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Gilvan Müller de Oliveira: a internacionalização da Língua Portuguesa no século XXI

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade on 10 de Fevereiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , , , , ,

Baseado em artigo do
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Gilvan Müller de Oliveira, diretor-executivo do IILP: “Precisamos internacionalizar a gestão da Língua Portuguesa, como Língua policêntrica.”

 

A Língua Portuguesa é uma das mais influentes à escala global, uma das mais faladas do mundo. Ela possui de 221 a 245 milhões de falantes como primeira ou como segunda Língua, falada em nações de quatro continentes. Mas o que fazer para que esta vantagem mundial da Língua Portuguesa se efetue no século XXI?

Um interessante texto, bem argumentado, procura lançar caminhos para a resposta. Trata-se do texto do diretor-executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), o professor brasileiro Gilvan Müller de Oliveira, intitulado Política linguística e internacionalização: a Língua Portuguesa no mundo globalizado do século XXI.

No artigo, o autor considera ser ainda pouco explorado o potencial do português como Língua internacional, e ressalta o papel do IILP e de outros órgãos plurinacionais para a projeção da “Língua filha ilustre do Latim”. O artigo está publicado em linha na revista brasileira Trabalhos de Linguística Aplicada (2013, vol. 52, n. 2, pp. 409-433), da Universidade Estadual de Campinas. Abaixo os principais trechos do artigo.

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O professor Gilvan Müller de Oliveira, em seu texto, realça não só o grande número de falantes da Língua no mundo, mas também o contato que os povos lusófonos tem com culturas múltiplas ao redor do planeta. “O português conta com 29 mil quilômetros de fronteiras com outras Línguas oficiais: o espanhol, o inglês, o francês, o holandês, o bahasa indonésio, o chinês, o afrikaans [africânder], o kiswahili [suaíli] e o guarani, o que permite interessantes alianças geolinguísticas como, por exemplo, a do português e do espanhol num grande bilinguismo estendido a toda América do Sul – um dos ideários político-linguísticos do Mercosul. Contrariamente ao que acontece com os países hispanófonos ou germanófonos, nenhum país de Língua Portuguesa faz fronteira com outro país da mesma Língua, sendo por isto cada um deles uma ‘ilha linguística’ cercada de países de outras línguas onde o português adquire, paulatinamente, um estatuto reconhecido como Língua estrangeira, como é o caso da Espanha, da Argentina ou da Namíbia.”

“Internamente aos países da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], o português convive com aproximadamente 339 diferentes línguas, com variado número de falantes e diferentes graus de vitalidade; línguas estas constituintes das culturas nacionais dos respectivos países e hoje objeto de uma série de programas de promoção por parte dos governos, como ficou registrado no Colóquio Internacional de Maputo sobre A Diversidade Linguística nos Países da CPLP, realizado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa na capital moçambicana em setembro de 2011. […] Desse modo, nossas sociedades lusófonas vão aprendendo, com algum atraso, a lidar e a ver como oportunidade o fato de termos, na CPLP, 5% do número total de línguas do mundo.”

“A primeira metade do século XX encontrou os dois únicos países de Língua Portuguesa, Portugal e Brasil, fortemente isolados um do outro, e voltados para seus problemas internos.”

A seguir, segundo o professor Gilvan Müller de Oliveira, o período entre 1930 e 2012 marcou “três fases históricas” para a Língua Portuguesa: de 1930 a 1974, houve ditaduras, guerras de libertação e descolonização; de 1974 a 2004, a era das transições e das normalizações democráticas, bem com do fim das guerras civis; e a partir de 2004, a era da integração das nações lusófonas, como “coagentes, a um contexto multipolar”, em que ganham relevo e importância ações como as da CPLP e do IILP.

O diretor-executivo do IILP destaca que esse contexto multipolar não mais admite a concentração de produção do conhecimento em uma só língua, o que compromete a inclusão dos mercados linguísticos emergentes.

“Aplicado ao campo da economia linguística, isto implica que novos mercados linguísticos devem ser incluídos na produção, dada a finitude e a saturação da produção em uma única língua. É o que fazem as empresas de tecnologia de ponta, como a Google, ou entidades como a Wikipédia: funcionam em muitas línguas, advindo o lucro da soma de todos estes mercados linguísticos. Para poderem alcançar a estes mercados, precisam preparar instrumentos multicanal, em que todas as línguas possam estar em funcionamento ao mesmo tempo, prioridade absoluta do multilinguismo no mundo digital.”

As políticas de projeção da Língua são uma das atribuições do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

“A Língua Portuguesa é uma das Línguas de mais rápido crescimento neste momento histórico, que representa, no entanto, um crescimento do multilinguismo de modo geral e das grandes línguas do mundo em particular, pelas características do atual estágio das forças produtivas, com grandes implicações para as mudanças no padrão da governança global.”

“Cabe dizer que as línguas, pelo menos as grandes línguas de Estado do mundo”, como o espanhol, o alemão, o francês e o inglês, da mesma forma como o português, “são objeto de gestão, o que ocorre no âmbito das chamadas políticas linguísticas.”

“Podemos propor que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 assinado por todos os países de Língua oficial portuguesa e ratificado por todos menos Angola e Moçambique, […] foi o primeiro indício do aumento das pressões por uma normatização convergente.”

“A crescente pressão pela inversão do processo normativo instaurado no século XX e a aposta em uma normatização convergente decorre de transformações em vários campos”, entre eles, assim enumerados por Gilvan Müller:
– o da presença da Língua na Internet e nos produtos da digitalização linguística;
– o da constituição crescente de diásporas internas à CPLP; e
– o do intercâmbio de produtos culturais, orais e escritos.

“Quadro ainda embrionário nesta nova fase geopolítica na qual entramos, a Língua Portuguesa comum que vai se conformando com o desenvolvimento de instrumentos consensuados e participativos indica a superação das gestões puramente nacionais e abre perspectivas, desde a gestão, para a internacionalização da Língua, na esteira das novas inserções internacionais dos países da CPLP.”

“A internacionalização pela Língua Portuguesa é maximamente benéfica, e, portanto, o investimento na promoção interna e externa do português maximamente rentável.”

“Para internacionalizar a língua, precisamos internacionalizar a sua gestão, construindo de maneira conjunta a sua cadeia tecnológica e a coordenação diplomática da sua negociação global, reconhecendo a oportunidade de pensá-la e tratá-la como Língua policêntrica. Preparado o terreno, torna-se o português nosso veículo privilegiado para o estabelecimento de relações econômicas e culturais no cenário mundial.”  :::

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OLIVEIRA, Gilvan Müller de. Política linguística e internacionalização: a Língua Portuguesa no mundo globalizado do século XXI.
Da revista Trabalhos de Linguística Aplicada, vol. 52, nº. 2, 2013, pp. 409-433.
Do Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas
Campinas, Brasil.

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–– Com base em artigo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa ––

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