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Língua Portuguesa, com 800 anos e ainda menina – José Ribeiro e Castro

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade on 14 de Agosto de 2014 by ronsoar Tagged: , , ,

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O advogado José Ribeiro e Castro é membro da Assembleia da República – o Parlamento da República Portuguesa – e escreveu um artigo em ocasião das comemorações dos 800 anos da Língua Portuguesa.

Nessa celebração, o jornal Público de Portugal e cerca de 30 jornais brasileiros e da África lusófona, publicaram artigos sobre a importância e o futuro da Língua Portuguesa no mundo.

O próprio autor lança a pergunta: “Porquê celebrar este facto?” E uma parte da resposta: “Porque é importante o mundo conhecer que há uma Língua internacional que está em festa.”

Nas palavras do autor, “o Português como grande Língua internacional contemporânea é, afinal, uma novidade: bem vistas as coisas, não tem ainda 40 anos”, apesar do grande legado cultural, literário e de conhecimentos gerados por longo tempo por Portugal e Brasil. E argumenta como nasceu esse conceito de Língua Portuguesa internacional e de Lusofonia: “Nasceu assim com a independência das antigas colónias e a escolha inteligente dos novos países; e consolidou-se na CPLP.”

O advogado e deputado fez referência ao português como “uma Língua intercontinental”, qualificando-a como “uma Língua do Mundo”, e por estar presente em todos os continentes e entre múltiplas realidades culturais, constitui “tão precioso capital estratégico”.

A seguir, o artigo de opinião na íntegra de José Ribeiro e Castro a celebrar os 800 anos da Língua Portuguesa em documentos escritos oficiais. O artigo foi publicado pelo jornal Diáriu Independente (Timor-Leste) a 26 de junho de 2014 e pelos jornais Público (Portugal) e O Democrata (Guiné-Bissau) a 27 de junho de 2014.

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–– Com 800 anos e ainda menina ––

José Ribeiro e Castro
Do jornal Público (Lisboa, Portugal)
27 de julho de 2014

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É arbitrário datar o nascimento de uma língua. Atrevimento mesmo, já que obviamente uma língua não nasce assim de repente, num dia.

A formação de uma Língua é um processo, não um momento. Mas essa indeterminação também acontece com pessoas. Camões, por exemplo: ninguém sabe ao certo se morreu a 10 de junho; e, todavia, é o dia que fixámos, até feriado em Portugal. Ou Jesus Cristo: do Seu nascimento, o que sabemos é que não nasceu seguramente a 25 de dezembro e, quanto ao ano, também não foi há 2014 anos; e, todavia, é aí que fixámos a festa religiosa do Natal e daí marcámos o calendário da nossa era.

É assim que marcamos a data referencial da Língua Portuguesa, na esteira de uma ideia apresentada pelo professor Roberto Moreno. Fazemo-lo em 27 de junho de 1214, dia em que, em Coimbra, o terceiro Rei de Portugal, D. Afonso II, subscreveu o seu testamento em Língua Portuguesa. É o mais antigo documento régio em Português, o primeiro texto na nossa Língua ao mais nível de um Estado, o primeiro texto da Língua Portuguesa em uso oficial. Por um lado, já é Português e não galaico-portucalense, culminando outros raros textos anteriores já conhecidos nesse processo arcaico de autonomização linguística: uma “Notícia de Fiadores”, um auto de partilhas, cantigas de trovadores. Por outro lado, é a prova de que ascendera ao mais nível do Estado, não circulava apenas na comunicação particular.

A 27 de junho de 2014, festejaremos 800 anos desse dia, oitocentos anos desse facto. Um texto, cuja primeira linha era assim: «En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, tem(en)te o dia de mia morte a saude de mia alma e a proe de mia molier reina dona Vrr(aca) e de meus filios e de meus uassalos (…)».

Não havendo Acordo Ortográfico, nem as suas polémicas, hoje, escrevê-lo-íamos assim: «Em nome de Deus. Eu, rei D. Afonso, pela graça de Deus rei de Portugal estando são e salvo, temendo o dia da minha morte, para a salvação da minha alma e para proveito de minha mulher, a rainha D. Urraca e de meus filhos e de meus vassalos (…)».

Porquê celebrar este facto?

Porque é importante o mundo conhecer que há uma Língua internacional, a quarta Língua mais falada do mundo, uma preciosa ferramenta na globalização, a terceira Língua europeia global, que é também Língua americana, Língua africana, Língua do Oriente, a Língua mais falada do Hemisfério Sul – que está em festa, porque celebra oito séculos, oitocentos anos. Coisa rara. Coisa única. Parabéns a nós!

De forma lapidar, esta é aquela de que Virgílio Ferreira disse: “da minha Língua vê-se o mar”. É o mar, na verdade, que explica tudo. Depois daquele texto de D. Afonso II, a Língua consolidou-se. E, a partir do século XV, tendo aprendido a navegar, houve um português que a levou até à Madeira; e, depois, a Cabo Verde e às costas africanas; e à Índia; e ao Brasil; e ao Oriente – tudo isto, porque o Português é uma Língua de que se vê o mar.

E, depois, houve outros, outros e mais outros, houve brasileiros, e angolanos, e cabo-verdianos, guineenses e são-tomenses, e goeses, indianos e paquistaneses, e cingaleses, e moçambicanos, e timorenses, e macaenses, e outros que levaram essa mesma Língua a tantos outros lugares em todos os continentes, e a enriqueceram, e enriquecem – que a levam e trazem, todos os dias, como património comum, tesouro de cultura, matriz de memórias, de alma e de identidades.

Haverá riqueza maior? Haverá riqueza melhor? É importante, na verdade, assumirmos consciência desta riqueza, valor económico também. Numa era em que é preciso estudar e em que parece nada existir se não tiver expressão em percentagens do Produto Interno Bruto, em boa hora o Instituto Camões encomendou estudos que revelam que, só em Portugal, a nossa Língua vale 17% do PIB. Mas a Língua que usamos e partilhamos vale bem mais do que isso.

O Português como grande Língua internacional contemporânea é, afinal, uma novidade: bem vistas as coisas, não tem ainda 40 anos. Nasceu assim com a independência das antigas colónias e a escolha inteligente dos novos países; e consolidou-se na CPLP.

É um facto novo, muito novo – única desculpa para a pouca consciência de muitos quanto à enorme riqueza e, como é a linha que tenho defendido, ao fortíssimo potencial deste “Português, Língua da Europa”, “Português, Língua de África”, “Português, Língua das Américas”, “Português, Língua do Oriente”: Português, Língua do Mundo; Português, Língua global.

Uma Língua intercontinental, com 800 anos, e ainda menina: sólida e a crescer. Festejemos! E, sobretudo, cultivemos cada vez mais este tão precioso capital estratégico.

Viva nós! Parabéns a nós!  :::

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RIBEIRO E CASTRO, José. Com 800 anos e ainda menina.
Extraído do jornal Público – seção Ípsilon, subseção Opinião
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 27 jul. 2014.

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