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“Fala Português?” – a importância da Língua Portuguesa para a Índia – Constantino Xavier

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 13 de Janeiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Constantino Xavier: “O português é uma Língua tão ‘indiana’ quanto o inglês.”

Nos dias 14 e 15 de janeiro, realiza-se em Panjim, no Estado de Goa, o Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono.

O evento terá foco nos contatos externos – sobretudo comerciais – entre a Índia e o mundo de Língua Portuguesa, e é organizado pela Sociedade Lusófona de Goa, pela Associação de Amizade Portugal-Índia e pelo Instituto de Estudos Asiáticos, da AESE Escola de Negócios, de Portugal.

Em vista da proximidade do Congresso – e levando-se em conta a projeção mundial da Língua Portuguesa, a história lusófona da Índia e a ascensão económica da Índia e das nações falantes do português – vale a pena fazer-se a pergunta: por que a Língua Portuguesa é hoje importante, não só para Goa, mas também para a Índia?

Um jornalista lança três pistas para a resposta. A primeira é que, pela história, “o português é uma Língua tão ‘indiana’ quanto o inglês”. A segunda, que “a Língua Portuguesa não é monopólio só de Portugal”, mas falada em oito países ao redor do mundo. E a terceira, que “o português é uma das Línguas que mais crescem rapidamente no mundo”.

Trata-se de opinião defendida pelo jornalista português de origem goesa Constantino Xavier, especialista em relações internacionais da Universidade Johns Hopkins, de Washington, EUA, e grande conhecedor dos assuntos entre a Índia e o mundo lusófono.

O autor lamenta que, apesar da histórica presença da Língua e da cultura indo-portuguesa, não haja registos oficiais de quem, quantos são e como são os indianos que se expressam em português. Ainda assim, defende que a Língua Portuguesa seja revitalizada como Língua ativa e de importância na Índia.

E manifesta também a ideia de que a Índia crie um fórum económico multilateral com as nações de Língua Portuguesa, aproveitando o legado de Goa – assim como a China faz em relação ao Fórum de Macau. “Goa deve também assumir uma importância maior como o eixo que une a Índia ao mundo de Língua Portuguesa”, diz o autor.

Confira o artigo a seguir assinado por Constantino Xavier e publicado em julho de 2013 no semanário de língua inglesa The Goan, de Goa, Índia.

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–– Fala Português? ––

Constantino Xavier
do semanário The Goan (Goa, Índia)
20 de julho de 2013

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Aqui está uma receita para uma conversa explosiva para ter-se em Goa, com muitos visitantes intelectuais vindos de Délhi: mencione o declínio da Língua Portuguesa, então, acrescente “colonialismo” e “conversões” e misture bem (para dar o máximo efeito, substitua “libertação de 1961” por uma pitada da picante “invasão” e umas boas doses de feni [aguardente de caju típico de Goa]). É diversão garantida!

Para divulgar este assunto apimentado, convém primeiramente dissolver três mitos. Primeiro, o português é uma Língua tão “indiana” quanto o inglês. Falado pelo menos desde 1498 ao longo das regiões costeiras da Índia, foi também com frequência a “Língua franca” do comércio e da diplomacia através da Índia e da Ásia. Ao menos em Goa e em Damão, já era falada continuamente por no mínimo umas quatro mil pessoas desde o início do século XVI, com uma literatura e uma tradição musical ricas.

Pode estar na moda falar hoje o hinglish, mas a assimilação linguística do português é muito mais antiga e mais profunda, o que é comprovado pelo crioulo português de Damão. E ainda, a ignorarem esta história alternativa do subcontinente, e também com um esquecimento irónico de sua própria condição linguística, muitos indianos orgulhosos de falarem o inglês ainda acusam os goeses falantes do português de lealdade impatriótica à Língua de seus antigos controladores coloniais!

Segundo, a Língua Portuguesa não é monopólio só de Portugal, mas é uma das Línguas mais globalizadas do mundo, falada por volta de 250 milhões de pessoas, e com estatuto oficial em oito nações de quatro continentes, do Brasil a Angola e Moçambique, e de Portugal a Timor-Leste. Esta diversidade torna-a, ao lado do inglês e do francês, a mais globalizada e diversa das Línguas ocidentais. A refletir essa variedade dispersa para além apenas de Lisboa ou de apenas um continente, o excepcional Museu da Língua Portuguesa está localizado em São Paulo e a mais jovem nação de Língua Portuguesa está na Ásia.

E terceiro, em vez de se tornar apenas mais uma dentre as Línguas em decadência na Europa, o português é uma das Línguas que mais crescem rapidamente no mundo, de acordo com vários estudos (inclusive um com base nos novos usuários do Facebook). Tudo isto significa que a Língua tornou-se um importante ativo económico para jovens ao redor do mundo, especialmente com a expansão económica do Brasil. Dado este cenário, o que pode ser feito para que o Português seja revitalizado e prospere como Língua na Índia?

Em primeiro lugar, conseguir os números e o perfil correto dos falantes da Língua Portuguesa na Índia. Infelizmente, em virtude de os dados do censo oficial listarem somente as línguas com mais de 10 mil falantes, temos acesso ao pedaço extremamente importante de informação de que em 2010 havia ao todo 31 pessoas no Estado de Arunachal Pradesh [na região do Himalaia, no nordeste da Índia] com o inglês como sua língua materna (no total de 220 mil em toda a Índia), mas não há maneiras de saber quantos em Goa ou em Damão foram listados com o português a ser sua primeira, segunda ou terceira Língua (estranhamente, na Índia poliglota, o censo só permite listar o máximo de três).

Mas há alternativas, seja através de levantamentos de campo com bases científicas, ou pela análise de dados de estudantes matriculados em cursos de línguas através de institutos e universidades indianas. Tais estudos devem ser realizados urgentemente se desejamos medir de facto o tamanho e o perfil socioeconómico dos falantes de português da Índia.

Em segundo lugar, o Governo português deve reconsiderar a oferta de cursos de Língua Portuguesa a preços subsidiados para o público em geral. O arcaico modelo europeu de diplomacia missionária, com os cursos de Língua sendo oferecidos como se fossem uma caridade cultural à periferia pós-colonial, continua a ser absurdo, só que agora é também estrategicamente infrutífero e financeiramente insustentável. Os jovens indianos de hoje que aprendem o português não estão motivados pela ambição de ler Camões no original ou de enviar cartas apaixonadas a Cristiano Ronaldo, mas principalmente pelas oportunidades profissionais, tais como prestar assistência a consumidores brasileiros em uma central de atendimentos de Bangalore.

Por que deveriam os contribuintes portugueses subsidiá-los com seus impostos? A promoção da cultura e da Língua no estrangeiro permanece importante para o “poder brando”, mas – em especial para um Portugal falido – estes investimentos deveriam cada vez mais estar ligados à promoção de interesses económicos.

Finalmente, Goa deve também assumir uma importância maior como o eixo que une a Índia ao mundo de Língua Portuguesa, uma vez que Nova Délhi precisa aumentar sua presença em países com alto crescimento económico ou ricos em recursos naturais, como Brasil, Angola ou Moçambique. Assim, além de minhas sugestões anteriores para que se crie um instituto para a Lusosfera ou um órgão de diálogo oficial multilateral, assim como a China faz em relação ao Fórum de Macau, Goa poderia também acolher as dezenas de profissionais dos países lusófonos da África que vêm à Índia todos os anos para treinamento sob o programa indiano de assistência técnica e económica.  :::

(Tradução de Ronaldo Santos Soares.)

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XAVIER, Constantino. Fala Português?
Extraído do semanário em inglês The Goan (Goa, India).
Publicado em: 20 jul. 2013

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Leia também:
Goa: ponto de encontro dos negócios entre a Índia e a Lusofonia – Eugénio Viassa Monteiro – 11 de janeiro de 2014
Congresso Internacional Índia e o Mercado Lusófono, em Goa – 11 de janeiro de 2014

Uma resposta to ““Fala Português?” – a importância da Língua Portuguesa para a Índia – Constantino Xavier”

  1. Excelente texto. O ensino da língua portuguesa nunca será para Portugal uma despesa, mas sim um investimento económico.

    Parabéns pelo Congresso em Goa.

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