Articles

Português com sotaque – Elísio Estanque

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade on 27 de Janeiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , ,

O professor Elísio Estanque e a diversidade dentro da unidade da Língua Portuguesa: “Dois sotaques, uma só Língua”.

O Acordo Ortográfico pode ser importante para unificar as regras de escrita da Língua Portuguesa em âmbito internacional. Mas não há tratado que possa impedir as diferenças de expressões e de palavras em uma Língua de grande alcance e de riqueza de usos tanto no Brasil quanto em Portugal.

Essa é a opinião do professor português Elísio Estanque, docente da Faculdade de Economia e investigador do Centro de Estudos Sociais, ambos da Universidade de Coimbra, e professor visitante da Universidade Estadual de Campinas, Brasil.

Para o professor, a unidade da Língua é importante, mas ela não pode ser confundida com uniformização. Uma valor importante da Língua é a criatividade decorrente de sua diversidade. “Se a ‘Língua de Camões’ é a grande referência, precisamos de saber conjugar o cânone clássico com a criatividade inventiva das suas múltiplas pronúncias e usos, em vez de tentar impor um padrão único a todos os seus falantes”.

“Na poesia, no romance, na linguagem popular e também através das gírias e calões locais, o português readapta-se e reinventa-se, como acontece com qualquer língua viva. E ainda bem”, afirma o professor.

Elísio Estanque é autor de recente artigo de opinião veiculado no jornal Público, na edição de 10 de janeiro de 2014, em que defende a diversidade de usos e de pronúncias que enriquecem a Língua Portuguesa. E mesmo com as diferenças entre os usos dos dois lados do Atlântico, “a Língua Portuguesa parece ganhar um novo protagonismo no mundo”.

A seguir, Ventos da Lusofonia reproduz o artigo de opinião do professor Elísio Estanque no jornal Público, em que exalta a diversidade da Língua, mas trata-se de uma diversidade dentro da unidade. “Dois sotaques, uma só Língua.”

.
*              *              *

–– Português com sotaque ––

Elísio Estanque
do jornal Público (Portugal)
11 de janeiro de 2014

.
:::  À parte o (controverso) Acordo Ortográfico, é a alteração dos fluxos migratórios que mais ajudam a ampliar a presença do português no mundo.  :::

.
Entre o português do Brasil e o de Portugal abundam, como é sabido, as diferenças entre expressões e palavras, sobretudo na oralidade. E não há Acordo Ortográfico que possa impedi-lo.

Se a “Língua de Camões” é a grande referência, precisamos de saber conjugar o cânone clássico com a criatividade inventiva das suas múltiplas pronúncias e usos (na Europa, em África ou no Brasil), em vez de tentar impor um padrão único a todos os seus falantes.

Ao longo de um ano em que deambulei pelo Brasil, deparei-me com múltiplas situações dúbias relacionadas com as nuances da nossa Língua comum. Seja pela diferente sonoridade das falas, seja pelo recurso a formulações estranhas para um brasileiro, somos muitas vezes confrontados com a súbita interjeição: “Oi?…”, que quer dizer: “o que é que você falou?”, “não percebi nada!”. A referência à Língua e aos “sutaquis” de ambos os lados do Atlântico é o pretexto para ilustrar as “desventuras” de um “indígena” do Alentejo quando, mergulhado em atmosferas tropicais, faz uso de uma linguagem coloquial com o som “lá da terrinha” (como eles dizem). E o mesmo pode ser dito a propósito de um “brazuca” quando viaja por Portugal em busca das suas raízes lusitanas.

Entre autocarros e ônibus, bicas e cafezinhos, comboios e trens, elétricos e “bondjinhos”, fumantes e fumadores, raparigas e moças, pequeno almoço e café da manhã, para além do “rato” (de computador), que no Brasil se diz “mause” (imagine-se a minha dificuldade quando entrei numa loja de informática e pedi um “tapete de rato” e mais tarde descobri que teria de perguntar por um “ponto de mause”), ou da gíria do futebol, onde o “guarda-redes” é o “goleiro”, o “canto” é o “escanteio”, o “defesa” é o “zagueiro”, etc., etc., sem esquecer os nomes de produtos que por cá adquiriram a designação das respetivas marcas (como o “Ban-Aid”, que é um penso-rápido) ou, por exemplo, o pequeno apartamento onde resido que aqui é um “kitnet“… Entre os “caras” (sinónimo de rapaz, tipo, gajo) e o “Ki-barato” (nome de uma lanchonete), enfim, as subtilezas linguísticas podem por vezes atrapalhar, mas em geral tudo se resolve com risadas e curiosidades. E em português nos entendemos.

–– “Cada um dos dois sotaques procura mimetizar o outro” ––
Na poesia, no romance, na linguagem popular e também através das gírias e calões locais, o português readapta-se e reinventa-se, como acontece com qualquer língua viva. E ainda bem. Quem experimente este contacto entre os modos distintos de uso do português não deixa de se surpreender com alguns mal-entendidos, mas eles fazem parte das pequenas dessintonias inerentes a uma Língua rica e dinâmica.

Segundo o autor, graças à sua diversidade oral, “o português readapta-se e reinventa-se, como acontece com qualquer língua viva. E ainda bem.”

Certa vez, enquanto principal organizador de um encontro académico em Coimbra irritei-me com uma colega acabada de chegar do Brasil que me chamou por “oi, moço!”, como é usual tratar-se um empregado de mesa. Porém, desde que cheguei ao Brasil, no início de 2013, fui muitas vezes interpelado “do mesmo mesmo jeito” (mais um exemplo de expressão típica de cá), por “moço”, “cara” e até “negão” – mas também por “querido” – da parte de desconhecidos, sem que daí transparecesse qualquer falta de respeito ou intenção maldosa. Tudo depende do contexto.

Por outro lado, não deixa igualmente de ser curiosa a forma como brasileiros que passaram pelo nosso país procuram glosar a pronúncia do “português de Portugal”, imitando a sua outra sonoridade. O relato da conversa com um taxista mal humorado em Lisboa, no seu vernáculo de vogais fechadas e ar taciturno (ou atitude mal-educada), pode ser um bom motivo de risota, e é sem dúvida uma ajuda, no Brasil, ao habitual anedotário em que o patético Mané é posto a ridículo. Muitos brasileiros estão convencidos que em Portugal toda a gente se trata por “tu” e que o uso do “pá” é generalizado, o que por vezes cria situações um pouco embaraçosas, como aquela em que um colega meu (do Brasil) foi entrevistar um alto diretor administrativo em Portugal, e logo iniciou a conversa com um “ó pá, tu sabes dizer-me se…”.

Na verdade, o que me parece francamente ridículo é quando cada um dos dois sotaques procura mimetizar o outro na mesma conversa. Num diálogo entre falantes de cada um dos nossos países, é frequente o brasileiro colocar a ênfase no “tu”, pensando que assim se torna mais português, enquanto este usa e abusa do “você” a fim de se aproximar da fórmula brasileira. Por mim, dei-me bem fazendo-me entender com a pronuncia de Portugal, embora, claro, tentando usar as expressões mais ajustadas ao público brasileiro; e quanto ao uso dos gerúndios não tive nenhum problema, dadas as minhas raízes.

–– “Dois sotaques, uma só Língua” ––
O encanto da Língua reside na diversidade das suas pronúncias e vocalidades, embora haja quem se aproveite das diferenças para justificar erros gramaticais inaceitáveis. Porém, os brasileiros sabem apreciar o estilo português de falar, desde que se evite aquele rápido jargão de consoantes (“ss” e plurais) entoados com “ch” final ou as vogais fechadas; e os portugueses podem perfeitamente “curtir” a sonoridade cantada da pronúncia brasileira, desde que se evite aquela língua enrolada de algumas regiões onde o “rrs” guturais se confundem com “ggs” e resultam numa pronúncia estranha em frases como a “pogta vegde”…

Seja devido à presença de imigrantes, seja por influência das novelas, ou, atualmente, pela crescente chegada de jovens quadros portugueses ao Brasil, a Língua Portuguesa parece ganhar um novo protagonismo no mundo. À parte o (controverso) Acordo Ortográfico, é a alteração dos fluxos migratórios e a recomposição dos segmentos sociais que hoje atravessam o Atlântico em ambas as direções, e é o papel do Brasil na economia global, que mais ajudam a ampliar a presença do português no mundo. Dois sotaques, uma só Língua.  :::

.
ESTANQUE, Elísio. Português com sotaque.
Extraído do jornal Público – seção Cultura
Lisboa, Portugal
Publicado em: 11 jan. 2014.

.
*              *              *

Leia também:
Portugal-Brasil: em defesa de uma “relação especial” – Carlos Fino – 20 de outubro de 2012

Uma resposta to “Português com sotaque – Elísio Estanque”

  1. Em Português, como em muitas outras linguas, consta de varios sotaques por uma so grafia. Se tomamos o caso do arabe, é apenas uma grafia comum com oralidades muitos mais afastadas do que a variedade de sotaques em português. Existem linguas em Português e nao uma so lingua portuguêsa que seria a normativa Lisboeta. O desenvolvimento recente do Português se deve à prosperidade das metropoles brasileiras, onde o sotaque carioca é dominante para estrangeiros. Os brasileiros sabem que existem muitos sotaques no seu pais, entao admitem a necesidade de utilizar um dialeto estandar. Por razoes historicas, o Rio de Janeiro é a cidade que mais emigrantes portugueses recebeu nos ultimos 200 anos, o que se nota no sotaque carioca. Algum sotaque devia ser a referencia mundial e acho que esse sotaque tem uma sonoridade mais agradavel e perta do sotaque originario. A final o que importa é falar com jeito para nos entender/perceber.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: