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Os limites da Lusofonia, segundo o linguista Gregório Firmino, de Moçambique

In Defesa da Língua Portuguesa, Lusofonia e Diversidade on 2 de Fevereiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Do Observatório da Língua Portuguesa
24 de janeiro de 2014

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Gregório Firmino: a diversidade linguística é realidade em Moçambique, e o português é "opção estratégica", "para ativar nas pessoas a consciência de que estão num mesmo Estado".

Gregório Firmino: a diversidade linguística é realidade em Moçambique, e o português é “opção estratégica”, “para ativar nas pessoas a consciência de que estão num mesmo Estado”.

O linguista moçambicano Gregório Firmino é diretor da Faculdade de Ciências Sociais e Letras da Universidade Eduardo Mondlane, a principal universidade pública de Moçambique. Ele declarou não saber se sua primeira Língua foi o português. A dificuldade é comum no país lusófono do sudeste da África, uma nação plurilingue que tem apenas 39% da população falante do português – a Língua oficial.

De colonização portuguesa tão antiga quanto a do Brasil, o país só se tornou independente em 1975, quando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), movimento que venceu a luta armada, chegou ao poder. “Moçambique independente produziu mais falantes do português do que Moçambique colonial”, diz Gregório, cuja especialização académica é a relação entre o português e as línguas locais.

Gregório Firmino falou em entrevista à Revista Língua Portuguesa, do Brasil, sobre a complexidade linguística do país e o projeto de nação que a Frelimo concebeu, fazendo o país adotar a Língua Portuguesa, tanto para promover integração social quanto para atuar no cenário internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista:

*              *             *

:::  Qual a primeira língua que aprendeu?  :::
Gregório Firmino – Na verdade não sei. É muito difícil para alguns moçambicanos dizer qual a sua primeira língua, pois estamos expostos a muitas. A de casa, que, se calhar, foi a primeira que ouvi – mas não tenho certeza –, é uma bantu, gitonga, uma das muitas do país. Meus pais vivem numa região onde também se fala outra língua bantu; então, quando estava com meus amigos, tinha de falar uma língua diferente. E ao longo da vida fui aprendendo outras.

:::  Quantas línguas há em Moçambique hoje? :::
GF – Esta pergunta, para mim, como sociolinguista, não é respondível. As fronteiras linguísticas não se estabelecem dessa maneira. Claro que depende sempre de quem as estabelece. Mas, numa sistematização feita do recenseamento de 1980, foram identificadas 24 categorias. Repare: não digo “línguas”, digo “categorias linguísticas”. São 24, incluindo o português. Mas o número pode chegar a cem ou a cinco, dependendo de como se classifica.

:::  Quais os problemas de a maioria da população não ter o português como primeira Língua?  :::
GF – Não gosto de dizer que há problemas. Há uma situação linguística que é preciso encarar, como há em outros países. A interação social é feita pela língua, mas ela não serve só para se comunicar. Pressupomos que nós temos de ser iguais, mas não. O que se passa é que os problemas que nós precisamos discutir têm a ver com o fato de olharmos para eles com a visão do funcionamento do Estado. Moçambique é plurilíngue, as pessoas falam várias línguas. Há várias bolsas de línguas, e mesmo quando dizemos “plurilíngue” estamos a simplificar. Há pessoas que falam duas línguas bantu, outras falam três, quatro.

Outras falam uma bantu e o português, mas essa bantu não é a mesma que a dos outros que falam português. Posso falar a língua A mais o português, outro falar a língua C mais o português. É uma situação muito complexa. Do ponto de vista do Estado é importante encontrar o fator comum, sobretudo para ativar nas pessoas a consciência de que estão num mesmo Estado. É verdade que há muitas instâncias contra; o português não é a solução de todos os problemas. É uma opção estratégica, da qual as pessoas têm consciência.

:::  Como foi a adesão ao português? Ele era “a Língua do inimigo”, não?  :::
GF – Foi um processo político, de alguma forma normal – considerando a configuração do movimento nacionalista.

:::  Sim, pois foi a Língua adotada pela Frelimo, certo?  :::
GF – Era a Língua do movimento, a que poderia unir. O nome já diz: era uma “frente”, a união de todos, desde que tivessem uma posição anticolonial. A Frelimo congregava diferentes tendências; então elegemos um catalisador comum, e a Língua Portuguesa serviu. Mas isso confunde as pessoas: não quer dizer que todos falassem português.

"A questão em causa era executar um projeto nacional. E, mesmo agora em Moçambique, muitos não falam português. Mas toda gente o assume como um símbolo. Representa todos nós."

“A questão em causa era executar um projeto nacional. E, mesmo agora em Moçambique, muitos não falam português. Mas toda gente o assume como um símbolo. Representa todos nós.”

:::  Aqui se questiona o “abaixo os tribalismos”, para unir todos em uma nação forjada e, com isso, apagar as diferenças.  :::
GF – Como você vai apagar? A questão em causa era executar um projeto nacional. E, mesmo agora em Moçambique, muitos não falam português. Mas toda gente o assume como um símbolo. Tanto que o português, além de servir como instrumento de comunicação, é como se fosse uma bandeira, um hino. Posso não gostar do hino, posso até não conhecer a letra e não cantá-lo, mas representa todos nós.

Os estudos que há em Moçambique enfatizam muito a mudança linguística no lado da estrutura da Língua. No tempo colonial, a Língua não era falada da mesma forma que em Portugal, nem pelos próprios portugueses que estavam em Moçambique. Mas o que fez a Língua ser moçambicana foi o fato de ela ter sido assumida pelos moçambicanos como símbolo da unidade nacional – a mudança simbólica precede, tem mais relevância que a estrutural. Porque esta é normal; uma língua está sempre em mudança.

O português está a sofrer um processo de nativização, que se associa a novos valores sóciossimbólicos e traços linguísticos. Esta “nativização” tem mais a ver com o novo uso social do que com a diferenciação da Língua em si. Ao português em Moçambique é conferido um caráter singular pela ideologia que motiva os seus usos, e não só por suas inovações linguísticas.

[…]
O aspecto marcante é a gente dizer: “Essa Língua é nossa; não devemos nada a você.” Os portugueses querem cobrar o uso do português, como se fosse um favor que nos fizeram. Não; eles nos deveriam muito mais! Mas a Língua Portuguesa deve a quem? Eles devem ao italiano? Daqui a mil anos, vamos chamar de português aquilo que se fala no Brasil? Aquilo que se fala em Moçambique? Não sei. Mas a Língua é nossa. E não só é nossa, mas é tão nossa quanto os outros dizem que é deles. Não devemos favor a ninguém, não venham nos dar lições; fazemos o que queremos. E amanhã, se nós dissermos “já não queremos” – como Estado – e adotarmos, como política linguística, alguma outra opção estratégica, qual o problema?

:::  Quais os maiores desafios da linguística em Moçambique?  :::
GF – O desafio, que se estende para fora da África, é o de trabalhar sem preconceitos. Assumir uma visão linguístico-científica para conhecer as coisas de uma forma científica – porque muitas vezes os cientistas querem descobrir aquilo em que já pensaram, que acham que já descobriram, e não é bem assim.

Penso que muito do que se faz na África tem esse defeito de já ter um pensamento preconcebido. Da mesma forma como falamos em “África”. É errado. Devemos falar de “Áfricas”… As pessoas querem soluções gerais, “a mesma fórmula que se aplica a tantos contextos”. Mas a questão é olhar cada caso sem preconceito, e assumir que África é um continente; os países africanos sempre tiveram dinâmicas, não são produtos acabados. Nesse dinamismo, a interação com elementos crioulos, que surgem do contato entre línguas e povos, sempre esteve presente – de forma positiva ou negativa.

Antes de chegarem os colonos europeus, já havia colonização em África – dos árabes. Havia colonização intra-africana também – grupos que invadiram outros grupos, e ocuparam outros, mataram etc. Sempre houve isso, e isso sempre teve consequências sociais. As pessoas olham para África como se ela tivesse só uma colonização, como se a história de Moçambique começasse quando os portugueses chegaram. Aquilo foi uma etapa – houve, e vai haver outras.

*              *             *

A entrevista na íntegra do linguista moçambicano Gregório Firmino sobre a Língua Portuguesa em Moçambique e a diversidade das línguas locais no país africano está no sítio da Revista Língua Portuguesa, do Brasil.  :::

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Os limites da Lusofonia.
Extraído do Observatório da Língua Portuguesa.
Publicado em: 24 jan. 2014.

2 Respostas to “Os limites da Lusofonia, segundo o linguista Gregório Firmino, de Moçambique”

  1. Aconselhamos a ler “Potencial Económico da Língua Portuguesa”, livro recente.
    Juntar académicos e meios de comunicação social, para falarmos das vantagens do entendimento lusofono, reforçando os afetos, os valores e a cultura. Eis os benefícios para um mundo mais justo para a humanidade.
    Continuarmos hoje a confrontarmos “quem é pior e o melhor”, não vale a pena, não existe peso nem medida, nem julgamentos imparciais. Mas deixamos uma afirmação. Foi graças aos descobrimentos portugueses, homens com ciência, sem medo, assim abriraram aqueles mares, que geração alguma não abriu.

  2. com tristeza que lemos o artigo do linguista frente da universidade, preocupado com quem foi o mau e o bom da fita. Como todo o mal seja da lngua, que afirma no saber qual a 1 lngua que se falou em Moambique. Perdeu uma boa oportunidade de ficar calado …. para bem dos povos que j sofreram o suficiente.

    Avistar um mundo menos desigual em Moambique e em todas as regies lusofonas, dever ser a principal preocupao de todos, mas muito mais para os que tiveram o privilgio de andar na escola, estudar e saber mais. A estes exigimos que sejam os vanguardistas do combate ignorncia, como 1 combate pobreza.

    Korsang di Melaka

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