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Amílcar Cabral: “A Língua Portuguesa é uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram”

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade on 10 de Agosto de 2014 by ronsoar Tagged: , , , ,

Há 40 anos, após o sucesso da Revolução dos Cravos que trouxe a democracia a Portugal, iniciou-se o processo de independências das nações que então faziam parte do “Ultramar” português. Tornou-se irreversível a imediata descolonização. E do fim do Império Português, surgiu o mundo lusófono com nações livres.

O jornalista Jorge Montezinho, do Expresso das Ilhas, de Cabo Verde, escreveu um artigo sobre o líder da independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, Amílcar Cabral, e sua visão sobre a importância da Língua Portuguesa.

Nascido em 1924, em Bafatá, onde era a então Guiné Portuguesa, Amílcar Lopes Cabral foi um intelectual e defensor ativo da liberdade dos povos da África. Foi poeta, agrónomo e fundador do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Porém, morreu assassinado na Guiné-Conacri em janeiro de 1973, pouco antes da efetiva independência das duas nações lusófonas.

Nas palavras do poeta e político português Manuel Alegre, “Amílcar Cabral foi em meu entender o mais inteligente, o mais criativo e o mais brilhante de todos os dirigentes da luta de libertação dos povos africanos colonizados naquela altura pelo regime português.”

Amílcar Cabral era um defensor da educação e do estudo sobre o crioulo cabo-verdiano e as línguas locais da então Guiné Portuguesa. Porém, percebeu a necessidade de tornar o português Língua oficial das duas nações. Por ser uma Língua de expressão internacional, de ligação e de integração das nações africanas com o mundo. E por ser uma Língua neutra, de união dos diversos povos que falavam suas línguas próprias, sem favorecimento a um povo em detrimento dos demais, o que lhes reforça o sentimento de pertencerem a uma nacionalidade.

Assim – seguindo o mesmo processo visto nas nações africanas saídas do período colonial –, a Língua Portuguesa, que antes era a Língua do domínio do Império, do colonialismo e da opressão, foi transformada, após as independências, na Língua da resistência, da libertação, da união dos povos, da afirmação da identidade nacional, do contato com o mundo.

A seguir, Ventos da Lusofonia reproduz alguns trechos da reportagem sobre a Língua Portuguesa por Amílcar Cabral, um dos principais líderes e mártires da liberdade no mundo lusófono.

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–– “A Língua Portuguesa é uma das melhores coisas
que os portugueses nos deixaram” ––

Jorge Montezinho
do jornal Expresso das Ilhas (Cabo Verde)
30 de junho de 2014

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As primeiras caravelas que chegaram à Guiné-Bissau, em 1446, estavam longe de imaginar que no bojo transportavam também a Língua em que foi declarada a independência do país, quinhentos e vinte e sete anos depois.

Naquele dia 24 de setembro de 1973, o idioma da opressão colonial transformou-se em Língua de libertação nacional. Amílcar Cabral não assistiu à cerimónia, tinha sido assassinado no primeiro mês desse ano, mas reconheceu “que o português de múltiplas tiranias era o mesmo português das várias resistências”, como escreveu Manuel Alegre.

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Amílcar Cabral definiu a luta de libertação como um ato de cultura, e no contexto da libertação nacional, Cabral não foi só um líder revolucionário; foi também, como lhe chamou Paulo Freire, um “pedagogo da revolução”. Cabral não só delineou como começou a implementação das bases de um novo paradigma educacional que, pelo seu caráter libertador, humanista e progressista, contrariava os pressupostos do ensino colonial. […]

Amílcar Cabral partiu do conceito que a libertação nacional não se limita à conquista da independência, ou ao içar da bandeira nacional, mas implica a plena emancipação do homem e a “libertação das forças produtivas humanas e materiais da nossa terra, no sentido de elas se poderem desenvolver plenamente de acordo com as condições históricas que a gente está vivendo hoje em dia”. Mais: apresentou o contributo decisivo da “Arma da Teoria”, ou seja, o conhecimento científico, para o sucesso das revoluções de libertação nacional. […]

–– Pedagogia da libertação ––
Ao longo dos textos, Cabral não só sublinha a ideia de que a luta para a independência e o progresso só pode ter sucesso apostando na educação e na aprendizagem como aplica uma prática consequente ao procurar criar condições para que a cultura e o saber fossem acessíveis a todos, nomeadamente através do cultivo da leitura: “Criar, a pouco e pouco, bibliotecas simples nas zonas e regiões libertadas, emprestar aos outros os livros de que dispomos, ajudar os outros a aprender a ler um livro, o jornal, e a compreender aquilo que se lê (…). Levar os que leem a discutir e a dar opinião sobre o que leram”.

Se a pedagogia da libertação de Cabral tinha por base a defesa da identidade e da cultura nacional, esta posição não significava desprezar a cultura dos outros, implicando, antes, o seu aproveitamento “em tudo quanto é bom para nós, tudo quanto possa ser adaptado às nossas condições de vida”, pois que “a nossa cultura deve desenvolver-se numa base de ciência, deve ser científica”. […]

Defensor consequente da cultura e da identidade dos povos guineense e cabo-verdiano, Cabral posicionava-se, no entanto, contra qualquer tipo de oportunismo, referindo-se, nomeadamente, aos “camaradas que pensam que, para ensinar na nossa terra, é fundamental ensinar em crioulo já”, ou então “em fula, em mandinga, em balanta”.

Apologista do ensino em crioulo, mas só depois de o mesmo ser bem estudado, Cabral defende que, antes disso, “a nossa Língua para escrever é o português”. Apelando ao sentido de realismo, e sem proibir que ninguém escreva em crioulo, sustenta que “o português (Língua) é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram” e que, “se queremos levar para a frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa Língua tem que ser o português, até um dia em que, tendo estudado profundamente o crioulo, encontrando todas as regras de fonética boas para o crioulo, possamos passar a escrever o crioulo”.

–– “Para avançarmos na ciência, a nossa Língua tem que ser o português” ––
Num seminário aos quadros do partido, onde explicou a opção pela Língua Portuguesa, Cabral refere que a língua não é senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros, um meio para falar, para exprimir as realidades da vida e do mundo:

“Mas o mundo avançou muito, nós não avançamos muito, tanto como o mundo, a nossa língua ficou ao nível daquele mundo a que chegamos que nós vivemos, enquanto o tuga, embora colonialista, vivendo na Europa, a sua Língua avançou bastante mais do que a nossa, podendo exprimir verdades concretas, relativas, por exemplo, à ciência.

Por exemplo, nós dizemos assim: a Lua é um satélite natural da Terra. Satélite natural, digam isso em Balanta, digam em Mancanha. É preciso falar muito para o dizer, é possível dizê-lo, mas é preciso falar muito, até compreender que um satélite é uma coisa que gira à volta de outra. Enquanto que em Português, basta uma palavra. Falando assim, qualquer povo no mundo entende.

E a Matemática, nós queremos aprender Matemática, não é assim? Por exemplo, raiz quadrada de 36. Como é que se diz raiz quadrada em Balanta? É preciso dizer a verdade para entendermos bem. Eu digo, por exemplo: a intensidade de uma força é igual à massa vezes aceleração da gravidade. Como é que vamos dizer isso? Como é que se diz aceleração da gravidade em nossa língua? Em Crioulo não há, temos que dizer em Português.

Mas para a nossa terra avançar, todo o filho da nossa terra, daqui a alguns anos tem que saber o que é aceleração da gravidade. Camaradas, amanhã, para avançarmos a sério, não só os dirigentes, todas as crianças de nove anos de idade têm que saber o que é a aceleração da gravidade. Na Alemanha, por exemplo, todas as crianças sabem isso.

Há muita coisa que não podemos dizer na nossa língua, mas há pessoas que querem que ponhamos de lado a Língua Portuguesa, porque nós somos africanos e não queremos a língua de estrangeiros. Esses querem é avançar a sua cabeça, não é o seu povo que querem fazer avançar. Nós, Partido, se queremos levar para frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa Língua tem que ser o Português. E isso é uma honra.”

Amílcar Cabral, embora conhecedor e respeitador das características socioculturais do contexto, fez a opção política pelo português como Língua oficial.

–– “Unidade e Luta” ––
Segundo Luiza Cortesão, professora emérita da Universidade do Porto e presidente da Direção do Instituto Paulo Freire de Portugal, Cabral tinha consciência do estatuto, histórico e internacionalmente reconhecido, da Língua Portuguesa, que iria favorecer as relações internacionais com o novo Estado-Nação.

Recorrendo ao lema “Unidade e Luta” num país, onde existiam diferentes povos falando várias línguas, a opção por uma delas poderia, também, constituir uma ameaça à “unidade” necessária ao Estado-Nação por cuja construção lutava. A escolha do português como Língua oficial terá sido uma opção tática de uma estratégia para alcançar o objetivo maior, que era essa construção do Estado-Nação.

–– Independências proclamadas em português ––
Aliás, a opção pela Língua de Camões foi tomada pelos movimentos independentistas ainda no decurso da luta de libertação, e resultou do reconhecimento de que a sua utilização concorreria eficazmente para consolidar as fronteiras políticas e culturais dos futuros Estados, contribuindo também para fortalecer a independência e a unidade nacional, como refere José Manuel Matias, mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

Neste contexto de contingência histórica, a Língua Portuguesa em África (principalmente em Angola e Moçambique, onde a geografia não forjou nenhum crioulo) não é um instrumento neutro, um duvidoso meio de comunicação entre os africanos, mas a expressão da sua afirmação nacional. Em suma, é um factor de apaziguamento político e social. […]

Certo é que em cada um dos PALOP, a afirmação das respectivas identidades culturais, como a própria proclamação das respectivas independências, foi feita em português. Língua de viagem e mestiçagem, como diz o poeta Manuel Rui. Ou, como refere Manuel Alegre, “a Língua é a mesma. Mas não é a mesma. É una. Mas é diversa. Tanto mais ela quanto mais diferente. Tanto mais pura quanto mais impura. Tanto mais rica quanto mais mestiça.”  :::

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MONTEZINHO, Jorge. “A Língua Portuguesa é uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram”.
Extraído do jornal Expresso das Ilhas (Cabo Verde).
Publicado em: 30 jun. 2014.

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