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O “sonho norte-americano” na imprensa de Língua Portuguesa dos EUA

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 8 de Dezembro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , ,

 

Jornal A Voz Portugueza, de São Francisco, Califórnia, de 1887: a imprensa portuguesa dos EUA começou a circular em meados do século XIX.
 

Ventos da Lusofonia reproduz a seguir uma reportagem do jornal norte-americano The Herald News, com notícias em inglês sobre a comunidade lusófona do Estado de Massachusetts.

A matéria trata sobre um pedaço da história da imprensa escrita em Língua Portuguesa nos Estados Unidos da América. Sobre a presença na América do Norte de jornais escritos na Língua “filha ilustre do Latim”, praticamente desde o início das correntes migratórias portuguesas de meados do século XIX.

Os próprios jornais em si ajudam a contar um pouco da história da comunidade luso-americana, seus sonhos, suas atividades e suas influências políticas e sociais entre a população norte-americana.

E há um campo vasto para estudos, levando-se em conta que existiram quase mil jornais nos Estados Unidos publicados em Língua Portuguesa – uma história ainda a ser estudada e a ser conhecida a fundo.

A seguir, a reportagem assinada por Kevin Andrade sobre a imprensa luso-americana, publicada no jornal The Herald News, do nordeste dos EUA.

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–– Notícias em português do sonho norte-americano ––

Kevin Andrade
do jornal The Herald News (Fall River, EUA)
29 de novembro de 2013

Jornal semanário O Lavrador Portuguez, da Califórnia, de 1912: jornais mostram a história e os “sonhos criados por cada fundador da comunidade” luso-americana.
 

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Dartmouth — A imprensa de Língua Portuguesa nos Estados Unidos tem uma história longa e ativa desde o seu início em 1870. E tem sido um tema de fascínio para Alberto Pena Rodriguez há anos.

O espanhol Alberto Pena Rodriguez é professor catedrático de Estudos Portugueses da Universidade de Massachusetts em Dartmouth.

“Nunca se sabe realmente por que eles fazem o que fazem”, disse ele durante uma entrevista em espanhol antes de sua apresentação na frente de um público de 30 pessoas nos Arquivos Luso-Americanos Ferreira-Mendes no câmpus da Universidade de Massachusetts em Dartmouth na última segunda-feira [25 de novembro].

Alberto Pena Rodriguez, antigo reitor da Universidade de Vigo, Espanha, é também um ex-jornalista e diz que sempre sentiu uma afinidade com o jornalismo.

“Eu trabalho com a imprensa mais do que com qualquer coisa”, disse ele. “O jornalismo te permite estar conectado a tudo o que está a acontecer em teu redor.”

–– O sonho norte-americano em Língua Portuguesa ––
Durante sua apresentação, feita em Língua Portuguesa, Alberto Pena Rodriguez disse que ficou interessado em averiguar quantos órgãos de comunicação de Língua Portuguesa existiram nos EUA, bem como em ver o quanto eles realmente exerciam de influência e qual tem sido a sua finalidade.

O que ele encontrou foi uma história que apresenta o “sonho norte-americano” tal como era para tantos de outrora.

“A imprensa em português dos EUA é uma fonte única”, disse ele. “Nela você pode encontrar a história da imigração para os Estados Unidos. […] Eles fazem parte dos sonhos criados por cada fundador da comunidade.”

Em muitos aspectos, a história da comunidade luso-americana nos jornais espelha as maiores tendências da imigração. De acordo com estudos realizados por Robert Park, citado por Alberto Pena Rodriguez, entre 1865 e 1890 – com 10 milhões de imigrantes que entram no país –, havia 796 jornais “étnicos”, dos quais três ou quatro eram portugueses. Esse número saltou até chegar a 960 em 1975.

O primeiro desses jornais portugueses foi publicado em Erie, no Estado da Pensilvânia. O Jornal de Notícias foi criado em 1870 e a sua veiculação durou até 1884.

De acordo com Rodriguez, as missões destes jornais eram variadas. Alguns deles foram feitos para manter uma ligação entre a comunidade e as suas origens e ao mesmo tempo forjavam uma nova identidade em um novo ambiente. Havia também considerações sobre o poder político, sobre a visibilidade da comunidade, para informar aos leitores sobre as atividades em seus arredores, e também apenas para ter um negócio rentável.

Jornal O Portugal, do Estado da Califórnia, de 1933: jornais também adotavam atuação política e posicionavam-se como “agentes de mudança social”.
 

–– Cunho político na imprensa em português dos EUA ––
Mas houve também uma forte tradição social e política no seio da comunidade dos jornalistas luso-americanos.

“Eles são agentes de mudança social”, disse ele. “Cada um deles tinha uma certa dignidade e via-se como uma oportunidade para demonstrar o poder da comunidade.”

Rodriguez demonstrou isso com exemplos, como uma foto de John F. Kennedy em visita ao editor de um jornal português influente no Estado da Califórnia durante a eleição presidencial de 1960.

Ele também assinalou que os jornais nos Estados Unidos tornaram-se um centro tanto de resistência como de apoio ao regime do Estado Novo, a ditadura estabelecida por António de Oliveira Salazar, em 1932.

Uma dessas aventuras foi um jornal bilingue em espanhol e português publicado no Estado da Califórnia, chamado La Voz. O jornal era, na verdade, uma colaboração entre os opositores do regime português de Salazar exilados na Califórnia e os exilados republicanos espanhóis da ditadura de Francisco Franco.

Alberto Pena Rodriguez também usou a publicidade paga nos órgãos de notícias para examinar o desenvolvimento da comunidade e os sonhos de seus residentes além daqueles dos editores.

“Através disto, podemos ver os sonhos de tantos imigrantes”, disse ele.

Hoje existem seis órgãos de informação portugueses nos Estados Unidos, incluindo O Jornal [do mesmo grupo de The Herald News, do Estado de Massachusetts].

No entanto, Alberto Pena Rodriguez fez questão de dizer que há muito mais pesquisas sobre o tema a serem feitas.

“Esta não é ‘a’ história; esta é ‘uma’ história da imprensa portuguesa nos Estados Unidos”, disse ele.  :::

(Tradução de Ronaldo Santos Soares)

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ANDRADE, Kevin. Portuguese news on the American dream.
Extraído do jornal The Herald News – Fall River, Massachusetts, EUA.
Publicado em: 29 nov. 2013.

Uma resposta to “O “sonho norte-americano” na imprensa de Língua Portuguesa dos EUA”

  1. Tanto para investigar sobre o mundo lusofono. Secular e esquecido por distração. Adormecidos vamos acordando de um sono que dura tempo demais.
    Muito se perdeu mas muito se pode fazer se a vontade for coletiva.
    Bem hajam as comunidades lusofonas que espalharam os afetos em todos os continentes ainda que distantes.

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