Articles

Língua Portuguesa: a hora da Lusofonia – Lúcia Vaz Pedro

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 3 de Março de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

A escritora e professora Lúcia Vaz Pedro, especialista em ortografia, lançou nova defesa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, ainda discutido acaloradamente em Portugal, mesmo com a ratificação do documento internacional da CPLP feita pelo Governo português em 2008 e cuja obrigatoriedade entrará em vigor em maio de 2015.

Para a autora, quem critica a mudança ortográfica na Língua – que é de caráter internacional – precisa “pensá-la de forma global, espalhada pelo Planeta, património da Humanidade, fazendo cedências que, sendo gramaticalmente explicáveis, procuram reduzir ao mínimo possível as diferenças”.

O aprendizado na escrita da Língua sempre envolverá conceitos racionais ligados ao funcionamento da Língua, próprios de um canal de comunicação criado pelo ser humano. “Não há magias. Aprender a escrever é um processo complexo e não chega criticar. Há que compreender e raciocinar, pois a linguagem é um processo racional.”

Sim, escrever envolve aprendizado e, sobretudo, a boa prática da leitura, lembra a professora, pois “saber escrever não é uma competência inata. Para a dominarmos, há que a desenvolver, há que a moldar, há que a incrustar no nosso cérebro. Então, temos de ler! Só dessa forma consolidamos a ortografia” e “compreendemos os contextos”.

Abaixo, o artigo assinado por Lúcia Vaz Pedro, publicado em sua coluna Português Atual, do Jornal de Notícias, de Portugal, em defesa do Acordo Ortográfico (AO) e da maior promoção da leitura em Portugal (e também nos países da Lusofonia).

.
*              *              *

–– Língua Portuguesa: a hora da Lusofonia ––

Lúcia Vaz Pedro
do Jornal de Notícias (Porto, Portugal)
24 de fevereiro de 2014

.
Quando alguém diz que não há quem saiba escrever em Português segundo o Acordo, não sei se fique perplexa, desconcertada ou revoltada.

Todos os que já sabiam escrever corretamente e se deram ao trabalho de compreender as regras do AO continuam a escrever bem. Agora, aqueles que não sabiam escrever continuarão a não saber fazê-lo; essa questão é incontornável.

Não há magias. Aprender a escrever é um processo complexo e não chega criticar. Há que compreender e raciocinar, pois a linguagem é um processo racional.

Quando alguém diz que o Acordo Ortográfico veio maltratar a nossa Língua, dever-se-ia dizer que as deturpações veiculadas pelos “fatos”, “patos” e “cágados” antiacordo são as maiores responsáveis pelos maus-tratos à nossa Língua.

Quando alguém fala em exercício da cidadania a propósito da nossa Língua, deveria pensá-la de forma global, espalhada pelo Planeta, património da Humanidade, fazendo cedências que, sendo gramaticalmente explicáveis, procuram reduzir ao mínimo possível as diferenças.

A Língua Portuguesa é motivo de orgulho! Tanto o é que, neste momento, é das mais procuradas pelas universidades de todo o Mundo.

Se tirámos o acento circunflexo à “pera” é porque já não existe o arcaísmo “pera” (para) e, por isso, não fazia sentido as palavras graves continuarem a ter um acento para distinguirem as duas homógrafas. Já não o fazíamos com “molho”. Se retirámos o acento agudo às palavras graves cuja sílaba tónica era o ditongo “oi”, já não o colocávamos em “comboio”. Retirar o acento circunflexo às formas verbais graves da 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo ou do conjuntivo em “leem”, “deem”, “veem”, por exemplo, é uma questão de bom senso. E quanto à hifenização, finalmente, pôs-se ordem na casa. É preciso decorar? É preciso, sim, senhor! Mas há assuntos que só assim os conseguimos saber. A memorização é indispensável e deve ser aproveitada ao máximo.

Se retirámos as consoantes mudas não articuladas, escreve-se com mais clareza, embora, bem entendido, seja necessário ter consciência de que conceção é diferente de concessão. E conselho não é diferente de concelho? E conserto não é diferente de concerto? E há tão boa gente que não os sabe distinguir!

–– Para sabermos escrever, temos de ler! ––
O bom povo precisa de saber escrever. Bem entendido! Mas será que o bom povo, sempre que escreve, pensa no étimo latino que esteve na origem da palavra que tem em mãos? Saberá, por exemplo, que “insipiente” vem do latim insipientia, “tolice” “sandice”; e “incipiente” deriva do verbo incipere, “empreender”, “começar”, “dar princípio” e significa o estado do que está no começo? Não sabe, nem pensa nisso, porque tem mais no que pensar.

Não será esta mais uma questão de ortografia pré-Acordo que se prende com a falta de hábitos de leitura?

Para a autora, quem sabe escrever e adota a prática da leitura aprende a usar as novas regras ortográficas da Língua. E “aqueles que não sabiam escrever continuarão a não saber fazê-lo”.
 

Ser um cidadão responsável é ter a capacidade de pegar num livro e de o ler com um filho.

Di-lo-ei até que a voz me doa: saber escrever não é uma competência inata. Para a dominarmos, há que a desenvolver, há que a moldar, há que a incrustar no nosso cérebro. Então, temos de ler! Só dessa forma consolidamos a ortografia, compreendemos os contextos, e conseguimos distinguir “conceção” de “concessão” ou “conselho” de “concelho” ou “insipiente” de “incipiente”.

Anedota é haver letrados a tentar explicar aquilo que há muito sabem: o povo português não gosta de ler, não lê e, por isso, cada vez se escreve pior. A desculpa para quem não sabe não pode ser o Acordo Ortográfico.

E por que motivo as pessoas não leem? Esta questão, sim, deveria ser discutida, debatida, refletida para que se unissem esforços no sentido de criar as estratégias necessárias à promoção da leitura.

Por outro lado, não posso deixar de acrescentar o seguinte: também há aqueles que sabem ler, que sabem escrever, que dominam o Português e que, com o AO, têm medo de deixar de o fazer, porque para que isso continue a ser possível, deverão perder algum tempo a decorar regras que, a seu ver, são desnecessárias e dão muito trabalho.

Não fiquemos, pois, à deriva! Unamos esforços e caminhemos juntos rumo à Lusofonia! Portugal não está perdido e se “está a entristecer” não é, com certeza, por causa da nossa Língua. Essa está mais forte do que nunca.  :::

.
PEDRO, Lúcia Vaz. Língua Portuguesa: a hora da Lusofonia.
Extraído do Jornal de Notícias – seção DossiêsPortuguês Atual.
Porto, Portugal.
Publicado em: 24 fev. 2014.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: