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Germano Almeida, de Cabo Verde: “O português é o que nos põe em contacto com o mundo”

In Defesa da Língua Portuguesa, Lusofonia e Diversidade on 9 de Fevereiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , , ,

Com base em reportagem do jornal A Semana (Praia, Cabo Verde)
29 de janeiro de 2014

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Germano Almeida: “O crioulo é importante para nós. Mas a Língua Portuguesa nos põe em contacto com o mundo.”

“O crioulo é importante para nós, é a nossa língua, mas com ela estamos restringidos a Cabo Verde. Quando me convidam para falar da Língua Portuguesa, preocupo-me, sobretudo, em pensar na importância que ela tem para nós, cabo-verdianos”.

Esta foi a afirmação de Germano Almeida, autor cabo-verdiano que participou no colóquio Criar em Português/O que pode uma Língua, ocorrido em Lisboa.

Germano Almeida participou, no dia 27 de janeiro, no colóquio realizado na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, na capital portuguesa, em que se pretendia “saber mais sobre as experiências, dificuldades, descobertas e expectativas de quem usa e estuda a Língua Portuguesa e sabe o que ela tem de único, de virtuoso e de virtualidade”. No final do painel “Criação Literária”, o escritor cabo-verdiano falou ao jornal A Semana, da Cidade da Praia, sobre a importância que estes encontros têm para a divulgação da Língua Portuguesa.

*              *              *

:::  O que achaste deste primeiro dia de debate e, sobretudo, do painel em que participaste?  :::
Germano Almeida – A ideia, em si, é interessante. Os portugueses estão preocupados com a expansão da Língua Portuguesa. Nós, em Cabo Verde, devemos estar preocupados com o uso da Língua Portuguesa. É isto que tento transmitir. Temos de dominá-la bem porque nos põe em contacto com o mundo. A Língua cria proximidade. Eu quero transmitir a cultura cabo-verdiana, a vivência cabo-verdiana, em português. Não posso dizer que é uma Língua estranha. Utilizo-a como uma ponte entre culturas.

Para o autor, o português e o crioulo, como Línguas, “estão no mesmo pé de igualdade”.

:::  No caso de Cabo Verde, a nossa preocupação é com o crioulo. Não haverá umconflito de interesses?  :::
GA – O crioulo é importante para nós, é a nossa língua, mas com ela estamos restringidos a Cabo Verde. Quando me convidam para falar da Língua Portuguesa, preocupo-me, sobretudo, em pensar na importância que ela tem para nós, cabo-verdianos.

:::  Apesar de já ter sido publicado em forma de lei ainda a polémica vai acesa à volta da questão do alfabeto da língua cabo-verdiana. Qual é a tua opinião nesta matéria?  :::
GA – Nós vamos precisar de, em qualquer tempo, ter uma definição daquilo que vai ser o alfabeto cabo-verdiano. Dominando a Língua Portuguesa, cultivando a Língua Portuguesa, não podemos descurar o uso do crioulo porque é a nossa língua. Viremos, um dia, a ter literatura em crioulo, livros traduzidos em crioulo. Não sei quando, na medida em que são necessários meios que não temos. De qualquer modo, começará a ser mais fácil, a partir do momento em que tivermos fixado um alfabeto e dizer que, a partir de agora, se escreve o crioulo desta maneira. É preciso dizer se as pessoas recusaram o ALUPEC –(*)– [Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano] e tem de haver outro alfabeto para as pessoas saberem, exatamente, os dados com que se cosem.

:::  Seguirias outro caminho alternativo ao ALUPEC?  :::
GA – Eu, na minha opinião, seguiria o alfabeto português. Democraticamente não sei se seria a opção escolhida. Eu escolheria essa via, por uma razão simples. Por exemplo: quando vejo “casa” escrita com “k” e ela não reflete a ideia que eu tenho de casa, mas, sim de outra coisa. Porque, no fundo, a língua não é apenas palavras: é aquilo que já temos a nível do sentimento, da nossa idiossincrasia. Dizem que escrever com “c” estaremos a escrever exatamente como os portugueses. Isto é mau? Para mim, não é.

:::  O evitar a “contaminação” do português será uma falsa questão?  :::
GA – É uma falsa questão tentarmos fugir do português. Esta é a minha opinião. Porque o crioulo não vai chegar a ser exatamente como o português. É um pouco como a questão do americano em relação ao inglês. Acho que chegaremos a algo semelhante. A tentativa do afastamento do português é um problema ideológico. Não sei se é uma coisa importante. Para mim, não é. As duas Línguas estão no mesmo pé de igualdade. Se estão próximas ou afastadas, é pormenor.

:::  Falaremos todos, futuramente, o “brasileiro”, como se referiu um colega teu do painel?  :::
GA – Nunca se sabe. Com a importância e o peso da população brasileira, é bem possível que assim venha acontecer. Por outro lado, também teremos de analisar esta questão com um certo relativismo. O peso dos números também pode não ter essa incidência, dependendo daquilo que fizermos a nível da literatura.  :::

*              *              *

–– Nota: ––
–(*)–  O ALUPEC é abreviação de Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano. Foi criado em 1994 e tornou-se em 2005 o único alfabeto oficial para a escrita do crioulo cabo-verdiano, assim reconhecido pelo governo da República de Cabo Verde. Apesar da exclusividade atual, a lei do país permite o uso de outros modelos de escrita “apresentados de forma sistemática e científica”.

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Baseado em
Germano Almeida: “O português é o que nos põe em contacto com o mundo”.
Extraído do Jornal A Semana – Praia, Cabo Verde.
Publicado em: 29 jan. 2014.

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