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Para que serve a Lusofonia? É uma ideologia? – Henrique Monteiro

In Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 15 de Fevereiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , ,

Henrique Monteiro
do jornal Expresso (Lisboa, Portugal)
2 de fevereiro de 2014

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Por razões que não têm outra explicação senão a amizade, vim passar uns dias a Cabo Verde. Penso que num blogue diário esta espécie de conversa pessoal faz sentido. E faz ainda mais quando, por via dessa amizade, tive o privilégio de contactar alguns dirigentes deste país, bem como pessoas que já o foram e, à mesa de uma agradável refeição, surgiu um debate que o ex-Presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano, já lançara em Lisboa, há um ano, na abertura das comemorações dos 40 anos do Expresso.

Nessa mesa em que estava eu sentado, tinha como parceiro o ex-ministro e ex-candidato a Presidente da República de Cabo Verde (assim como bom poeta e escritor dos vários que este país tem), David Hopffer Almada. Tinha-o conhecido no Brasil em 1986, salvo erro, quando ele e o ex-ministro da Cultura brasileiro do Governo Sarney – José Aparecido de Oliveira, mais tarde embaixador em Portugal (falecido em 2007) –davam, com outros, os primeiros passos no que viria a ser a CPLP, ou seja a Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Entusiasta da ideia desde então, Almada não foi surpreendido pela pergunta que Chissano fizera há um ano no CCB [Centro Cultural de Belém, em Lisboa]: o que é a Lusofonia? Que coisa é essa? É uma ideologia? É apenas uma comunidade de países independentes que, por razões históricas, falam a mesma Língua? Algum dos países tem ou deverá ter preponderância sobre os outros?

O aspeto tem sido muito debatido e só me cabe dar a minha opinião pessoal. A CPLP foi uma excelente ideia cujos resultados, por circunstâncias várias, tardam em aparecer.

Na verdade, e embora Cabo Verde seja o menos burocrático dos países da chamada Lusofonia, tenho de preencher mais papéis para aqui entrar do que para ir à Finlândia, nação encantadora, mas a que nada me liga. Se falar de Angola, nem um visto consigo. No Brasil e em Moçambique as coisas não serão melhores, seguramente do que em Cabo Verde. Por isso, tirando o idioma comum e a retórica da amizade, pouco se ganha em ser da CPLP. E eu digo isto sendo português e sabendo, por relatos vários, que entrar em Portugal é ainda mais difícil para um cabo-verdiano ou para um moçambicano. No plano dos negócios e das relações bilaterais, apesar do esforço das diplomacias, não há nada de muito visível. O Acordo Ortográfico é a confusão que se sabe e talvez a única coisa agradável a dizer seja que costuma haver concertação de votos nos organismos internacionais como a ONU para eleger lusofalantes para lugares de destaque.

Ora a Lusofonia (eu não gosto do nome, mas não o discuto) não é seguramente uma ideologia. Não há uma especificidade das relações de Portugal com outros povos, ao contrário do que a retórica oficialista da História nos tem querido fazer crer. Por isso, a CPLP tem de ter um lado prático. Tal como, por exemplo, diminuir ao mínimo as cargas burocráticas das fronteiras, até à livre circulação de pessoas e bens. Bem sei que Portugal, fazendo parte [do Acordo] de Schengen, abriria as portas da Europa a todos aqueles que falam português, mas esse é um problema diplomático que tem de ser resolvido com bom senso e sabedoria.

Também não devemos nós – nem os outros países – ter complexos em relação ao Brasil. Se o português subsistir no mundo como idioma veicular, ao Brasil o ficará a dever. Não se trata, como dizem adversários do Acordo Ortográfico, de uma cedência, mas de uma constatação.

Não há e nunca houve um Portugal do Minho a Timor, como propalava Salazar, ideia contra a qual lutei quando ainda era menor de idade. Mas há, tem de haver, privilégios claros para aqueles que fazem parte de uma associação como a CPLP e, além desses privilégios, tem de haver regras semelhantes e recíprocas (por isso, a entrada da Guiné Equatorial não faz sentido, a menos que queiramos alargar o espaço ao espanhol e integrar toda a América Latina e a própria Espanha no mesmo clube).

Essas regras semelhantes e recíprocas têm de ser negociadas com objetivos em mente, e um deles deveria ser, justamente, o grande desígnio de Fernando Pessoa: “A minha pátria é a Língua Portuguesa”. Num mundo em que as nações estão em crise, podemos ser pioneiros na transnacionalidade, na união pela Língua comum, nas fronteiras abertas e fluidas entre países com enormes taxas de natalidade e outros, como Portugal, que envelhecem a cada ano. Como nos negócios, nas trocas comerciais, na própria organização da comunicação.

Não é por acaso que, no meio da ilha de Santiago, longe do mar, numa pequena aldeia, ontem mesmo alguém se dirigiu a nós em francês e, quando lhe respondemos em português, ele virou-se para um conjunto de rapazes e disse: “Estes não são estrangeiros, são portugueses”.

Fazer com que a contaminação da nossa Língua comum passe do respeito comum a direitos e deveres comuns e à total abertura de espaços seria fazer da CPLP e da Lusofonia um sucesso. Mas, sinceramente, não sei se isto será utopia minha; não sei se os dirigentes de cada país terão a grandeza de perceber que o mundo se vai organizar de forma diferente. Espero que sim.  :::

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MONTEIRO, Henrique. Para que serve a Lusofonia? É uma ideologia?
Extraído do diário Expresso – coluna Chamem-me o que Quiserem.
Publicado em: 02 fev. 2014.

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