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Língua Portuguesa, Língua de ciência – Ivo Castro

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 26 de Outubro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , , , , , ,

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O professor Ivo Castro, da Universidade de Lisboa: “O inglês não é a única Língua das ciências; elas também falam português”.

Ventos da Lusofonia reproduz o texto elaborado pelo professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Ivo Castro, que é também o presidente da Comissão Científica do segmento que abrirá neste dia 29 de outubro, a II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial.

O texto de Ivo Castro reflete sobre a relevância da Língua Portuguesa como Língua para a comunicação da ciência e das áreas tecnológicas – principal tema do encontro de eminentes académicos que se reunirão no evento em Lisboa.

Com o título Língua portuguesa, Língua de ciência, o texto do professor Ivo Castro foi originalmente publicado no Encarte Camões, na edição do Jornal de Letras, da Universidade de Lisboa, veiculada em 16 de outubro de 2013. O texto na íntegra está também no sítio do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua.

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–– Língua Portuguesa, Língua de ciência ––

Ivo Castro
Faculdade de Letras
Universidade de Lisboa
28 de setembro de 2013

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A II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial retoma os grandes temas que ocuparam a I Conferência, realizada em Brasília em 2010, para avaliar os progressos alcançados e o que falta fazer em relação a cada um. São esses temas a implantação do Português nas organizações internacionais; a promoção do ensino da Língua; a entrada em vigor do Acordo Ortográfico; e, de modo mais geral, a difusão da Língua Portuguesa à escala mundial, com relevo para as numerosas comunidades emigrantes que formam a diáspora do Português em ambientes aloglotas.

A estes temas, de evidente importância e complexidade, foi este ano adicionado um outro, específico da II Conferência: a promoção do Português como Língua da ciência e da inovação.

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A II Conferência não vai contra essas evidências, nem as ignora. Mas chama simplesmente a atenção para que o inglês não é, nem deve ser visto, como a única língua de ciência: outras grandes Línguas de cultura, entre elas o Português, possuem longas literaturas científicas que, em certos domínios, constituem incontornável referência internacional e não poderiam ser substituídas por traduções sem perda de rigor, de significação e de capacidade criativa.

No caso da Língua Portuguesa, facilmente se reconhece o papel instrumental que tem desempenhado, historicamente e na mais recente atualidade, no desenvolvimento de domínios científicos como a medicina tropical, a geografia humana e a antropologia, as ciências da terra, os sectores energéticos e outras atividades económicas, de modo semelhante alimentadas por contactos triangulares no Atlântico Sul; a literatura pertinente nesses domínios científicos continua a só ter vantagens em ser veiculada em Português.

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Há que ter em mente que não é só no mundo em que a língua inglesa é dominante que se passam as coisas; também há, entre os outros, um mundo emergente de países que comunicam em Português e que não devem precisar de outra língua para as trocas de conhecimento que entre si efetuam.

Internacionalização não é sinónimo de exportação para o mundo anglo-saxónico. Além do muito que se pode fazer pelo reconhecimento internacional da Língua Portuguesa sem sair dos países lusofalantes, a intercomunicação entre os respectivos agentes culturais e produtores científicos e industriais contém um genuíno elemento internacionalizante.

E contém dificuldades de funcionamento que são superáveis, se forem reconhecidas. Nem tudo foi feito ainda, pelos países que falam Português, para apresentarem uma face de unidade linguística frente ao resto do mundo: por exemplo, são possíveis aperfeiçoamentos onde os ensinantes de Português como Língua Estrangeira competem, em vez de coincidirem; por exemplo, é possível, havendo desejo disso, criar mecanismos estáveis de harmonização terminológica, que evitem uma deriva há muito diagnosticada: um confronto realizado entre cerca de mil termos de informática correntes no Brasil e outros tantos correntes em Portugal revelou coincidência em pouco mais de 200 termos. Como este confronto foi realizado há mais de uma década, pode recear-se que a dispersão terminológica seja hoje ainda mais acentuada entre os dois países, em domínios de ponta.

Finalmente, nenhuma língua é suporte neutro para os produtos culturais que nela são criados. Ao escolher a língua em que escrevemos, estamos também a escolher uma literatura científica em que desejamos ser acolhidos, os autores que preferimos, as terminologias e estilos de exposição nela consagrados e que adotamos. Se escolhemos escrever ciência em inglês, difícil se torna não adotarmos também programas de pesquisa próprios dessa língua e, com eles, importarmos como centrais à nossa atividade preocupações que nasceram em quadros culturais onde prevalecem relações que não são as nossas.  :::

:::  Ivo Castro  :::

28 de setembro de 2013

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CASTRO, Ivo. Língua Portuguesa, Língua de ciência.
Do Jornal de Letras, ano 33, n. 1.123
Encarte Camões, n. 196
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Lisboa, Portugal.
Publicado em: 16 out. 2013.

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–– Extraído do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua ––

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II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial
Língua Portuguesa Global – Internacionalização, Ciência e Inovação
29 e 30 de outubro de 2013
Universidade de Lisboa
Lisboa – Portugal
<http://www.conferencialp.org/>

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Leia também:
O Acordo Ortográfico para integrar o mundo de Língua Portuguesa – 23 de dezembro de 2012
Os desafios da Língua Portuguesa na Era Digital – 20 de novembro de 2012
“Língua Portuguesa pode perder-se na era digital”, alerta cientista da Universidade de Lisboa – 16 de novembro de 2012

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