Articles

“É difícil aprender Português?” – por uma estudante de Trinidad e Tobago no sul do Brasil

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 7 de Janeiro de 2014 by ronsoar Tagged: , , ,

Aprender uma Língua nova é sempre um desafio. E não é apenas conhecer palavras, pronúncia e colocação em frases, mas também conhecer a visão de uma outra cultura. A experiência de aprendizagem da Língua tona-se mais completa e mais intensa quando se está no país onde ela é usada, mergulhando em todos esses aspectos culturais, vivendo-os todos os dias.

“Entendi que tinha muito mais do que uma nova Língua em jogo. No meio de novos gestos, rostos, hábitos, pratos, sons e cheiros, eu estava em jogo também.” Assim diz Renelle Millette, que veio de Trinidad e Tobago, país insular do Mar das Antilhas, de língua oficial inglesa. Ela estudou Língua Portuguesa no sul do Brasil, participando em 2001 do Programa de Português para Estrangeiros (PPE), fornecido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ventos da Lusofonia reproduz a seguir um depoimento feito por Renelle Millette sobre a Língua Portuguesa, a sua vida em Porto Alegre, a mudança de hábitos e culturas e a sua própria transformação pessoal. O texto foi publicado em 3 de dezembro de 2013 no sítio Conexão PPE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

.
*              *              *

–– Crônica: É dificil aprender Português? ––

Do sítio Conexão PPE
Programa de Português para Estrangeiros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre, Brasil
por Renelle Millette, aluna do PPE em 2001

.Ainda hoje, de tempos em tempos, alguém me pergunta: “Foi difícil aprender português?”, e assim, repentinamente, na pausa do meu interlocutor, não sei o que dizer. Pois há onze anos, logo que comecei a tropeçar pelas ruas de pedra do centro de Porto Alegre e me perder nos corredores do Câmpus do Vale da UFRGS, entendi que tinha muito mais do que uma nova Língua em jogo. No meio de novos gestos, rostos, hábitos, pratos, sons e cheiros, eu estava em jogo também.

Menos mal então que tinha a equipe do PPE. Numa sala simples e pequena, encontrei um núcleo de grandes mulheres, simpáticas e companheiras. E a mais miúdinha de todas logo se revelou como a maior matriarca: a Margarete Schlatter, junto com suas bolsistas, tornou-se uma referência não apenas de Língua, mas de segurança, de respostas, de carinho. Isso foi fundamental, pois nem o português nem os dias eram sempre iguais: às vezes, as aulas eram fáceis, outras, nem tanto; havia dias em que Porto Alegre era tudo de bom e outros em que as lembranças de outra terra seduziam o coração.

Mas havia uma constante: nunca deixei de aprender. Aprendi a conjugar verbos, abraçar não apenas amigos, beijar direto na bochecha, tomar chimarrão sem mexer na bomba, abreviar para “chima” e “ceva”, chamar dinheiro de “pila” e as meninas de “as guria”, ver novela, enunciar “bah” na nota apropriada e empregar o “tri” quando queria exagerar.

Onze anos depois, continuo em Porto Alegre, trabalhando, estudando e vivendo. E recorrendo à bela dádiva que o português me proporciona sempre que alguém me pergunta algo que não tem resposta, do tipo: “Por que estamos aqui?”, ou se foi difícil aprender português. Digo: “Pois é…”, tranquila na certeza de que, nessa frase vaga, a resposta certa está dada.  :::

.
MILLETTE, Renelle. Crônica: É dificil aprender Português?
Extraído do sítio Conexão PPE
Programa de Português para Estrangeiros, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre, Brasil.
Publicado em: 03 dez. 2013.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: