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Deixem a ortografia em paz – Jaime Pinsky

In Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 29 de Agosto de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , , ,

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O Senado Federal – que é a alta Casa legislativa do Congresso Nacional, o Parlamento brasileiro – criou um grupo de trabalho técnico para estudar e propor alterações no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2008, mas teve a sua aplicação exclusiva adiada para 2016.

O grupo alega buscar formas para facilitar o aprendizado da ortografia nos países lusófonos. Porém, estuda alterações radicais na escrita da Língua, em que as palavras seriam escritas tal como pronunciadas. Estão dentre as sugestões a supressão da letra “h”, do hífen e do “u” depois de “g” e “q”, bem como a substituição de “ch” por “x”, por exemplo.

Tais propostas polêmicas receberam forte rejeição da comunidade de linguistas e de especialistas da Língua Portuguesa no Brasil, e de membros da Academia Brasileira da Letras e da Comissão Nacional brasileira do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).

O escritor e historiador brasileiro Jaime Pinsky – que é professor da Universidade Estadual de Campinas, no Estado de São Paulo – lançou, em maio deste ano, um artigo de opinião no jornal Correio Braziliense em que também faz forte crítica à proposta radical de nova mudança na ortografia da Língua. “Além de não ser boa, a ideia é impraticável”, declara.

Segundo o autor, não é recomendável a ideia proposta de escrever exatamente como se fala em uma Língua com grande variação de pronúncias.

“A ortografia é uma representação abstrata e convencional da língua. E é fundamental que o sistema ortográfico seja estável e que, independentemente da variação na fala, haja uma única representação gráfica por palavra”, afirma Jaime Pinsky.

A ortografia da Língua portuguesa, construída por séculos de tradição literária, permite sua plena identificação como a representação na escrita de uma Língua neolatina, semelhante ao espanhol, ao francês ou ao italiano. “Arrancar as raízes de nossa ortografia seria romper com importantes aspectos de nossa identidade histórica”, conclui.

Ventos da Lusofonia reproduz na íntegra o artigo de Jaime Pinsky – Deixem a ortografia em paz – publicado em 9 de maio de 2014 no jornal Correio Braziliense, de Brasília.

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–– Deixem a ortografia em paz ––

Jaime Pinsky
do jornal Correio Braziliense (Brasília, Brasil)
9 de maio de 2014

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Do Senado, duas notícias, uma boa e outra má. A boa: parece que temos senadores preocupados com o Ensino de Português. A má: querem alterar outra vez nossa ortografia, agora radicalmente, com a esperança de que, com isso, alunos possam obter melhores resultados na aprendizagem da Língua. Criaram até uma Comissão, com o objetivo de aplicar o Acordo Ortográfico (o mesmo que, na prática, já está em vigor), e para fazer com que “se escreva como se fala”.

Além de não ser boa, a ideia é impraticável. Fico curioso a respeito de como vai se escrever, por exemplo, aquilo que na ortografia atual é denominada Estação das Barcas (lá na Praça Mauá, no Rio de Janeiro). Para “fazer justiça” à pronúncia, deveríamos grafar “Ijtação daj Barcaj” ou “Ixtação dax Barcax”? Fora do Rio, talvez “Istação”, ou ainda “Stação”, como muita gente fala, já que poucos dizem “estação”, além dos curitibanos…

E como redigir o quarto mês do ano? “Abriu”, como dizem muitos brasileiros, “abril”, como diriam alguns gaúchos, ou “abrir”, como parte dos paulistas, mineiros, paranaenses e outros pronunciam? Cabe ao leitor pensar em outros exemplos.

Pesquisas excelentes, feitas por linguistas sérios (Thais Cristófaro, Ataliba Castilho, Stella Maris Bortoni, entre muitos outros) têm mostrado enorme variação linguística até no chamado português culto. Qual seria, pois, o ponto de partida oral, para sua suposta reprodução em texto escrito? Obrigar todos a pronunciar as palavras de uma só maneira, ou ter uma infinidade de representações gráficas para diferentes expressões fonéticas?

Mas isso não é tudo. Como costuma lembrar Carlos Alberto Faraco, a língua escrita não é mero reflexo da língua falada: ambas constituem meios autônomos de manifestação do saber linguístico. A ortografia é uma representação abstrata e convencional da língua. E é fundamental que o sistema ortográfico seja estável e que, independentemente da variação na fala, haja uma única representação gráfica por palavra. Do contrário, não teríamos como reconhecer palavras que fossem escritas em outro tempo (ou até em outro espaço). Seria o caos.

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As línguas, patrimônios culturais da humanidade, possuem história. Elas resultam de práticas sociais que as moldaram para que aqui chegassem do jeito que são. São fatores fonológicos, morfológicos, etimológicos e de tradição cultural que fizeram com que nossa Língua seja grafada do jeito que é.

Línguas também têm parentesco, e nossa origem latina comum permite que possamos ler com relativa facilidade (mesmo que não falemos) outras línguas como o espanhol, o francês e o italiano. Mesmo o inglês, graças ao enorme contingente de palavras de origem latina, fica mais acessível a partir de grafias semelhantes. Arrancar as raízes de nossa ortografia seria romper com importantes aspectos de nossa identidade histórica.

Temos ainda o aspecto prático, talvez o mais relevante de todos. Quando foi imposto o último Acordo Ortográfico (que, absurdamente, teve sua implantação oficial postergada), toda a indústria editorial movimentou-se para preparar novas edições de todo o seu acervo. Dezenas de milhares de títulos sofreram as mudanças exigidas pelo MEC [o Ministério da Educação do Brasil] e outros órgãos governamentais e privados. Gramáticas e dicionários foram refeitos; tratados foram revisados; livros infantis, alterados; manuais, reeditados.

Uma nova reforma seria desastrosa, não só para as editoras, mas também para os governos, que teriam que substituir todas as bibliotecas novamente. Trata-se de muito dinheiro jogado fora, possivelmente levando à falência muitas casas editoriais importantes, promovendo gasto desnecessário de verbas públicas, tornando obsoletos bilhões de livros escolares e universitários.

E há, ainda, o aspecto da exclusão social. Quando uma reforma ortográfica é implantada, grande parte dos adultos se torna analfabeta, já que eles nem sempre conseguem reter e utilizar as novas regras inventadas por capricho de meia dúzia de “sábios”, ou de desavisados.

A preocupação é com a qualidade do ensino? Busquem-se soluções adequadas, fazendo com que excelentes pesquisas realizadas por importantes grupos de especialistas possam chegar até as escolas brasileiras, por meio de amplo programa nacional de qualificação de professores do Ensino Fundamental. Se houver, de fato, intenção de melhorar o ensino no Brasil, está cheio de gente boa pronta para ajudar.  :::

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PINSKY, Jaime. Deixem a ortografia em paz.
Extraído do jornal Correio Braziliense – Brasília, Brasil.
Publicado em: 09 maio 2014.

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Leia também:
O Acordo Ortográfico e o Senado Federal, em editorial do jornal ‘O Estado de S. Paulo’ – 04 de agosto de 2014
Os boatos no Brasil sobre mudanças ortográficas radicais na Língua Portuguesa – 27 de agosto de 2014

Uma resposta to “Deixem a ortografia em paz – Jaime Pinsky”

  1. Há anos que se discute o assunto e cada país, vai fazendo adiamentos, sem se chegar a uma conclusão aceitável, que preserve a estrutura da nossa língua!

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