pacífica – foi anexada por via militar à União Indiana.

Boa parte dos manuscritos de Os Lusíadas de Camões foi escrita em Goa. A presença portuguesa permanece viva nessa parte da costa ocidental da Índia com toda a riqueza da cultura indo-portuguesa, com a arquitetura das casas de estilo mesclado indiano e português, nos nomes e apelidos de muitos indianos tanto de Goa quanto de outras partes do subcontinente.

E nas línguas também, com os crioulos de matiz portuguesa da Índia e a própria “Língua de Camões”, que foi a Língua franca da costa da Ásia nos séculos XVI e XVII. Por sua presença e influência, a Língua Portuguesa é tão “indiana” quanto o inglês.

Os portugueses trouxeram a imprensa à Índia em 1553. A partir de meados do século XIX, diversas editoras e tipografias apareceram no então Estado da Índia Portuguesa, que publicavam não somente em Língua Portuguesa como também em outras línguas, como o concani.

A reportagem a seguir do jornal The Times of India mostra a história de uma das editoras portuguesas de Goa – a Tipografia Rangel. Trata-se também de um pequeno testemunho da história de simbiose cultural de mais de cinco séculos entre a Índia e o mundo que fala português.

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–– A gravar o seu nome nas páginas da história –––

Andrew Pereira, de Goa (Índia)
do jornal The Times of India
28 de setembro de 2014

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Bem guardado em uma tranquila, bonita e arborizada esquina da vila de Bastora, no concelho de Bardez [no distrito de Goa Norte], repousa um pedaço de história que definiu as vidas leitoras de várias gerações de goeses.

Essa parte da nossa história provavelmente surgiu devido a um evento que teve lugar dois séculos e meio atrás. Os jesuítas, que vieram para publicar obras escritas desde 1556, haviam sido expulsos de Goa em 1759 durante o governo do Marquês de Pombal. Como resultado, a publicação de livros chegou a uma paralisia em Goa por algum tempo. Foi nessa época em que nasceu Vicente João Janin Rangel, a 16 de março de 1858, na vila de Piedade, na ilha de Divar. Após perder o pai aos seis anos de idade, ele foi apadrinhado por sua mãe Luísa Maria Lobo e Rangel e instruído por seu tio, o padre Caetano Francisco Lobo, que exerceu um impacto duradouro em sua vida.

A família Rangel mudou-se de Divar para Bastora, e Janin cresceu para tornar-se um jovem com espírito empreendedor. “Aos 28 anos, ele, juntamente com sua irmã, aventurou-se em um negócio conhecido como ‘indústria de conservas’, que envolvia a embalagem de frutas, legumes, e produtos de leite e carnes. Sua empresa, a J. Rangel e Companhia, foi assim constituída”, conta Jaime Rangel, médico e escritor, bisneto de Janin Rangel.

Em 1886, quando alguns indivíduos tinham estabelecido prensas e circularam os seus próprios jornais em Goa, Janin sentiu que havia ali uma oportunidade no mundo da impressão e da editoração, e foi a fundo na área. Ele fundou a Tipografia Rangel em sua casa em Boa Vista, na vila de Bastora, e depois começou a coordenar e publicar os Elementos de Música para o ensino de solfejo, um método de educação musical com entonação e canto por leitura.

“Este foi o primeiro livro desse gênero, não apenas em Goa, mas também na Índia Britânica. Ele continua a ser usado até hoje”, diz Jaime Rangel. O primeiro livro publicado em Bastora foi o Almanaque de Bofete [sobre alimentos]. Em seguida, veio o Almanaque de Parede. Entre outros trabalhos posteriormente publicados, havia uma revista quinzenal chamada O Indispensável, que ele cofundou com o Dr. Pitágoras Lobo do Socorro. Ele também foi autor do livro do Regulamento das Comunidades Agrícolas de Goa.

Ao lado das obras em Língua Portuguesa, a Tipografia Rangel também publicou livros em concani, em inglês e em francês. Foi em 1909, quando a Tipografia Rangel publicou o Almanach Illustrado de Parede e Bofete, que chegou a era de apogeu da impressão em Goa. Esse foi o primeiro livro a usar o processo de impressão em quatro cores CMYK, que teve fotografias e desenhos em composição, todos feitos a oito décadas de distância do Coreldraw e da editoração por computador.

As obras pedagógicas de Janin incluíram posteriormente o Primeiro Tomo e o Segundo Tomo em Línguas Portuguesa e concani, uma gramática elementar da Língua Portuguesa e um livro elementar do sistema métrico decimal. “Em 1933, ele publicou sua magnum opus: uma obra monumental intitulada A Gramática da Lingua Concani, em português e concani. Esse livro tinha um prefácio de 28 páginas todo escrito em concani por seu filho, o dr. Jaime Valfredo Rangel, a detalhar a história da língua concani”, disse Jaime Rangel.

Valfredo Rangel logo assumiu o negócio de impressão e editoração de seu pai. “Foi durante a era de Valfredo que o negócio expandiu e floresceu”, disse Jaime Rangel.

Valfredo fez circular seu próprio jornal semanário, O Independente, de 1933 a 1945. Ele também foi editor dos Arquivos da Escola Médica de Goa, publicados pela Tipografia Rangel. “Ele assumiu a responsabilidade de imprimir o Boletim do Instituto Vasco da Gama, que foi rebatizado mais tarde como Instituto Meneses Bragança, e o boletim também, como o ‘Boletim do Instituto Meneses Bragança'”, disse Jaime Rangel.

Outros livros publicados foram o Boletim Eclesiástico de Goa, da Arquidiocese de Goa, e o seu formato anterior, A Voz de S. Francisco Xavier. Além de publicar livros para estudantes de línguas e de ciências e revistas médicas, Valfredo escreveu e publicou o livro Imprensa de Goa em 1956, a comemorar os 400 anos de livros impressos em Goa. Tudo isso foi feito, mesmo com Valfredo Rangel a exercer o cargo que lhe foi confiado de presidente da Câmara Municipal de Bardez, posto que ocupou por 10 anos.

Valfredo faleceu em 1959 aos 62 anos, e as rédeas do negócio foram transferidas para seu filho, José Rangel. O primeiro teste de José Rangel veio em 1961, quando Goa atravessou momentos turbulentos, que culminaram em profunda mudança política. “Muitas obras por imprimir não foram concluídas. A Tipografia Rangel ficou sem pagamentos e enfrentou perdas financeiras”, disse Jaime Rangel.

José Rangel suportou esse período de provação e continuou a publicar obras em várias línguas. “Com o predomínio do inglês e das línguas nacionais nos anos seguintes, muitas editoras não viram sentido para os negócios na publicação de obras escritas em português. O meu pai, José, porém, deu uma saída a esses escritores e ajudou-os a publicar suas obras” disse Jaime Rangel.

A Tipografia Rangel logo tornou-se um nome popular entre as crianças na idade escolar, com a impressão de calendários escolares das instituições de ensino das vilas próximas de Bastora, Aldoná e Mapuçá. Quando José ficou em idade avançada, ele encerrou suas operações por razões diversas e a Tipografia Rangel fez rodar a impressão de suas últimas obras em 1994.

O filho de José Rangel, Jaime, diz não ter a intenção de refundar a editora. “Apesar disso, fiz reviver a empresa com a publicação de uma edição comemorativa: Let a Million Blossoms Bloom [“Que Desabrochem Um Milhão de Flores”, de 2011], que estava ligada ao 125º. aniversário da Tipografia Rangel e da fundação da Escola Secundária de Santa Cruz de Bastora, que foi construída em um terreno oferecido por meu avô, Jaime Valfredo Rangel”, disse.

Das máquinas de impressão manual para o uso de prensas a gasóleo e até a mudança para as prensas elétricas, a Tipografia Rangel indelevelmente gravou o seu nome nas páginas da história de Goa.  :::

PEREIRA, Andrew. Etching its name on the pages of history.
Extraído do jornal The Times of India (Índia).
Publicado em: set. 2014.

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