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Nelson Mandela, um líder da Boa Esperança

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 15 de Dezembro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , ,

Baseado em dados do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, das Agências Lusa e AngolaPress e do Observatório da Língua Portuguesa

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Nelson Mandela (1918-2013), o líder que criou uma África do Sul livre e moderna.

Nelson Mandela (1918-2013) foi um símbolo de luta e de transformação; um líder que fez a África do Sul livre e moderna, de uma ditadura racista para uma democracia multirracial.

O grande líder faleceu na quinta-feira, dia 4 de dezembro, aos 95 anos em Joanesburgo. Mandela construiu um dos mais belos capítulos da história do século XX ao se tornar o primeiro presidente eleito democraticamente na África do Sul.

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–– De prisioneiro político do racismo a presidente eleito pelo povo ––
Nascido no interior da atual província do Cabo Oriental, de uma família sul-africana nobre da etnia xosa, Mandela estudou Direito em Joanesburgo, onde envolveu-se com a questão anticolonial. Uma vez formado advogado, associou-se ao Congresso Nacional Africano (CNA), a principal organização que lutava pelos direitos dos povos negros no país, e rapidamente ascendeu na hierarquia do grupo.

Em 1948, o governo liderado pelo Partido Nacional – legenda formada pelos africâneres, os brancos descendentes de holandeses e alemães – começou a estabelecer a política do apartheid (“separação” em língua africâner), em que os povos negros foram segregados e listados como uma subclasse. O primeiro local a implementar a política segregacionista foi o bairro de Soweto, criado pelo regime para deslocar compulsoriamente as populações negras da região de Joanesburgo.

O regime tornou a militância de Mandela mais ativa e o advogado promoveu uma campanha inicial de resistência pacífica, mas que evoluiu para pequenos atentados de sabotagem contra o governo, estando à frente da “Lança da Nação”, o braço armado do CNA. Perseguido, passou dois anos na clandestinidade até ser capturado e passar 27 anos preso.

Mandela continuou na prisão até que a campanha do CNA e a pressão da comunidade internacional conseguiram que ele fosse libertado em 11 de fevereiro de 1990, aos 72 anos, por ordem do então presidente Frederik Willem de Klerk.

Nelson Mandela discursa à multidão em Soweto após ser libertado da prisão em 1990: um herói da unidade dos povos da África do Sul.
 

Em 1994, nas primeiras eleições livres no país, Mandela derrotou De Klerk por uma larga margem e foi eleito o primeiro presidente negro da história da África do Sul. Governou o país até 1999 e não quis concorrer à reeleição no cargo, dedicando-se a partir daí às causas humanitárias. Foi laureado em 1993 com o Prémio Nobel da Paz juntamente com Frederik de Klerk.

Nelson Mandela permaneceu casado com a ativista política Winnie Mandela entre 1958 e 1996. Ela acompanhou Mandela durante todo o período da prisão até a transição democrática do país, sendo primeira-dama por apenas dois anos. O então presidente separou-se em 1998, casando-se em seguida com Graça Machel, que fora viúva de Samora Machel (1933-1986) e primeira-dama de Moçambique entre 1975 e 1986. Graça Machel, atual viúva de dois importantes chefes de Governo da África, foi também primeira-dama da África do Sul por onze meses, entre julho de 1998 e junho de 1999.

Winnie Mandela e Graça Machel na cerimónia fúnebre em honras a Nelson Mandela em Joanesburgo em dezembro de 2013.
 

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–– Laços de Mandela com a África lusófona ––

José Eduardo dos Santos recebeu Mandela em visita oficial a Angola em 1998.

A partir da liderança de Nelson Mandela, o CNA interagiu com diversos movimentos de libertação da África, entre os quais o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Estes movimentos passaram a atuar, muitas vezes pela luta armada, em defesa da liberdade dos povos naturais da África contra adversários em comum: o governo racista sul-africano do apartheid e o regime colonial do salazarismo português.

Mandela sempre foi grato ao apoio dado pelo MPLA à causa contra o apartheid e as políticas de segregação racial contra os povos da África do Sul. O regime racista entrou em franco declínio com a derrota militar das tropas sul-africanas e da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) perante as forças do MPLA, ocorrida na batalha de Cuito Cuanavale, travada no sudeste de Angola em março de 1988.

Como presidente da África do Sul, Nelson Mandela patrocinou os Acordos de Lusaka, iniciados em 1994, a conclamar o MPLA e a UNITA para que pusessem fim à longa guerra civil de Angola. O grande líder sul-africano, que promoveu uma integração pacífica das etnias de seu país, interveio para cessar as hostilidades em Angola, até o fim da guerra civil em 2002.

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–– Mandela e Neville Alexander, pioneiro da linguística sul-africana ––

Neville Alexander (1936-2012), companheiro de prisão de Mandela, foi pioneiro da linguística na África do Sul.

Durante o cárcere, na ilha de Robben, situada ao norte da Cidade do Cabo, Mandela teve como companheiro de prisão Neville Alexander (1936-2012), linguista renomado e que, em comum, era natural do Cabo Oriental e havia lutado contra o apartheid.

Logo após ser cofundador da Frente de Libertação Nacional, foi detido em julho de 1963 e passou dez anos preso. Na “menor universidade do mundo”, como ficou conhecida a caverna que existia dentro da prisão, Alexander dava aulas de história a outros detentos e Mandela ensinava direito.

Libertado da prisão em 1974, Neville Alexander, especialista em língua e cultura alemã, participou do Movimento da Consciência Negra de Steve Biko (que homenageia outro importante líder da etnia xosa e contrário ao apartheid, preso e torturado até a morte em 1977).

Com a sua atividade pioneira de estudos académicos da diversidade linguística no país, trabalhou como diretor de projetos de linguística na Universidade da Cidade do Cabo e atuou em defesa do multilinguismo na África do Sul – graças a seu trabalho, o país hoje tem 11 línguas oficiais. Neville Alexander faleceu em agosto de 2012, aos 75 anos.

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Cerca de 90 mil pessoas compareceram à cerimónia fúnebre a Nelson Mandela no estádio de Soweto, em Joanesburgo, em 10 de dezembro de 2013.
 

–– A perda de um ícone para o mundo ––
“Trago aqui o sentimento de profundo pesar do governo e do povo brasileiro”, disse a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que homenageou Nelson Mandela em cerimónia fúnebre pública realizada em 10 de dezembro de 2013.

“A nação brasileira, que traz com orgulho o sangue africano nas veias, chora e celebra o exemplo do líder que faz parte do panteão da humanidade”, declarou a governante brasileira.

“Esse grande líder teve os olhos postos no futuro do seu país, do seu povo e de toda a África e inspirou a luta no Brasil e na América do Sul”, disse Dilma Rousseff, no seu discurso durante as cerimónias fúnebres com a presença de 90 mil pessoas, ocorridas no Estádio Cidade do Futebol (Soccer City), na emblemática Soweto, em Joanesburgo.

“O combate de Mandela e do povo sul-africano transformou-se num paradigma, não só para o continente, mas para todos os povos que lutam pela justiça, a liberdade e a igualdade”, afirmou a presidente do Brasil.

O falecimento de Nelson Mandela foi muito lamentado entre a população de Angola. O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, líder histórico do MPLA, foi fortemente criticado por não ter decretado luto nacional e por não ter pronunciado em memória de Mandela.

O Conselho de Ministros de Moçambique declarou luto nacional de seis dias. “Com o desaparecimento físico do presidente Mandela, África e o mundo perdem um ícone, um homem de coragem, determinação e perseverança na luta pela transformação de ideais nobres em realidade, cujos exemplos e ensinamentos são seguidos pelas gerações atuais e perdurarão para as gerações vindouras”, diz o comunicado do governo moçambicano.

Nelson Mandela – ou “Tata Madiba”, como carinhosamente é chamado pelo povo da África do Sul – um líder do século XX que inspirou a humanidade em sua luta em prol do fim dos preconceitos, recebe agora a reverência plena e merecida, que vai além dos limites do país do Cabo da Boa Esperança, alcança a Lusofonia e chega a milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo tocadas por seu exemplo de luta, de resistência, de boa esperança.  :::

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–– Com dados do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, das Agências Lusa e AngolaPress e do Observatório da Língua Portuguesa ––

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“Se você conversar com um homem em uma língua que ele compreenda, a mensagem chega-lhe à cabeça. Se você conversar com ele na própria língua dele, ela chega-lhe ao coração.”
––– Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul (1918-2013) –––

Uma resposta to “Nelson Mandela, um líder da Boa Esperança”

  1. A inesquecível frase citada por Mandela, deixa o grande testemunha que a língua une os povos que a falam, e que aos longos dos séculos não perdem os afetos, pilares de um mundo mais fraterno.

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