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Do papiro ao hipertexto – Arnaldo Niskier

In Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 9 de Julho de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Arnaldo Niskier é ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Arnaldo Niskier é ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Ventos da Lusofonia transcreve o artigo assinado pelo jornalista e escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras entre 1998 e 1999. Niskier também é acadêmico correspondente no Brasil da Academia de Ciências de Lisboa.

Em seu artigo, publicado em 12 de junho de 2014 no jornal Gazeta do Povo (de Vitória, Espírito Santo), o autor e acadêmico mostra a mudança ao longo dos tempos tanto na prática da leitura quanto na forma como aparece o leitor.

Tanto a leitura quanto o leitor transformam-se à medida que a informação escrita passou para um número cada vez maior de pessoas: “a escrita evoluiu em diversos suportes”, da argila, do papiro e do pergaminho ao papel e às telas ou ecrãs dos computadores.

O autor apresenta essa breve história da leitura para relatar sobre o atual quadro no ensino do Brasil. “Estamos definitivamente convencidos de que se perde muito tempo, em sala de aula, ditando para os alunos, fazendo chamadas ou cuidando da disciplina”, declara Niskier.

Por isso, defende a absorção das novas práticas de leitura no ensino dos conteúdos escolares, ciente de que, para essa finalidade, é preciso superar resistências e desconfianças quanto às novas formas de leitura.

“A resistência a novas formas de comunicação surge diante de cada nova tecnologia, como se o novo viesse para substituir o velho”, diz o acadêmico brasileiro em seu artigo, reproduzido a seguir e também publicado no sítio da Academia Brasileira de Letras.

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–– Do papiro ao hipertexto ––

Arnaldo Niskier
do jornal Gazeta do Povo (Vitória, Brasil)
12 de junho de 2014

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Não foi só a escrita que evoluiu com as novas tecnologias. O leitor também se transformou. Na época do papiro, para ler era preciso segurar pesados rolos presos à madeira com as duas mãos. Ler e escrever ao mesmo tempo era um ato impensável.

A escrita evoluiu em diversos suportes. Foi esculpida em argila, desenhada no papiro e no pergaminho, inscrita no papel, até ser digitalizada no mundo virtual. Em cada suporte foi objeto de tecnologias diferentes.

O pergaminho, a partir do século II d.C., tornou possível organizar o texto em códices, antecessor do livro, com lâminas de peles sobrepostas, onde os monges escreviam com ossos molhados e penas de aves. Somente em 1884 foi inventada a caneta-tinteiro e, em 1937, a caneta esferográfica.

A prática da leitura, durante a Idade Média, concentrou-se no interior dos templos, a partir das Sagradas Escrituras. Até o século X, a leitura era uma experiência pública: uma pessoa lia e outros ouviam. A leitura silenciosa foi uma revolução no ato de ler. Para facilitá-la, foi necessário desenvolver a pontuação.

O desenvolvimento das cidades, entre os séculos XI e XIV e a existência das escolas propiciaram a alfabetização, ampliando o acesso à escrita. A imprensa, técnica baseada nos tipos móveis e na prensa, tornou possível a multiplicação da escrita com Gutemberg, em 1440. Foi uma invenção revolucionária, talvez a mais importante da era moderna. Depois dela, a nova revolução para a escrita e a informação é o computador. Novas tecnologias prometem revolucionar ainda mais a escrita.

Temos hoje 60 milhões de alunos frequentando as escolas brasileiras, em todos os níveis. Cerca de 33% da população, o que representa um número bastante expressivo. O ensino cresceu muito, nos últimos anos, sobretudo no fundamental. Mas quais são as perspectivas?

A resistência a novas formas de comunicação surge diante de cada nova tecnologia, como se o novo viesse para substituir o velho. A reação é a mesma que vivemos diante da ameaça da televisão ao cinema e ao rádio e do computador ao livro impresso.

Estamos definitivamente convencidos de que se perde muito tempo, em sala de aula, ditando para os alunos, fazendo chamadas ou cuidando da disciplina. Há um estudo que comprova o desperdício, com essas ações, de cerca de 31% do total de uma aula de 50 minutos.

Se o período na escola é considerado insuficiente, para quem não tem o tempo integral, não se deve insistir nesse formato clássico e superado. O que o professor escreve na lousa pode perfeitamente estar à disposição dos alunos nos computadores, hoje comuns em algumas escolas, e isso evidentemente dá um grande ganho aos que agem assim.  :::

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NISKIER, Arnaldo. Do papiro ao hipertexto.
Do jornal Gazeta do Povo (Vitória, Brasil)
Publicado em: 12 jun. 2014.
Extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras.

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