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Lusofonia: alteridade e desconstrução – Filinto Elísio

In Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 15 de Agosto de 2014 by ronsoar Tagged: , , , ,

Filinto Elísio, além de ser homónimo de um dos mais importantes poetas portugueses do século XVIII, é também um dos principais nomes da atual poesia de Cabo Verde e da África de Língua Portuguesa.

Ele escreveu um artigo no jornal Diário de Notícias, de Funchal, Madeira, em que lança uma questão: para onde vai a Lusofonia? Quo vadis?.

Em suas palavras, o mundo lusófono há muito deixou de restringir-se somente a Portugal. “Penso que o clube dos países de Língua oficial portuguesa não se reflete apenas na ‘portugalidade'”, diz ele, mas também refere-se “à ‘angolanidade’, à ‘brasilidade’, à ‘caboverdianidade’ e mais ‘nidades’ que, sendo importantes, não se lhes aceita a hegemonia”.

Para complementar a questão: “Ponho-me a pensar no que seria a Língua Portuguesa se o Brasil dela se abstivesse e se os países africanos não a assumissem como idioma da educação formal e da administração pública?”

“Tudo isso para dizer o quanto me apaziguaria o pensamento se em qualquer ponto da Terra”, em vez de nacionalismos, “pudesse inferir pela bandeira da CPLP que ‘também falamos em português’!”

E o poeta cabo-verdiano vaticinou: “A reinterpretação semântica da Lusofonia, ressignificada hoje em múltiplas identidades culturais e diversas soberanias, deve ser a pedra de toque para o fortalecimento de uma ‘Comunidade de plataforma lusófona'”.

A seguir, Ventos da Lusofonia reproduz na íntegra o artigo de opinião de Filinto Elísio sobre os rumos do mundo de Língua Portuguesa e a visão do conjunto de seus países como a “Comunidade de plataforma lusófona”, além de um comentário breve sobre a adesão da Guiné Equatorial.  :::

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–– Lusofonia: alteridade e desconstrução ––

Filinto Elísio
do jornal Diário de Notícias – Madeira (Portugal)
13 de agosto de 2014

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Chego a um hotel em Paris e vejo um anúncio em várias línguas, inclusive na Língua Portuguesa, para o meu mais total conforto e compreensão. Ao texto, replicado em português, aparece a bandeira do Brasil. Já, ao tomar o comboio na Amsterdam Centraal, as explicações, algumas, diga-se de passagem, traziam no frontispício a bandeira de Portugal. Pus-me a rir, afoito à brincadeira, que também poderiam estar as bandeiras de todos – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. E, já sem rir, ainda afoito à exegese, a bandeira da CPLP. Quo vadis?

Vastas vezes, ponho-me a pensar sobre a Lusofonia, seu potencial e seu alcance. Em contraponto a algumas intervenções por ocasião da entrada oficial da Guiné Equatorial à CPLP, na X Cimeira de Díli, penso que o clube dos países de Língua oficial portuguesa não se reflete apenas na “portugalidade” e, em consequente desdobramento, no modo de ser e de estar tão somente dos portugueses. Digo o mesmo em relação à “angolanidade”, à “brasilidade”, à “caboverdianidade” e mais “nidades” que, sendo importantes, não se lhes aceita a hegemonia.

A reinterpretação semântica da Lusofonia, ressignificada hoje em múltiplas identidades culturais (inclusive linguísticas) e diversas soberanias (inclusive de princípios e interesses), deve ser a pedra de toque para o fortalecimento de uma “Comunidade de plataforma lusófona”.

Olhando para o globo e inferindo ali uma consequente visão da geopolítica, torna-se mais que legítima pretender uma coisa maior e melhor. Não se consegue construir uma CPLP forte, operacional e credível, capaz de ter um papel (cultural, social, econômico e político) mais efetivo e determinante no mundo globalizado, mantendo a ideia de uma rede em que os atuais nove estados soberanos, mais as suas comunidades emigradas, estejam amarradas a uma geometria fixa e invariável em torno de um centro reprodutor unilateral do ethos e do pathos.

Ponho-me a pensar no que seria a Língua Portuguesa, hoje a quinta do planeta, se o Brasil dela abstivesse e se os países africanos não a assumissem como idioma da educação formal e da administração pública? O que seria a CPLP se, presa à sua carta fundacional, não atraísse novos países (estes em diferentes velocidades históricas, mas dispostos a virem partilhar o desejo do diálogo “interlusófono”), nem fosse, agora e doravante, uma comunidade mais composta e plural?

Leio as palavras de Abdou Diouf, Secretário-Geral da Francofonia, no Le Magazine de l’Afrique, assertivas de que “sans l’Afrique, la Francophonie serait sans avenir”. Mutatis mutandis, o que seria a Lusofonia sem os vários continentes? O que seria a CPLP se, podendo emancipar de dúbias heranças do “orgulhosamente só”, pudesse trabalhar para alargar o espaço dos novos países observadores e, paulatinamente, integrá-los como membros de pleno direito? Aliás, parecem ser estes os grandes desafios da “presidência timorense” e, fazendo jus à rotatividade, da próxima “presidência cabo-verdiana”.

Em jeito de ressalva, não fique aqui a impressão de que defendo regimes fechados, autoritários e monolíticos, nem que esteja agora, sub-repticiamente, a legitimar comportamentos que firam a dignidade e os direitos humanos. Nada disso. Sou contra a pena de morte em qualquer país do mundo, assim como não subscrevo as perseguições políticas, a tortura e o controlo dos cidadãos, uns através das antigas tecnologias, outros através das novas tecnologias. Sou contra o assalto ao Existencialismo, tanto em latitude como em longitude.

Entrementes, o assunto versa ora sobre como alargarmos a Lusofonia, em que a premissa correta, ao meu modesto ver, exigiria a alteridade e a desconstrução de uns e de outros desse, já bem demorado, Síndrome de Casa Grande e Senzala. Tudo isso para dizer o quanto me apaziguaria o pensamento se no hotel de Paris, no Amsterdam Centraal ou em qualquer ponto da Terra, esta casa comum, pudesse inferir pela bandeira da CPLP que “também falamos em português”!  :::

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ELÍSIO, Filinto. Lusofonia – alteridade e desconstrução.
Extraído do jornal Diário de Notícias – Madeira (Portugal)
Publicado em: 13 ago. 2014.

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