Articles

Português: Língua libertadora para o povo de Goa – Jason Keith Fernandes

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 29 de Janeiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , ,

Jason Keith Fernandes: o aprendizado do português faz parte do processo democrático da Índia em Goa.

Ventos da Lusofonia publica artigo do blogue de Jason Keith Fernandes em defesa do estudo e da revitalização da Língua Portuguesa como marca da identidade cultural-nacionalista de Goa. Mais um artigo sobre a necessidade da preservação e da difusão do português na Índia neste dia 29 de janeiro – dia do encerramento dos III Jogos da Lusofonia em Goa e, ao mesmo tempo, o Dia da República, feriado nacional da Índia.

O autor do artigo a seguir é de origem goesa e doutor em antropologia pelo ISCTE-IUL (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa), e escreveu diversos artigos em revistas e jornais de Goa, na Índia. Ele defende que a Língua Portuguesa seja vista pelos goeses com o enfoque mais cultural-nacionalista, como uma das Línguas da Índia, evitando-se assim o risco de tão somente ver a Língua Portuguesa como se ela fosse “estritamente portuguesa”.

Jason Keith Fernandes afirma que, da mesma forma como a língua inglesa atuou durante a colonização da Índia e está presente na Índia democrática de hoje, “a adoção da Língua Portuguesa foi fundamental para a obtenção do poder não apenas na esfera administrativa e política, mas também na social. Fazer justiça a esse equilíbrio de poder é fundamental para o projeto democrático.”

Se mais pessoas em Goa usarem a Língua Portuguesa, ela deixará de ser um marcador de diferenciação social no território. E será ainda não somente um meio a mais de comunicação com o mundo exterior, mas também um canal de integração e de resistência contra a discriminação da sociedade em castas no Estado de Goa.

Para o autor, a compreensão da Língua Portuguesa por um número cada vez maior de pessoas servirá como meio para reivindicação de direitos e para a releitura da história tradicional de Goa, com maior presença das “narrativas alternativas e libertadoras” da história popular goesa, e não apenas das castas hindus mais privilegiadas.

O artigo do académico Jason Keith Fernandes foi publicado em seu blogue em língua inglesa no dia 18 de dezembro de 2011. E também publicado na edição do jornal goês O Heraldo, de 19 de dezembro de 2011. Trata-se de mais uma voz goesa – indiana – que reconhece o valor histórico e cultural da Língua Portuguesa como uma das Línguas da Índia e como marca da identidade de Goa.  :::

.
*              *              *

–– A Língua Portuguesa e o futuro da libertação de Goa ––

Jason Keith Fernandes, de Goa (Índia)
18 de dezembro de 2011


Um cliché retórico popular, usado nas ocasiões do aniversário da independência da Índia, pergunta se de facto nós, os indianos, somos realmente livres. Esse cliché instiga-nos a considerar a independência não como um momento isolado no tempo, mas como um processo rumo à realização de uma sociedade utópica livre de todos os males e problemas sociais.

Não seria, portanto, algo fora do lugar fazer uma pergunta similar sobre a libertação de Goa e salientar que a libertação não pode significar um momento isolado no tempo, mas deve ser vista necessariamente como um processo, do nosso compromisso com o aprofundamento do projeto democrático.

A Língua Portuguesa em Goa faz parte do processo de independência plena da Índia.

A introdução da democracia indiana em Goa tem sido um processo benéfico. Infelizmente, no entanto, também significou o abandono, ou o apagamento, da Língua Portuguesa em Goa. Deve-se ressaltar, no entanto, que a aprendizagem da Língua Portuguesa pelos goeses de hoje não está desconectada do projeto maior de uma maior democratização da sociedade goesa. Pelo contrário: o cumprimento do projeto democrático está crucialmente ligado a mais goeses a aprender e a usar a Língua Portuguesa.

Este enfoque na Língua Portuguesa não é para dar a esta Língua um lugar legítimo na história goesa, nem para legitimar os traços daqueles goeses que têm um aspecto “português” bem marcado em seu estilo de vida. Um argumento assim limita-se a reconhecer a Língua Portuguesa em seu valor como estritamente portuguesa, e não confere muito valor a partir de um ponto de vista cultural-nacionalista. Uma discussão que poderia (e deveria) conferir valor a partir de uma posição nacionalista é a que está ligada ao modo pelo qual o português está relacionado com os arranjos de poder na sociedade goesa contemporânea.

–– Línguas e poder colonial: o inglês na Índia, o português em Goa ––

Durante o período português em Goa, a Língua foi “marcador social” inclusive para a sociedade hindu, o que se viu também com o inglês na Índia.

Para compreender por inteiro o significado desta discussão, é essencial sublinharmos um argumento muito repetido; o colonialismo em qualquer parte do mundo – e isso também vale para Goa – não foi apenas o resultado de uma dominação estrangeira unilateral. Pelo contrário: o colonialismo persistiu graças à participação das elites locais no projeto colonial.

Assim como os ingleses asseguraram o acesso ao poder na administração indo-britânica colonial, e como a educação em modelos educacionais ingleses assegurou a sua participação na estrutura de poder do Império Britânico, também em Goa, a adoção da Língua Portuguesa foi fundamental para a obtenção do poder não apenas na esfera administrativa e política, mas também na social. Fazer justiça a esse equilíbrio de poder é fundamental para o projeto democrático.

Nos tempos coloniais, a Língua Portuguesa foi tão intimamente associada com os grupos da elite, tanto a hindu quanto a católica, que o conhecimento do português foi, e continua a ser, efetivamente um marcador de casta dos grupos dominantes da sociedade goesa. Assim, por exemplo, pelo menos entre os círculos católicos, apesar da predominância que o inglês veio a assumir como um marcador de mobilidade e estatuto social, ter “antepassados falantes de português” continua a indicar uma localização (mais) privilegiada de alguém dentro das hierarquias da sociedade goesa católica.

–– “Marcador social de antepassados” ––
Além do mais, não é incomum ter de destacar isto, que o português não era uma “Língua franca” no interior de Goa, mas era largamente utilizado pelas elites. Ao fazer esta afirmação factual, embora aparentemente inocente, simultaneamente está a se demarcar também sutilmente os limites da herança portuguesa dentro da sociedade goesa.

Assim, por exemplo, como resultado dessa lógica, os estilos de vida e a cultura material da elite do território é que, na maioria esmagadora das vezes, foram focados como a serem representações da arquitetura indo-portuguesa, enquanto aquelas dos mais humildes são grandemente ignoradas. Estas demarcações asseguram um foco privilegiado sobre os estilos de vida e a cultura material apenas deste pequeno segmento da elite da sociedade goesa católica, lançando todo o restante a uma espécie de barbárie cultural.

Tomemos por exemplo a forma como a vibrante tradição do Tiatr –(1)– – principalmente porque não era, e continua a não ser, o entretenimento das elites de Goa – é constantemente descartada como “fora do padrão”, apesar do facto de sua função estelar como um meio de análise social e de entretenimento. Incentivar uma aprendizagem mais ampla da Língua Portuguesa seria efetivamente desafiar esta ligação entre o status social e a Língua.

Se mais goeses tornarem-se “falantes de português”, seria transformado em um absurdo o marcador social do “antepassado falante de português” que usamos atualmente, a frustrar assim de forma efetiva, ainda que parcialmente, a maneira com a qual a diferença social é articulada hoje.

Mais decisivamente, e movendo-se para além das estruturas possivelmente restritas dos católicos de Goa, o conhecimento da Língua Portuguesa foi fundamental para a manutenção do controle sobre a administração do Estado, bem como sobre a documentação do Estado quanto ao direito à terra. Não apenas para poucas famílias nem para um grupo de uma casta, fizeram-se fortunas em virtude deste acesso restrito à Língua na Goa colonial.

Apesar de o inglês já ter substituído o português como uma língua do Estado, e como indica o fluxo contínuo de pessoas a folhear registos de terra nos arquivos do Estado em Panjim, a Língua Portuguesa continua a ser fundamental para que se possa fazer valer, ou mascarar, as reivindicações por terra. Hoje, quando grupos subalternos na Goa contemporânea enfrentam uma ameaça ainda maior do acesso ao direito à terra, seria um erro estratégico permitir o controle da interpretação de documentos e leis em Língua Portuguesa baseado justamente nas mãos dos poucos grupos, predominantemente da casta “superior”, que retomaram o aprendizado da Língua Portuguesa.

De acordo com o autor, a revitalização da Língua Portuguesa entre a população de Goa faz parte da promoção da igualdade e da preservação da história popular do território, além de permitir aos goeses o estudo das culturas da Lusofonia.
 

–– Português como Língua de resistência popular ––
A história popular do período português em Goa tem sido amplamente limitada aos contos sangrentos da conquista inicial da ilha de Goa, à Inquisição e à dramatização dos episódios anticoloniais na história do território. Em grande medida, essa história nacionalista dissuade os hindus de castas subalternas de estudarem a Língua. E isso tem garantido que somente as narrativas das castas dominantes fossem incorporadas às histórias do território, impedindo as narrativas alternativas e libertadoras de surgirem a partir de uma releitura dos textos e narrativas do período de soberania portuguesa sobre o território.

É pouco sabido, por exemplo, que o conhecimento da Língua Portuguesa era fundamental para o desafio dos bahujans –(2)– ao controle monopolista dos grupos hindus da casta superior sobre os templos de Goa. Este controle monopolista dos templos foi especialmente moldado através do conhecimento, por estes últimos grupos, da Língua Portuguesa.

–– Para os goeses estudarem Portugal (e o mundo lusófono) ––
E, finalmente, é o argumento que repousa sobre o reconhecimento de que a promoção da igualdade é facilitada quando há paridade dentro do poder de representação. Enquanto um número considerável de académicos portugueses trabalha na história e na sociedade de Goa, é extremamente difícil encontrar académicos de Goa que trabalham para explicar a sociedade portuguesa e a sua história sem relações com Goa.

Quando formos capazes de efetivamente construir uma banda de especialistas académicos, que possam descrever as obras dos portugueses sobre Goa, a Índia e o mundo, e quando nos engajarmos na imprensa e nos círculos académicos de Portugal, com as descrições deles sobre Goa, então poderemos assentar os alicerces definitivos para uma maior igualdade entre os dois espaços. Para fazer isso, no entanto, é necessário que os goeses aprendam a Língua Portuguesa.

Por estas razões, portanto, a aprendizagem da Língua Portuguesa pelos goeses de hoje em dia é um componente essencial do nosso projeto democrático, que a ação da União Indiana em dezembro de 1961 procurou empreender.  :::

(Publicado na seção comemorativa do jornal O Heraldo, de 19 de dezembro de 2011)

(Tradução de Ronaldo Santos Soares)

.
*              *              *

–– Notas: ––
–(1)– O Tiatr é uma manifestação de teatro musical popular, típica de Goa, com canto e música, e representada em língua concani. A palavra concani tiatr vem do português “teatro”. Os atores são chamados de “tiatristas”. Tornou-se um símbolo cultural de Goa, pois as representações ajudaram a preservar a língua concani durante o domínio colonial português na Índia.

–(2)– Os bahujans são “as pessoas da maioria”, que é o significado do nome em língua páli. São os membros das castas baixas ou das “castas registadas”, como hoje são oficialmente chamadas na Índia. O nome bahujan também faz estrita referência aos dalits ou “intocáveis”. Estes últimos tradicionalmente nem são classificados como casta e sofrem grande discriminação dentro do sistema de divisão da sociedade indiana baseada no hinduísmo.

.
FERNANDES, Jason Keith. The Portuguese Language and the future of Goan liberation.
Extraído do blogue Notes of an Itinerant Mendicant – Goa, Índia.
Publicado em: 18 dez. 2011.

.
*              *              *

Leia também:
O dia de um professor de Língua Portuguesa que ama Goa – 16 de janeiro de 2014
Goa, a ponte da Índia para o mundo lusófono – Loro Horta – 14 de janeiro de 2014
“Fala Português?” – a importância da Língua Portuguesa para a Índia – Constantino Xavier – 13 de janeiro de 2014

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: