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Dez razões para apoiar o Acordo Ortográfico – Pedro Almeida Cabral

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 19 de Março de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Pedro Almeida Cabral escreveu no jornal Expresso artigo favorável ao Acordo Ortográfico.

 

No dia 28 de fevereiro, a Assembleia da República – o Parlamento português – votou projetos referentes à aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa em dezembro de 1990.

Um deles – este aprovado pelos deputados portugueses – refere-se à criação de um grupo de trabalho do Governo da República Portuguesa para acompanhar a aplicação do Acordo nos países lusófonos. Outro projeto visava a renegociação de termos sobre a união ortográfica. E ainda foi avaliada uma petição que pretendia a desvinculação de Portugal do Acordo Ortográfico.

O jornalista Pedro Almeida Cabral apresentou, no jornal Expresso, sua defesa ao Acordo Ortográfico, lembrando que a divisão de regras de escrita da Língua começou em 1911, em que Portugal não consultou o Brasil: divisão essa qualificada como “erro histórico”.

Ainda segundo o autor, as novas regras facilitam o aprendizado da Língua no exterior, que elas afetam número muito pequeno de palavras e que os Governos tanto do Brasil quanto de Portugal já adotam a nova ortografia.

O autor ainda lembra que “é evidente que nunca poderia haver qualquer acordo com o Brasil para unificar a ortografia que não abrangesse as consoantes mudas”. E que o “Brasil também cedeu e deixou, por exemplo, de usar o trema em algumas palavras, como no ‘u’ em linguiça”.

E, por fim, recorda que o Acordo garante a unidade da Língua, contribuindo “para que o português do Brasil se mantenha ‘português do Brasil’ e não se torne ‘brasileiro’. Sim, interessa-nos que o português seja falado por mais de 200 milhões de pessoas na América do Sul.”

Ventos da Lusofonia reproduz o artigo de Pedro Almeida Cabral, intitulado Dez razões para apoiar o Acordo Ortográfico, publicado em 28 de fevereiro no jornal Expresso, de Lisboa.

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–– Dez razões para apoiar o Acordo Ortográfico ––

Pedro Almeida Cabral
Do jornal Expresso (Lisboa, Portugal)
28 de fevereiro de 2014

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Durante o dia de hoje, os nossos deputados terão finalmente uma questão verdadeiramente importante para decidir: devem ou não as consoantes mudas sobreviver? Será que Portugal deixa de ser Portugal e que os portugueses deixam de ser portugueses se passarmos a escrever sem as consoantes mudas? Devemos condenar à morte estas periclitantes letrinhas? Andamos tão entretidos com questões menores como o desemprego elevado, a emigração galopante e os cortes definitivos nas pensões que não estamos suficientemente atentos para a maior ameaça à maneira de viver portuguesa: o Acordo Ortográfico.

Pelo menos, é essa a ideia que fica cada vez que se lê mais um artigo contra o Acordo Ortográfico. Ainda esta semana, foram publicados vários deles no jornal Público. Clama-se contra a invasão estrangeira. Brame-se pelo português de lei. Invectivam-se os traidores da pátria portuguesa. Mas será que o Acordo Ortográfico nos vai condenar a uma nova Idade Média de trevas e ignorância? Será que podemos viver normalmente sem consoantes mudas? O que me parece é que há pelo menos dez boas razões para apoiar o Acordo Ortográfico.

1. Começando pelo princípio. Foi Portugal que, em 1911, alterou a grafia da Língua Portuguesa sem consultar o Brasil, o que fez com que passasse a haver duas ortografias para a mesma Língua. O Acordo vem resolver este erro histórico.

2. As alterações do Acordo Ortográfico facilitam a aprendizagem. Quer de crianças, quer de estrangeiros. Por uma razão simples: as palavras passam a ficar mais próximas da forma como se leem.

3. O Acordo Ortográfico apenas afeta um número diminuto de palavras, cerca de 1,6%. O que significa que as alterações trazidas pelo Acordo são mínimas face ao português que se escreve.

4. As escolas portuguesas já ensinam conforme o Acordo Ortográfico. As leis portuguesas já são publicadas conforme o Acordo Ortográfico. O Governo já governa conforme o Acordo Ortográfico. A maioria dos jornais já publica conforme o Acordo Ortográfico. Parece impossível, mas tudo isto acontece sem revolta, dor ou trauma.

5. Entrando no Acordo, é evidente que nunca poderia haver qualquer acordo com o Brasil para unificar a ortografia que não abrangesse as consoantes mudas. É que, simplesmente, os brasileiros não as afloram nem as pronunciam.

6. E quem acha que abdicámos da nossa forma de escrita, é bom lembrar que o Brasil também cedeu e deixou, por exemplo, de usar o trema em algumas palavras, como no “u” em linguiça.

7. Há apenas oito países no mundo que têm o português como Língua oficial. E só há duas ortografias, a portuguesa e a brasileira. Chegar a um consenso quanto à forma de escrever é relativamente fácil. O que é altamente vantajoso para uma Língua falada em quatro continentes por mais de 250 milhões de pessoas.

8. Numa perspectiva egoísta, o Acordo Ortográfico contribui, de forma modesta, para que o português do Brasil se mantenha “português do Brasil” e não se torne “brasileiro”. Sim, interessa-nos que o português seja falado por mais de 200 milhões de pessoas na América do Sul.

9. O Brasil já aplica o Acordo Ortográfico e, ao contrário do que se diz, não o rasgou nem o rejeitou. Apenas prolongou o período de transição em que se podem utilizar as duas grafias, a antiga e a nova, que passou de 2012 para 2015. Aliás, todos os países de Língua oficial portuguesa já ratificaram o Acordo Ortográfico. A única exceção é Angola que, mesmo assim, tem dado alguns sinais de querer rever a sua posição.

10. Finalmente, um dos argumentos mais repetidos é que não devemos escrever como os brasileiros porque somos portugueses. Ver telenovelas brasileiras, tudo bem. Ouvir cantores brasileiros, excelente. Ler romancistas brasileiros, nada contra. Admirar futebolistas brasileiros, sim senhor. Comer comida brasileira, é um gosto. Viajar para o Brasil, uma maravilha. Mas escrever como os brasileiros é que é mortal.  :::

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CABRAL, Pedro Almeida. Dez razões para apoiar o Acordo Ortográfico.
Do jornal Expresso – coluna Dias Úteis
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 28 fev. 2014.

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