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Lúcia Vaz Pedro: “O Acordo Ortográfico permitiu unificar a Língua Portuguesa”

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 29 de Maio de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Lúcia Vaz Pedro: "O Acordo Ortográfico levou a uma Língua mais consistente, que desperta interesse mundial."

Lúcia Vaz Pedro: “O Acordo Ortográfico levou a uma Língua mais consistente, que desperta interesse mundial.”

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A professora Lúcia Vaz Pedro, especialista em ensino da Língua Portuguesa e da ortografia, lançou recentemente o livro Português Atual, baseado nos artigos de sua coluna semanal de Língua Portuguesa no Jornal de Notícias, do Porto, Portugal.

Cinco anos após a entrada em vigor do Acordo Ortográfico (AO) em Portugal, Lúcia Vaz Pedro afirma não ter dúvidas dos benefícios que o tratado trouxe para os utilizadores, destacando a uniformização da escrita e a maior visibilidade internacional adquirida.

“A maioria da sociedade portuguesa e da sociedade brasileira utilizam o Acordo Ortográfico”, afirma a autora. Segundo ela, o Acordo “permitiu unificar a Língua Portuguesa. Essa unificação tem conduzido a uma política de Língua que desperta interesse mundial. O Português transformou-se numa Língua mais consistente, com regras bem definidas”, salientou.

A professora declara que o adiamento da obrigatoriedade do Acordo Ortográfico no Brasil não comprometeu a sua ratificação como documento internacional da Língua Portuguesa. “O adiamento permitiu uma harmonização entre Portugal e o Brasil quanto à data de entrada em vigor obrigatória em ambos os países. Esta sintonia fortaleceu ainda mais este tratado.”

No mês de junho de 2014, a autora desloca-se a Macau, na China, a convite do Instituto Politécnico de Macau, para ministrar formação de Português aos professores universitários chineses, com as novas regras do Acordo Ortográfico.

A seguir, a entrevista com a professora e autora Lúcia Vaz Pedro feita por Sérgio Almeida e publicada no blogue Babel, do Jornal de Notícias, no último dia 27 de maio.

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–– Lúcia Vaz Pedro: “O Acordo Ortográfico
permitiu unificar a Língua Portuguesa” ––

Sérgio Almeida
do Jornal de Notícias (Porto, Portugal)
27 de maio de 2014

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:::  Desde que o AO passou a ser uma realidade, foram publicados inúmeros guias e prontuários. Quais acredita serem as mais-valias do seu livro face à ampla oferta já existente?  :::
Este livro não aborda apenas o novo Acordo Ortográfico. Português Atual é um livro que explica, de forma simplificada, alguns conceitos necessários a uma escrita eficiente, atual e correta.

:::  Que balanço faz da implementação do AO entre nós?  :::
Julgo que o balanço tem sido bastante positivo. Na verdade, a implementação tem sido feita de forma gradual nas escolas e os alunos aplicam-no com naturalidade assim como os professores. Ao nível da comunicação social e na generalidade das empresas, o AO é seguido e aplicado sem dramatismos.

:::  Ao fim deste período de implementação, já é possível apontar algumas vantagens que o AO trouxe?  :::
Tal como era previsível, o AO permitiu unificar a Língua Portuguesa. Essa unificação tem conduzido a uma política de Língua que desperta interesse mundial. O Português transformou-se numa Língua mais consistente, com regras bem definidas, nomeadamente no que diz respeito à hifenização.

:::  O Acordo Ortográfico ainda não é uma realidade em todos os países da CPLP. Que razões encontra para o arrastamento do processo?  :::
Todos sabemos que o problema de alguns países da CPLP se prende com a educação e não com o Acordo Ortográfico em si. Antes de se falar de AO, urge ter uma educação eficiente e que a escolaridade seja uma realidade acessível a todas as crianças. Saber ler e escrever são instrumentos essenciais para o crescimento de qualquer ser humano. Assim, penso que, neste momento, esses países estão a preparar-se para criar as condições para uma educação funcional onde a Língua Portuguesa seja a mesma que é utilizada por milhões de pessoas.

:::  Diz na introdução que o adiamento nunca comprometeu a ratificação do Acordo. Mesmo com todas as críticas e petições existentes, acreditou sempre que o AO acabaria por vingar?  :::
Sempre acreditei, porque a maioria da sociedade portuguesa e da sociedade brasileira utilizam o Acordo Ortográfico: os manuais escolares, as revistas, os jornais, as legendas dos filmes, os anúncios publicitários. O adiamento permitiu uma harmonização entre Portugal e o Brasil quanto à data de entrada em vigor obrigatória em ambos os países. Esta sintonia fortaleceu ainda mais este tratado.

:::  Que imperfeições poderiam ser corrigidas numa futura revisão do Acordo Ortográfico?  :::
Há algumas situações que poderiam ser revistas, nomeadamente a questão do acento facultativo da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1ª conjugação, como, por exemplo, “estudamos”/”estudámos”; ou então a da 1ª pessoa do plural do presente do conjuntivo do verbo dar (“dêmos” ou “demos”). Isto porque o acento é obrigatório noutras situações, como é o caso da 3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo “poder” (“pôde”) para se distinguir da 3ª pessoa do singular do presente do indicativo (“pode”). Na verdade, a questão das facultatividades, em vez que facilitar confunde. Existe ainda uma situação que deve ser revista e que se prende com o prefixo “co-“. Ora este prefixo, segundo as regras do AO prescinde do hífen em qualquer tipo de situação, mas a palavra “co-herdeiro” surge com a dupla grafia “co-herdeiro” e “coerdeiro”. Trata-se de pequenos pormenores que, a seu tempo, serão limados.

::: Faz formação sobre o Acordo Ortográfico. Quais as dúvidas mais frequentes que encontra? :::
Por incrível que pareça, quando dou formação, as dúvidas que os formandos apresentam não se prendem com o AO em si, mas com a Língua Portuguesa em geral. Às dificuldades de escrita acrescem as do desconhecimento do funcionamento da Língua e a falta de hábitos de leitura, o que se traduz em lacunas difíceis de superar. E é nessas formações que as pessoas tomam consciência da complexidade da nossa Língua e de que o AO, pelo menos, conduziu a uma reflexão sobre alguns aspetos que poderão ajudar a racionalizar a sua utilização no dia a dia.

:::  Sente maior abertura dos jovens para assimilarem as mudanças?  :::
Os jovens são os que mais facilmente aprendem, compreendem e aplicam o AO. Os manuais escolares têm facilitado a aquisição da nova grafia, e ao nível escolar não existe qualquer impedimento.

:::  O meio literário tem sido, na sua maioria, um dos grandes resistentes do AO. A maioria dos escritores ainda adota a anterior grafia. Surpreende-a essa resistência?  :::
Por um lado, compreendo essa postura. Trata-se de uma tradição. Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes também rejeitaram a substituição do “y” grego pelo “i” latino, aquando do Acordo Ortográfico de 1911. Julgo que há sempre pessoas que resistem à mudança, seja por receio de não saberem escrever pelas novas regras, seja por elo emocional ou intelectual à memória gráfica da escrita. Porém, não nos podemos esquecer de que a nossa Língua está tão viva que saltita pelo mundo. Parece uma criança feliz, e não há quem não a queira aprender.  :::

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ALMEIDA, Sérgio. “O Acordo Ortográfico permitiu unificar a Língua Portuguesa”.
(Entrevista a Lúcia Vaz Pedro)
Extraído do blogue Babel, do Jornal de Notícias (Porto, Portugal)
Publicado em: 27 maio de 2014.

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