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Goa, a ponte da Índia para o mundo lusófono – Loro Horta

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 14 de Janeiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Nestes dias em que se realiza em Goa o Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono, mais uma voz da diplomacia defende o reforço da cooperação económica e cultural entre a Índia e os países de Língua Portuguesa.

“A criação do Fórum de Goa permitiria a Nova Délhi um espaço para desenvolver e cultivar laços próximos” com o mundo lusófono, assim defende o diplomata Loro Horta, antigo assessor do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste, e atualmente baseado em Asgabate, capital do Turcomenistão, país da Ásia Central.

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“O Fórum de Macau não é a única força por trás da expansão impressionante nas relações sino-lusófonas, mas desempenhou certamente um papel crucial na aceleração desse processo.” Assim diz Loro Horta, que foi também o gerente do projeto nacional das Nações Unidas para a Reforma do Sector da Segurança em Timor-Leste. “Nova Délhi, em cooperação com os seus parceiros lusófonos, deveria considerar seriamente a institucionalização destas crescentes interações económicas e culturais e criar o Fórum de Goa.”

Ventos da Lusofonia reproduz o artigo do diplomata Loro Horta escrito para a revista indiana Pragati, especializada nas relações internacionais da Índia. O artigo a seguir foi publicado em 8 de novembro de 2013.

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–– A ponte da Índia para o mundo lusófono ––

Loro Horta
da revista Pragati (Maisore, Índia)
8 de novembro de 2013

:::  A Índia deveria criar o Fórum de Goa para institucionalizar suas crescentes interações econômicas e culturais com seus parceiros lusófonos.  :::

Em 2003, o governo chinês estabeleceu o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, também conhecido como o Fórum de Macau. Ele é composto de oito países: Angola, Brasil, Cabo Verde, China, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste, com Macau como membro observador. A nação insular atlântica de São Tomé e Príncipe não faz parte devido ao facto de ter relações diplomáticas com Taiwan (Formosa) e teve recusado o convite de Pequim para participar como observador. Esta comunidade lusófona está espalhada por quatro continentes e abrange mais de 250 milhões de pessoas.

A Região Administrativa Especial de Macau promove o Fórum de Macau sob os auspícios do Ministério do Comércio da China, com o governo chinês a fornecer a maior parte dos financiamentos para o Fórum, e o governo macaense a contribuir com uma parcela menor. Além de promover laços comerciais entre a China e a comunidade lusófona, o Fórum também organiza cursos de formação e seminários de investimento para os funcionários dos países-membros, e financia uma série de publicações à imprensa. Estas publicações relatam sobre assuntos económicos e comerciais e fornecem informações sobre a economia dos países lusófonos e da China. Somando-se a esse foco, a cada dois anos, o Fórum acolhe uma reunião de nível ministerial para discutir assuntos económicos e comerciais.

Uma década depois, os investimentos de Pequim foram generosamente compensados. No período de 2003 a 2006, o comércio entre a China e os países lusófonos mais do que triplicou, passando de 10 mil milhões para 34 mil milhões de dólares [de 7,4 para 25,16 mil milhões de euros], e em 2011, apesar da desaceleração econômica global, atingiu 117,23 mil milhões de dólares [ou 86,75 mil milhões de euros]. Em 2009, o Brasil, a sétima maior economia do mundo, tornou-se o maior parceiro comercial da China no Hemisfério Sul, com o comércio bilateral a atingir 42 mil milhões de dólares [31 mil milhões de euros]. A China também ultrapassou os Estados Unidos da América como o principal parceiro comercial do Brasil, depois de mais de 80 anos de prevalência norte-americana.

Na África, Angola tem sido o maior parceiro comercial da China no continente desde 2008 — com o comércio bilateral a atingir 24 mil milhões de dólares [17,75 mil milhões de euros] em 2010 — e, entre 2007 e 2008, tornou-se temporariamente o principal fornecedor de petróleo da China, que foi o terceiro maior parceiro comercial de Moçambique, em 2010. A China tornou-se também uma importante fonte de empréstimos em condições suaves para os dois países, concedendo a Angola a quantia registada de 15 mil milhões de dólares [11,1 mil milhões de euros] desde 2002, e mais de 2 mil milhões de dólares [1,48 mil milhões de euros] para Moçambique.

A China ganhou apoio diplomático relevante através destas relações, especialmente em questões como direitos humanos, comércio e aquecimento global. Pilotos da Marinha da China treinaram no porta-aviões São Paulo, da Marinha do Brasil, e os dois países têm produzido em conjunto satélites, assim como um avião a jato. Portugal também parece aberto à ideia de levantar o embargo de armas da União Europeia (UE) à China — que a UE implementou após a repressão de Tiananmen — e tem sido voz simpática sobre disputas com a UE, como na recente polêmica sobre os painéis solares.

O Fórum de Macau não é a única força por trás da expansão impressionante nas relações sino-lusófonas, mas desempenhou certamente um papel crucial na aceleração desse processo. Com um investimento mínimo, mas muito bem pensado, a China obteve ganhos económicos e diplomáticos enormes por um preço pequeno.

Segundo o autor, a Índia poderia criar um fórum empresarial e cultural unido pela Língua Portuguesa: o Fórum de Goa pode seguir o exemplo da China com o Fórum de Macau.
 

–– “Entre com o Elefante” ––
A Índia está, em especial, bem posicionada para repetir sucesso similar através do mundo lusófono, onde as empresas indianas estão rapidamente a ganhar terreno. Como no caso da China, Portugal foi o primeiro a estabelecer possessões coloniais na Índia e o último a sair quando um governo fascista recalcitrante em Lisboa foi forçado a sair de Goa pelo Exército indiano em 1961.

Goa e os outros antigos territórios portugueses, como Damão, Diu, Dadrá e Nagar-Haveli, preservaram muitas características lusófonas e a Índia, sendo um país democrático, fez isso de forma livre e com orgulho. Goa, o menor estado da União Indiana, está entre os mais ricos do país. Antes da ascensão de Bangalore [no sul da Índia, atual centro da indústria informática indiana] no final da década de 1990, Goa teve o maior PIB per capita do país.

Goa é uma história de sucesso económico, com uma sociedade civil viva e uma economia diversificada. Como tal, estaria bem situada para tornar-se um eixo central para um compromisso indo-lusófono, a ser benéfico para todas as partes envolvidas.

A criação do Fórum de Goa permitiria a Nova Délhi um espaço para desenvolver e cultivar laços próximos com países como o Brasil e os ricos em recursos naturais como Angola e Moçambique, além de permitir a interação com países que têm pouco contato com Nova Délhi, como São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

A presença da Índia em alguns dos países lusófonos aumenta cada vez mais. Por exemplo, as empresas indianas investiram somas aos vários mil milhões nos setores de gás e carvão em Moçambique. Enquanto em Angola e no Brasil, as petrolíferas indianas estão lenta, mas progressivamente, a entrar no mercado.

Em muitos países lusófonos, há grandes comunidades de indianos, especialmente goeses. Estas comunidades indianas tendem a ser influentes na política e nos negócios. O professor Narana Cossoro, um goês, foi porta-voz do Parlamento português e é uma das principais autoridades europeias sobre a Índia. Em Timor-Leste, o dr. Roque Rodrigues foi ministro da Defesa e atualmente é um assessor sênior do presidente. O atual comandante da polícia do país, Longuinhos Monteiro, também é de ascendência goesa e vários antigos ministros em Moçambique têm ascendência indiana.

A Índia deveria aproveitar estas ligações culturais e históricas para avançar o seu interesse económico e diplomático entre um grupo cada vez mais importante de países. A criação do Fórum de Goa não deve ser vista como uma forma contrária à China, mas sim como um fórum que beneficia a todos os interesses e que se concentra em aspectos económicos e culturais.

Goa também poderia tornar-se um centro de intercâmbios educacionais, entre outros, com estudantes e funcionários dos governos, particularmente em áreas como turismo e TI [Tecnologias da Informação], a serem treinados no território. Goa seria o local perfeito para sediar reuniões de negócios entre os interesses empresariais indianos e de seus homólogos lusófonos.

Em novembro deste ano –(1)–, Goa vai acolher a terceira Jogos da Lusofonia, uma versão lusófona dos Jogos da Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth) –(2)–. Junto com os oito países lusófonos, também estarão presentes Sri Lanka e Guiné Equatorial, dois países com fortes influências culturais portuguesas.

Este é um primeiro passo importante. Contudo, Nova Délhi, em cooperação com os seus parceiros lusófonos, deveria considerar seriamente a institucionalização destas crescentes interações económicas e culturais e criar o Fórum de Goa. Em janeiro de 2014, Goa vai acolher a primeira conferência entre empresários dos países de Língua Portuguesa e da Índia –(3)–.

Em visitas a Angola, Portugal, Cabo Verde e Guiné-Bissau e em contactos com Timor-Leste entre outubro de 2010 e março de 2013, o autor levantou a ideia com vários altos funcionários da Lusofonia, indo de chefes de Estado a ministros e embaixadores. A ideia foi recebida com simpatia. Agora é a vez de Nova Délhi corresponder.  :::

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–– Notas: ––
–(1)–  O texto do diplomata Loro Horta foi publicado em novembro de 2013, antes do anúncio do adiamento dos Jogos da Lusofonia para janeiro de 2014 em Goa.

–(2)–  Criada em 1949 e com sede em Londres, a Commonwealth, Comunidade Britânica de Nações, é um organismo internacional de cooperação económica e diplomática e de projeção da língua inglesa, constituído de 53 países-membros. A presidente da Commonwealth é a rainha Isabel II do Reino Unido, que é também chefe de Estado de 16 países constituintes – em comum, antigas colónias britânicas.

–(3)–  Trata-se do Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono, realizado em Goa nos dias 14 e 15 de janeiro de 2014.

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HORTA, Loro. India’s bridge to Lusophone world.
da revista Pragati (de estudos sobre relações internacionais da Índia)
Maisore, Índia.
Publicado em: 08 nov. 2013.

Uma resposta to “Goa, a ponte da Índia para o mundo lusófono – Loro Horta”

  1. Sem dvida mais uma ponte … sem esquecer Malaca!

    Obrigada

    Luisa Timteo

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