Articles

O português sobreviverá no Sudeste da Ásia? – Oliver Stuenkel

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 16 de Julho de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , , , ,

.
A Língua Portuguesa foi levada ao continente asiático há exatos quinhentos anos, com as Grandes Navegações empreendidas por Portugal que permitiram aos europeus o contato com todos os continentes ao redor do mundo.

A mesma Língua de Os Lusíadas era a Língua franca do comércio e dos contatos entre diversos povos da Ásia, sobretudo da Índia, da China, do Sudeste Asiático do Japão. Foi o veículo de comunicação entre os europeus e os povos das “Índias” para o comércio de especiarias e de produtos ao longo dos oceanos Índico e Pacífico.

A Língua Portuguesa, a primeira a se globalizar e que uniu povos os mais diferentes no contato com os portos da Ásia, tem ainda caráter oficial em Macau, na China, e no Timor-Leste. Tornaram-se marcas de identidade cultural e linguística dos macaenses e dos timorenses. Ainda no Timor-Leste, o português foi Língua de resistência, sinónima da liberdade, durante a ocupação ilegal indonésia, entre 1975 e 2001.

E há ainda populações esparsas que usam a Língua padrão ou os crioulos de origem portuguesa: como em Goa, Diu e Damão, na Índia; em Malaca, na Malásia; no Sri Lanka; e nas ilhas de Java e de Flores, na Indonésia.

Mas, comparando com o que representou o passado da Língua em tão importante região do mundo como a Ásia, e levando-se em conta o papel do Brasil como nova nação difusora da Língua em âmbito mundial, questiona-se sobre o futuro que é vislumbrado pela Língua Portuguesa, em especial, no Sudeste Asiático. E tais questões ganham mais relevo com a proximidade da Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, a se realizar em Díli, capital do Timor-Leste.

O cientista político Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas, uma das mais conceituadas instituições de economia e gestão do Brasil, lançou recente artigo com uma análise sobre a presença da Língua Portuguesa e qual a contribuição que a CPLP pode dar ao desenvolvimento do Timor-Leste. O artigo foi publicado no jornal digital Brasil Post, em 15 de julho de 2014.

.
*              *              *

–– O português sobreviverá no Sudeste da Ásia? ––

Oliver Stuenkel
do jornal digital Brasil Post
15 de julho de 2014

.
O Timor-Leste é um país de Língua Portuguesa? Esta pergunta possui implicações geopolíticas. Após a independência em 1999, o novo governo do Timor-Leste reinstaurou o português como Língua oficial, juntamente com o tétum, uma língua indígena. Como consequência, o país se juntou, em 2002, à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Líderes timorenses veem a organização (além da ASEAN [Associação das Nações do Sudeste Asiático], à qual eles esperam juntar-se em breve) como um elemento-chave na sua tentativa de fortalecer os laços do país com outros países.

No entanto, os policy makers [os decisores políticos] timorenses viram o idioma português como mais do que apenas uma ferramenta para fortalecer laços com Brasil, Portugal, Angola e Moçambique. Sua adoção também serviu como um símbolo poderoso de que o Timor era diferente da Indonésia, que era uma colônia holandesa.

No momento da independência timorense, o português, que foi proibido durante a ocupação indonésia, era falado por apenas 5% da população. O Censo de 2010 revelou que as línguas maternas mais faladas eram tétum prasa (língua materna para 36,6% da população), mambai (12,5%), makasai (9,7%), tétum terik (6,0%), baikenu (5,9%), kemak (5,9%), bunak (5,3%), tokodede (3,7%), e fataluku (3,6%).

Outra pesquisa revelou que 90% da população utiliza o tétum diariamente, além de outras linguagens. 35% da população fala indonésio (principalmente nas cidades), e uma parte crescente fala inglês, um requisito para obter os empregos mais bem remunerados, oferecidos pela considerável indústria de desenvolvimento no país.

Os esforços para popularizar o português têm sido lentos. De acordo com um relatório do Banco Mundial, até 2009, mais de 70% dos alunos submetidos a um teste no final do primeiro grau “não puderam ler uma única palavra” de um texto simples em português, “um péssimo desempenho após 10 anos de esforços.” Ao mesmo tempo, deve-se levar em conta que, até recentemente, uma parte da população era analfabeta, embora a maioria das crianças vá para a escola atualmente.

As leis e as estruturas administrativas são baseadas no modelo português e permanecem na Língua Portuguesa, mas a maioria dos debates parlamentares e conversas no gabinete são realizadas em tétum, que pertence à família austronésia de línguas faladas em todo o Sudeste Asiático.

O Timor-Leste tem se beneficiado de fazer parte da CPLP? Enquanto a maioria dos policy makers diria que sim, há sinais de expectativas não cumpridas. Recentemente, o Parlamento timorense mostrou desapontamento com a falta de vontade da organização em estabelecer um fundo de emergência para apoiar os membros em momentos de dificuldades financeiras.

Da mesma forma, alguns dizem que eles esperavam uma presença brasileira mais forte no país. Há mais professores de Língua Portuguesa de Portugal no país do que do Brasil, e a ajuda financeira brasileira é muito menor do que de países que não têm laços culturais com o Timor-Leste. Mesmo assim, a influência cultural brasileira é visível no país. “A pessoa que mais contribuiu para a expansão da Língua Portuguesa no Timor-Leste foi, sem dúvidas, Michel Teló”, comenta um integrante do governo timorense.

E ainda assim, quando um comentarista de Cingapura recomendou recentemente que o Timor-Leste adotasse o inglês como língua oficial para abraçar a globalização, Ramos-Horta defendeu sua escolha de manter o português:

“Talvez nós não sejamos tão práticos como nossos irmãos de Cingapura. Confesso que nós somos um pouco românticos, temos uma perspectiva histórica porque temos uma longa história e não nos temos uma mentalidade de Cingapura de estilo comercial. Isso significa que estamos condenados a desacelerar o crescimento, por ter uma sociedade multilíngue e uma sociedade rica, vibrante e colorida, que nos faz apreciar as belezas da vida com mais frequência? Tenho certeza que a resposta é não.”

O português pode nunca ultrapassar o tétum como Língua franca de Timor-Leste, mas parece estar determinado a permanecer como uma das Línguas oficiais do país.  :::

.
STUENKEL, Oliver. O português sobreviverá no Sudeste da Ásia?
Extraído do jornal digital Brasil Post.
Publicado em: 15 jul. 2014.

Uma resposta to “O português sobreviverá no Sudeste da Ásia? – Oliver Stuenkel”

  1. Bom dia Ronsoar

    tenho estado a receber há mais de 2 semanas um artigo vindo de ti, que só tem um “o”? (posso-te enviar um jpg) muita força para ti! estás a fazer um trabalho impecável com os ventos da lusofonia, a fazer chegar as noticias de tão longe para tão longe. :O)

    saudações João

    2014-07-17 0:53 GMT+01:00 Ventos da Lusofonia :

    > ronsoar posted: “o”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: