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Gilvan Müller: gestão conjunta da Língua Portuguesa “é um ganho muito grande para o século XXI”

In Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 21 de Fevereiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , , , , , ,

Guilherme Dias, do sítio Lusomonitor (Portugal)
13 de fevereiro de 2014

Para Gilvan Müller de Oliveira, é “preciso perceber as vantagens de uma concertação entre os países para a promoção da Língua Portuguesa”.

Na segunda parte da entrevista ao Lusomonitor, Gilvan Müller de Oliveira, diretor do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, fala da persistente falta de recursos financeiros para a difusão do português no mundo. Mais do que isso, alerta para uma falta de coordenação entre os países lusófonos, que faz com que não sejam exploradas potencialidades. Nem sequer um curso de português tirado em Portugal é reconhecido no Brasil, e vice-versa.

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:::  O surgimento do IILP viveu conhecidas dificuldades. Pode hoje dizer-se que estão ultrapassadas? Quais é que diriam que são hoje os constrangimentos que enfrentam?  :::
Gilvan Müller de Oliveira – Eu diria que não. As dificuldades com o IILP continuam, basicamente já divulgadas pela imprensa em termos de dificuldades com colaborações dos Estados-membros, colaborações financeiras atuais. E também alguma dificuldade que temos de captação de recursos externos. O IILP conseguiu captar nesta gestão cerca de 100 mil euros, captação direta, mais cerca de 65 mil euros de captação indireta. Mas a nossa própria localização em Cabo Verde estreita um pouco as bases de participação em editais de projetos porque dependemos apenas de projetos que podem ser percebidos em Cabo Verde. Em decorrência dessas dificuldades, fizemos uma proposta ao CCP [Comité de Concertação Permanente da CPLP] –(1)–, já no final de 2012, prevendo a abertura de escritórios regionais com que o IILP podia ampliar o número de projetos, quadros que atuam nesses projetos; portanto, cumprir melhor os seus objetivos iniciais. Das dificuldades que o IILP tem, esta é talvez a mais concreta.

Para Gilvan Müller, é “uma oportunidade muito grande o facto de a Língua Portuguesa ter um Instituto Internacional” como o IILP.

Acredito que seja uma oportunidade muito grande o facto de a Língua Portuguesa ter um Instituto Internacional. Não há nenhuma outra grande língua internacional que o tenha. O modo como o IILP trabalha, idêntico ao que a CPLP trabalha, prevê uma gestão colegiada e comum da Língua; é um ganho muito grande para o século XXI. Ele mina ainda visões colonialistas de como a Língua possa ser gerida; internacionaliza a Língua. A Língua, através de um órgão como o IILP, pertence a todos os países, todos os Estados membros, portanto, todos votam, opinam, participam da elaboração das metodologias. O IILP permite que os custos dos projetos sejam partilhados – portanto, mais econômicos – e que tenha racionalidade maior em termos de aplicação, pois o resultado é depois imediatamente compartilhado por todos os países.

Eu diria que essa é uma grande oportunidade. Mas diria também que na nossa Comunidade ainda há uma visão estabelecida – e muito fortemente estabelecida – que é muito antiga em relação à Língua. Digo às vezes em piada que ainda vivemos uma concepção de Língua do século XIX, como monumento e não como instrumento de uma Comunidade; concentrada num país ou dois, e não de todos os países. Um dos constrangimentos de ordem política do IILP é o que opõe ações unilaterais de países a ações multilaterais. Muitas vezes, há soluções inteligentes que podiam ser tomadas no nível multilateral, mas ainda se preferem nalguns casos ações unilaterais. Isso certamente enfraquece a capacidade que o IILP tem de, digamos assim, executar projetos no âmbito multilateral.

O CAPLE, de Portugal, e o Celpe-Bras, do Brasil, são os dois exames de avaliação de competências em Língua Portuguesa de validade internacional.

:::  O que é preciso para que o português se afirme como Língua global neste século?  :::
GMO – Diria que, em primeiro lugar, seria preciso perceber as vantagens de uma concertação entre os países para a promoção da Língua Portuguesa. Temos vários empecilhos que nascem do facto de a Língua Portuguesa ser uma língua com duas normas; que, para além de serem duas normas, são duas normas opacas, não colaborativas. Dou um exemplo: temos um certificado internacional de Língua Portuguesa do Brasil, Celpe-Bras, e um de Portugal, o sistema CIPLE –(2)–, e eles não são nem mutuamente reconhecidos entre si. Isto quer dizer que uma pessoa que aprenda português e faça um exame de Portugal, quando vai ao Brasil não tem nada. Ou que um argentino que faça um exame oficial do Brasil quando venha à Europa não tenha nada. Além de que os outros países não participam destas iniciativas, não tenham os seus próprios métodos e professores de Ensino de Português como Língua Estrangeira, com o que perdemos importante colaboração nas suas regiões geopolíticas de influência.

Esta fratura que citei no caso do Português como Língua Estrangeira é extensível a outras áreas da Língua Portuguesa. A existência de uma CPLP, de um IILP, pode colaborar no sentido de criarmos frentes de concertação para o desenvolvimento de instrumentos comuns, de uma estratégia comum, que já começa a ser esboçada a partir dos Planos de Ação de Brasília e de Lisboa e através de projetos de lá decorrentes, como é o caso do VOC [Vocabulário Ortográfico Comum] ou do Portal do Professor de Português como Língua Estrangeira.

:::  Quais são as grandes potencialidades da Língua Portuguesa, em relação a outras línguas globais?  :::
GMO – Estamos num momento de grande crescimento do multilinguismo. Participar desse multilinguismo do século XXI é um benefício muito grande para as línguas de um modo geral e para o português de modo particular, pela dispersão das suas bases geográficas, a importância da sua diáspora, pela importância das organizações internacionais em que o português participa. Nesse sentido, é preciso termos bem claro quais são os desafios, quais são as dificuldades que temos para tentar superá-las e poder aproveitar esse ativo que é a Língua Portuguesa para uma vida melhor para o cidadão, uma abertura do cidadão ao mundo através da Língua Portuguesa, estabelecimento de parcerias e movimentos de conhecimento associadas ao português, como Língua de ciência, de circulação internacional, e nesse sentido como uma das grandes Línguas internacionais, como uma das Línguas em mais rápido processo de crescimento no mundo.

O português é um excelente instrumento de internacionalização e precisa apenas resolver gargalos da sua gestão, da sua administração, do modo como a Língua se organizou, ainda muito decorrente das fraturas coloniais, superar essas fraturas coloniais, estabelecer-se como Língua moderna do século XXI, voltada para o futuro.

“É preciso poder aproveitar esse ativo que é a Língua Portuguesa, como Língua de ciência e como uma das Línguas em mais rápido processo de crescimento no mundo.”
 

:::  Quais são os principais objetivos do IILP para 2014?  :::
GMO – Estamos a prepara o Plano de Atividades para este ano, para 2015, que inclui uma quantidade de trabalhos que já estão em desenvolvimento em 2014. Em primeiro lugar, nós temos os projetos previstos no Plano de Ação de Brasília, que são sempre a nossa prioridade, e agora a partir da aprovação do Plano de Ação de Lisboa, o que a isso for adicionado. Basicamente a continuidade da elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) da Língua Portuguesa, previsto no Acordo Ortográfico de 1990 e para o qual o IILP foi mandatado pelo Plano de Ação de Brasília; o Portal do Professor de Português como Língua Estrangeira, que já vai com 110 unidades disponíveis – unidades didáticas para os professores trabalharem nas suas aulas, gratuitamente disponíveis. O VOC integra hoje três países – Portugal, Brasil e Moçambique –, o Portal do Professor tem já quatro países com unidades disponíveis – Moçambique, Angola, Brasil e Portugal – e vamos a Timor-Leste durante a segunda metade do mês de fevereiro, justamente para que Timor se integre rapidamente ao VOC, ao Portal, e possamos assim contar com cinco países no Portal e já quatro países com os seus Vocabulários Nacionais prontos.

Para além disso, o IILP ampliou agora a publicação da sua revista, para além dos quatro números iniciais com os textos completos dos Colóquios internacionais preparatórios à II Conferência que o IILP organizou sobre o português nas organizações internacionais, o português na Internet, nas diásporas e sobre as outras 339 línguas do espaço da CPLP, e vamos publicar agora números adicionais sobre os trabalhos realizados na Guiné Equatorial, um número organizado desde Macau pela Universidade de Macau em conjunto com o IILP, sobre o Ensino de Português na China e de chinês nos países de Língua Portuguesa, e um número que contempla conjuntamente o VOC e o Portal do Professor. De modo que a nossa revista tem sido um veículo de projeção também dos trabalhos que a comunidade faz através do IILP e que basicamente eram previstos no Plano de ação de Brasília. Estamos nesta atividade intensa durante 2014 ainda e essas atividades certamente continuarão com o próximo diretor-executivo no ano de 2015.  :::

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–– Notas: ––
–(1)– O Comité de Concertação Permanente é um órgão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que se reúne uma vez por mês e é composto por representantes de todos os países-membros da CPLP. O Comité define e adota as políticas e os programas de ação da CPLP e aprova o orçamento anual do IILP.

–(2)– Estes são os dois exames internacionais de proficiência em Língua Portuguesa:

O CIPLE ou CAPLE (Centro de Avaliação de Português Língua Estrangeira) é um certificado de proficiência em Português como Segunda Língua desenvolvido pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O Celpe-Bras (Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros) – desenvolvido e outorgado pelo Ministério da Educação do Brasil, aplicado no Brasil e noutros países com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

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DIAS, Guilherme. IILP debate-se com falta de recursos e coordenação na difusão do português.
Extraído do sítio Lusomonitor (Portugal).
Publicado em: 13 fev. 2014.

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Leia também:
IILP lança Portal do Professor de Português Língua Estrangeira – 02 de novembro de 2013
Chanceleres avaliarão Acordo Ortográfico e difusão da Língua Portuguesa para a ciência – 25 de julho de 2013
Conselho Científico do IILP quer Língua Portuguesa apta para a ciência – 22 de junho de 2013
Portugal-Brasil: em defesa de uma “relação especial” – Carlos Fino – 20 de outubro de 2012
Os quatro Colóquios Internacionais do IILP para o Plano de Ação da Língua Portuguesa – 14 de julho de 2012

Uma resposta to “Gilvan Müller: gestão conjunta da Língua Portuguesa “é um ganho muito grande para o século XXI””

  1. Que não fiquem esquecidas as regiões e comunidades luso descendentes espalhadas pelos cinco continentes, que ainda falam e desejam aprender a língua de Camões.
    Sendo MALACA um exemplo secular presente.

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