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Língua Portuguesa e ciência – Mário Vieira de Carvalho

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 30 de Dezembro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , ,

Mário Vieira de Carvalho é professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.

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O eminente professor Mário Vieira de Carvalho escreveu recente artigo em defesa da difusão e projeção internacional da Língua Portuguesa e o seu uso na divulgação da ciência e das tecnologias de ponta.

O professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, condena o uso da língua inglesa como se fosse língua única para a transmissão da ciência. “Não há razão para crer que os processos históricos de hegemonia e contra-hegemonia de tal ou tal língua na comunicação científica estejam encerrados.”

“Publicar em português ou em espanhol é publicar em Línguas internacionais, que ainda por cima se potenciam mutuamente”, declarou o professor, na esteira das ideias defendidas em outubro durante a II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, ocorrida em Lisboa e promovida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Segundo Mário Vieira de Carvalho, “mergulhar numa cultura e comunicar cientificamente na sua Língua sempre fez parte dos processos de internacionalização na formação superior, a benefício de todos os interlocutores e do desenvolvimento científico. Tanto mais tratando-se de Línguas fortemente globalizadas.”

A seguir, o artigo Língua Portuguesa e ciência, de Mário Vieira de Carvalho, originalmente veiculado na edição de 29 de dezembro do jornal Público, de Lisboa.

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–– Língua Portuguesa e ciência ––

Mário Vieira de Carvalho
Do jornal Público (Lisboa, Portugal)
29 de dezembro de 2013

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:::  Uma política científica com visão estratégica não pode deixar de considerar prioritária a valorização do português como Língua científica internacional.  :::

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Publicar em inglês é, sem dúvida, uma das condições da internacionalização da investigação. Contudo, seria um erro reduzir a produção e a circulação de conhecimento científico a uma única língua veicular. Também o latim o foi durante séculos, acabando destronado pelo uso do vernáculo. Não há razão para crer que os processos históricos de hegemonia e contra-hegemonia de tal ou tal língua na comunicação científica estejam encerrados. Pelo contrário, é plausível que a atual “correlação de forças” se altere num futuro mais ou menos próximo.

Além disso, em domínios como os das ciências sociais, artes e humanidades, não se pode fazer tábua rasa do que se publica noutras línguas. O alemão, por exemplo, é uma língua internacional de referência. O mesmo poderia ser dito do francês. Mas também o espanhol e o português são duas das Línguas europeias mais globalizadas: pelos numerosos países que as adotam como Línguas oficiais, pela sua expansão através comunidades espalhadas pelo mundo, pelos múltiplos Departamentos de Estudos Portugueses e Espanhóis em universidades europeias, norte-americanas ou asiáticas.

Publicar em português ou em espanhol é publicar em Línguas internacionais, que ainda por cima se potenciam mutuamente (pode-se falar duma comunidade científica bilingue no acesso à informação, na produção de conhecimento, em várias dimensões de cooperação e intercâmbio).

Neste sentido – e ao contrário do que alguns pretendem – Portugal não é comparável a qualquer dito “pequeno país” europeu, como a Eslovénia ou mesmo a Holanda, cujas publicações científicas têm um diminuto impacte se não forem vertidas em inglês, e cujas universidades procuram alargar a sua oferta de cursos em língua inglesa para atrair estudantes estrangeiros.

Na verdade, não falta irradiação internacional ao português e ao espanhol, mormente nos referidos domínios científicos. Essa irradiação de ambas as Línguas é inseparável da riqueza multifacetada das culturas de que são expressão e que as torna tão atrativas para estudiosos de todo o mundo. O intercâmbio universitário e científico no espaço lusófono e ibero-americano, bem como o número daqueles que aprendem português e/ou espanhol para aí estudar ou investigar, tem crescido enormemente.

Tal como nas universidades francesas ou alemãs, também nas universidades portuguesas e espanholas o ensino e a investigação nas respetivas Línguas nacionais não pode ser considerado um obstáculo à internacionalização. Antes pelo contrário: mergulhar numa cultura e comunicar cientificamente na sua Língua sempre fez parte dos processos de internacionalização na formação superior, a benefício de todos os interlocutores e do desenvolvimento científico. Tanto mais tratando-se de Línguas fortemente globalizadas.

Infelizmente, os instrumentos de bibliometria científica não refletem esse diálogo entre comunidades linguísticas, mas sim a hegemonia absoluta da língua inglesa. O modelo das ciências da natureza é generalizado acriticamente a todos os ramos da ciência. Para contrabalançar essa dupla hegemonia, impõe-se a criação urgente de instrumentos bibliométricos alternativos – de preferência, comuns às publicações em Línguas Portuguesa e espanhola.

Designadamente em Portugal, uma política científica com visão estratégica não pode deixar de considerar prioritária a valorização do português como Língua científica internacional. Surpreendentemente, porém, a FCT [Fundação para a Ciência e Tecnologia, de Portugal] descarta-o, e só considera de impacte “internacional” o que não é publicado em português. Como se se quisesse aplicar a Portugal o regime da Eslovénia ou da Finlândia, onde todos têm de usar o inglês para ser lidos e citados além-fronteiras…  :::

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CARVALHO, Mário Vieira de. Língua Portuguesa e ciência.
Extraído do jornal Público – seção Opinião.
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 29 dez. 2013.

 

Uma resposta to “Língua Portuguesa e ciência – Mário Vieira de Carvalho”

  1.                     Pelo menos na área das Geociências, também chamadas Ciências da Terra (Earth Sciences/Sciences de la Terre), acho muito difícil, pelo menos no Brasil – “pelo andar” atual, aqui, “da carruagem” -, haver uma reversão da situação atual do Inglês, no sentido de voltar ele a ser tão somente uma língua de ciência das mais importantes, ou mesmo a mais importante, perdendo uma condição que detém hoje de praticamente absoluta hegemonia. Abrs, P. Kaul

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