Articles

Encontro marcado com a Língua na Igreja de Pangim, em Goa

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 25 de Janeiro de 2014 by ronsoar Tagged: , ,

A igreja de Panjim iluminada à noite: marca da influência da arquitetura colonial portuguesa em Goa, no oeste da Índia.
 

.
A Língua Portuguesa está presente em Goa e na Índia por mais de cinco séculos. Veio para a Índia no período das Grandes Navegações portuguesas e foi a “Língua franca” do comércio na Ásia. Hoje são poucos os falantes, ainda remanescentes do extinto Estado Português da Índia. E que fazem questão de preservar a Língua Portuguesa como marca e sinal cultural de Goa dentro da diversidade cultural indiana.

Uma reportagem do jornal Ponto Final, de Macau, mostra um grupo de goeses, de indianos, que se reúnem na Igreja da Imaculada Concepção, de Panjim (ou Pangim) – capital do Estado de Goa – ondem podem reunir-se e conversar em Língua Portuguesa. Uma Língua que – apesar de ter hoje pouco mais de mil falantes em Goa – por mais de cinco séculos, faz parte da história da Índia e é marca da identidade de Goa.

Ventos da Lusofonia reproduz a reportagem sobre a geração mais velha de indianos lusófonos que ainda se sente como “portugueses de Goa”, e o uso da Língua Portuguesa com um enfoque todo voltado para o passado. A matéria foi publicada no Ponto Final, de Macau, China, de 22 de janeiro de 2014.

.
*              *              *

–– Encontro marcado na missa de Pangim ––

Inês Santinhos Gonçalves
do jornal Ponto Final (Macau, China)
22 de janeiro de 2014

A igreja da Imaculada Concepção em Panjim: um dos pontos de encontro de quem fala a Língua Portuguesa em Goa.

São “portugueses de Goa”, filhos da terra que nunca saíram do país ou emigrados que regressam religiosamente para férias prolongadas. Encontram-se aos domingos, na Igreja de Pangim, para uma das poucas missas do Estado rezadas em português.

Em um primeiro contacto com Goa chega-nos logo uma advertência: por aqui já são poucos e antigos os que sabem português. O concani, a língua local, e o inglês são os idiomas francos, a que se junta o hindi (língua nacional da Índia), perfazendo três línguas oficiais. Mas poucos dias bastam na cidade para o português, ainda que “mascavado”, como alguns o chamam, vir ter conosco.

.

Como em tudo, a sorte tem o seu papel. Na Igreja da Imaculada Concepção, conhecida simplesmente como Igreja de Pangim, o português toca o sagrado, todos os domingos pelas 10 horas e 30. É esta a hora da missa em Língua Portuguesa, uma das poucas realizadas em todo o Estado de Goa. Fica a cargo do padre António Xavier, que fala um “português mascavado”, avisam-nos mas antes de entrarmos na capela.

Cerca de 30 pessoas assistem à homilia e juntam-se à canção: “Tenho um amigo que me ama, tenho um amigo que me ama, seu nome é Jesus”. Na Imaculada Concepção faz calor e as ventoinhas que pendem do teto de madeira giram no máximo. “Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo”. Silêncio. As leituras seguem-se, por vezes nítidas ao ouvido habituado a outros sotaques, outras vezes nem tanto.

Em um Estado em que o número de pessoas a aprender o idioma não chegará a um milhar, cabe aos mais velhos o exercício da Língua, e são eles que, ao domingo, não perdem a missa do padre Xavier.

–– Ponto de encontro dos “portugueses de Goa” ––
No átrio da igreja branco-cal, debaixo de um céu azul brilhante, vemos os fieis saírem aos poucos. Dois dedos de conversa com uma pessoa rapidamente se tornam em uma reunião – em poucos minutos, estamos rodeados por uma dezena de lusófonos.

A missa de domingo funciona como ponto de encontro. “É uma das formas de manter a cultura. Nós, os falantes de Língua Portuguesa, vamos também para o Clube Vasco da Gama, que é um outro lugar de encontro e lá tomamos bebidas, falamos e cultivamos a Língua Portuguesa”, conta Messias Pereira.

Como muitos goeses lusófonos, Pereira esteve fora da Índia durante a maior parte da sua vida adulta. Estudou “português clássico” em Portugal – orgulhando-se de, por isso, ter o português mais correto de Goa – mas uma mudança para a Suíça obrigou-o a dominar o alemão. No entanto, manteve sempre “a ligação à terra e à cultura portuguesa”.

Agora, passa em Goa a maior parte do tempo, só dispensa a época de monções: “Nós, portugueses de Goa, que estamos espalhados pelo mundo inteiro, temos sempre tendência a voltar à nossa terra. E é uma espécie de pequeno convívio que nós temos, vir aqui à igreja matriz de Pangim.”

Interior da Igreja da Imaculada Concepção de Goa: nas manhãs de domingo, reunem-se ali as mais velhas gerações de goeses que falam português.
 

–– Em Goa, “a Língua está em todo o lado” ––
Também Óscar Monteiro, professor de Português e Economia radicado no Canadá, vai e vem. Viveu em Moçambique, Inglaterra, Portugal, mas regressa sempre a Goa. E agora que as obrigações profissionais o permitem, passa três a cinco meses por ano na cidade-natal.

“Nasci cá e gosto disto, gosto de visitar amigos e familiares”, explica. O autor do livro de poesia Nas Asas da Palavra fala de um sentimento de nostalgia e das saudades dos sabores. “Uma coisa que não posso fazer no Canadá é a comida goesa, com os condimentos e assim”, lamenta.

Quando está em Goa, Óscar Monteiro dá frequentemente aulas de português a convite do Instituto Camões. Apesar de o idioma estar longe de gozar da pujança de outros tempos, continua a marcar presença: “A Língua Portuguesa é ubíqua, está em todo o lado. Há instituições que zelam pela Língua: uma delas é a Fundação Oriente, outra é o Instituto Camões, e também o Consulado Português e uma associação de friendship da Língua Portuguesa. A Fundação Oriente e o consulado criaram aulas de português em várias escolas, como Língua estrangeira”.  :::

.
GONÇALVES, Inês Santinhos. Encontro Marcado na missa de Pangim.
Extraído do jornal Ponto Final – Macau, China
Publicado em: 22 jan. 2014.

.
*              *              *

Leia também:
O dia de um professor de Língua Portuguesa que ama Goa – 16 de janeiro de 2014
Goa, a ponte da Índia para o mundo lusófono – Loro Horta – 14 de janeiro de 2014
“Fala Português?” – a importância da Língua Portuguesa para a Índia – Constantino Xavier – 13 de janeiro de 2014
Cochim, Índia: “Olá, Língua Portuguesa!” – 17 de junho de 2012

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: