Articles

Para estimular a publicação científica internacional em Língua Portuguesa

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 4 de Março de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

A II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, da qual resultou o Plano de Ação de Lisboa, foi realizada nos dias 29 e 30 de outubro de 2013 em Lisboa.
 

.
O Plano de Ação de Lisboa, aprovado no último dia 20 de fevereiro, traça as diretrizes para a elaboração de políticas planeadas para o uso e a difusão da Língua Portuguesa a visar a comunicação das ciências – sobretudo das ciências avançadas e das tecnologias de ponta.

Um dos desafios do futuro para que se atinja esta meta é a elaboração de terminologias com vocabulário em português para as áreas científicas.

Os problemas dos vocabulários técnicos para o português, que comprometem a qualidade lexical da Língua para os usos especializados e para a tradução – e que apontamos anteriormente em diversos artigos aqui no blogue –, foram constatados por linguistas e especialistas que estiveram na II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, realizada em 29 e 30 de outubro de 2013, em Lisboa.

Como foi dito em nosso artigo citado acima: “Para que seja uma Língua apta para a ciência, a Língua Portuguesa deve ser munida de termos próprios para expressar os novos conhecimentos do mundo no futuro – notadamente no vocabulário das áreas técnicas e na sua difusão para o uso na Língua Portuguesa comum.”

A seguir, uma reportagem da TV Ciência, de Portugal, sobre esse desafio real das terminologias vernáculas em Língua Portuguesa e de um verdadeiro trabalho de valorização de uma Língua internacional, da Língua “filha ilustre do Latim” para expressar tecnologia e para adaptá-la ao século XXI. Para “torná-la uma Língua moderna, criativa e capaz de expressar as novas técnicas e os novos conhecimentos da humanidade”.

.
*              *              *

–– Cientistas lusófonos são forçados a publicar em inglês ––

Baseado em reportagem da TV Ciência, do IICT (Portugal)
8 de novembro de 2013

.
:::  Decisões de financiamento não favorecem que cientistas lusófonos publiquem em Língua Portuguesa. A falta de termos e respectiva normalização científica, bem como a baixa “estima” pela Língua são outros dos fatores apontados.  :::

O uso da Língua Portuguesa para expressar ciência e tecnologia foi o tema central da II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, em Lisboa.
 

Na II Conferencia Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que teve lugar em Lisboa, um dos temas em debate foi a Língua Portuguesa como Língua de ciência e inovação.

Com 250 milhões de falantes e ocupando o sexto lugar no mundo, a Língua Portuguesa posiciona-se em quarto lugar no mundo dos negócios, mas o lugar que ocupa no mundo não se traduz em posição consentânea quando falamos de publicações científicas em Língua Portuguesa e quando a produção científica dos falantes do português cresce todos os dias.

Para investigadores participantes na Conferência, existem fatores que são determinantes para a publicação científica em português.

João Veloso, investigador da Universidade do Porto explicou que “há um fator económico aqui muito grande”, já que “hoje os cientistas são muito pressionados em termos de avaliação no desempenho para publicarem em determinadas revistas que pura e simplesmente não aceitam línguas que não o inglês”.

“A questão põe-se para o inglês como se põe para outras línguas tão importantes e expressivas a nível de tradição cultural e tradição académica como o português. Estou a lembrar-se do francês, do espanhol ou do alemão”, frisou o investigador.

–– Padrões bibliométricos dominados pelo inglês ––

João Veloso, da Universidade do Porto: “Falta normalização e harmonização terminológica para o português como Língua de ciência.”

Também Nélson Zagalo, investigador da Universidade do Minho adiantou que “o mais relevante está do lado político na forma como são feitas as regulações. Não é da carreira de investigação, mas é dos financiamentos da investigação”.

É sabido que “se os investimentos na investigação são feitos segundo os padrões bibliométricos emitidos por grandes organizações internacionais que se regem pela língua inglesa, maioritariamente, é natural que quem está em Portugal ou no Brasil tenha uma tendência para deixar de escrever e publicar em português e passe a fazê-lo em inglês. Porque sabe que, se o fizer em português, corre o risco de não ter financiamento para a investigação nos próximos anos, e isto tem um impacto tremendo em tudo o que nós fazemos”, afirmou o investigador.

Mas os especialistas apontam também a falta de terminologia científica em Língua Portuguesa como um fator condicionante.

João Veloso explicou que “a falta de alguma normalização e harmonização terminológica pode explicar também algumas dificuldades a nível de uma maior visibilidade do português como Língua de criação e publicação científica”.

–– Prover a ciência de terminologias vernáculas em português ––

Nélson Zagalo, da Universidade do Minho: “É preciso investir em plataformas científicas para evitar a ‘guetização’ da ciência em português.”

Também Gladis Almeida, investigadora do Departamento de Letras, na Universidade Federal de São Carlos, no Estado de São Paulo, no Brasil, explicou que “muitas vezes os cientistas não têm os termos em português para nomear os conceitos da sua ciência e acabam recorrendo a empréstimos linguísticos de outra língua, maioritariamente do inglês”.

A Língua Portuguesa tem de possuir condições para dar resposta às exigências de uma terminologia que evolui com a própria evolução científica e tecnológica.

“Como linguista, e eu sobretudo como terminóloga”, afirmou Gladis Almeida, “tenho de fazer a lição de casa, ou seja, tenho de fazer a minha parte que é prover esses cientistas de uma terminologia vernácula nas suas áreas de conhecimento para, se for o caso produzir um texto científico em português, existam termos adequados para nomear esses conceitos em português”.

A especialista brasileira explicou que existem “muitos termos que ainda estão em inglês que estão na fase de chegada, termos que são compostos e que há uma parte do próprio termo em inglês, uma sigla inglesa e uma palavra vernácula em português. E isso é uma fase natural da Língua”.

A investigadora exemplificou, ao dizer que “isso se passou com a computação, no início da década de 90 em que praticamente para se falar de coisas de computação só se usava o inglês. Hoje muitas coisas já foram traduzidas para o português.” Por isso, “acho que é um caminho natural. A ciência ainda está em processo de consolidação e, se importamos a técnica, o termo que a denomina vem junto”, pelo que “também talvez seja o caso de começarmos a produzir ciência nós mesmos, e não só importar ciência”, afirmou Gladis Almeida.

–– Contra a “guetização” da ciência em português ––
Outra das questões que os investigadores apontam como condicionante na afirmação da Língua Portuguesa como Língua de ciência é a falta de plataformas de suporte e acesso de publicações científicas em português.

Nélson Zagalo explicou que “nós temos algumas plataformas, mas é preciso continuar a investir. Não podemos pensar que apenas chegando às plataformas internacionais está o caso resolvido, porque se não existirem plataformas alternativas, de repente, vamos ter um monopólio internacional, que já temos, centrado nos EUA que regula toda a questão científica”.

E com isso “pode haver uma ‘guetização’ da informação ou da investigação na Língua Portuguesa, sendo que o problema não é a ‘guetização’, mas é termos também as nossas plataformas e formas de avaliarmos a nós próprios”, afirmou o investigador da Universidade do Minho.

–– Pela harmonização terminológica ––

Gladis Almeida, da Universidade Federal de São Carlos: “Espero que haja mais autoestima para que se publique ciência em português.”

Mas para que a produção científica em Língua Portuguesa se possa vir a afirmar internacionalmente, os especialistas apontam linhas de ação.

“Uma é incrementar a publicação de tradução científica, quer do português para outras línguas, porque há muita ciência portuguesa que seria mais conhecida se fosse traduzida para algumas línguas e vice-versa, a tradução de textos científicos para português. A questão da harmonização terminológica é fundamental. E considero que seja viável” e “é um imperativo neste momento”, adiantou o investigador da Universidade do Porto.

.

“Como o Acordo Ortográfico, no artigo segundo, prevê a construção de um Vocabulário Ortográfico Comum com as terminologias dos países da CPLP, trouxe uma proposta real que já está sendo feita no Brasil, que é a terminologia da agricultura”, explicou Gladis Almeida.

A investigadora brasileira acrescentou que “no âmbito da construção do Vocabulário Ortográfico Comum, que é um projeto oriundo do Acordo Ortográfico de 90, consolidado pelo Plano de Ação de Brasília e que é coordenado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa, decidimos que as primeiras terminologias a serem harmonizadas no âmbito da CPLP seriam agricultura, pesca, meio ambiente, saúde, educação e legislação. Que são áreas que existem nos oito países.”

–– “Que haja mais autoestima para produzir em português” ––
E ao harmonizar a terminologia, a ligação entre o falante e a Língua Portuguesa pode assumir outra dimensão.

“Espero que tenha como impacto uma autoestima”, afirmou Gladis Almeida e explicou que tem a ideia que “os falantes da Língua Portuguesa têm uma baixa estima em relação à sua Língua materna ou a sua Língua oficial” e o “que eu espero é que haja uma autoestima”, ou seja, a ideia de que “posso publicar em português, de que existem bases de dados que podem indexar o meu artigo científico em português”.

Por isso, “espero que os próprios cientistas se sintam mais motivados a produzir os seus textos em Língua Portuguesa e, principalmente, que os colegas citem os seus pares. Isso é uma coisa impressionante, porque no nosso Índice de Citação parece que há um certo desmerecimento quando citamos o nosso colega que também escreve em português”. E o “nosso colega que é muito bom naquilo que faz, acaba por ter um baixo índice de citação, porque acaba-se por citar o colega norte-americano, inglês, francês”, acrescentou a especialista brasileira.

Uma nova dimensão da Língua Portuguesa como Língua de ciência e inovação com projeção mundial depende de todos os falantes lusófonos, mas também de um Plano de Ação e de medidas concretas que reduzam as atuais barreiras e incentivem a publicação de ciência em Língua Portuguesa.  :::

.
Com base em
ALVES, Lúcia Vinheiras. Cientistas lusófonos são forçados a publicar em inglês.
Extraído do sítio da TV Ciência – seção Notícias
do Instituto de Investigação Científica Tropical – IICT
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 08 nov. 2013.

.
*              *              *

Leia também:
Desafio para o Português: ser uma Língua da tecnologia – 30 de outubro de 2013
O português do Brasil e a “mania de macaquear” com estrangeirismos – 31 de março de 2013
Sobre manifes e o tratamento de estrangeirismos – 24 de janeiro de 2013
“Língua Portuguesa pode perder-se na era digital”, alerta cientista da Universidade de Lisboa – 16 de novembro de 2012
Estrangeirismos de estrangeirismos – Arnaldo Niskier – 30 de setembro de 2012

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: