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Direitos linguísticos, as línguas indígenas e a literatura brasileira – Marco Lucchesi

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 17 de Outubro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , ,

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O escritor e professor Marco Lucchesi é membro da Academia Brasileira de Letras.

Ventos da Lusofonia transcreve o artigo assinado pelo escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marco Lucchesi, membro da Academia Brasileira de Letras.

Nele, o autor faz uma defesa do multilinguismo na América Latina, e percebe-se maior atenção quanto ao estado das línguas ameríndias, das centenas de línguas locais faladas nesta parte do continente americano, onde predominam a língua espanhola e a Língua Portuguesa.

O escritor – em um discurso poético e mais voltado para o uso artístico e literário da Língua – evoca a questão linguística latino-americana para “um ponto de partida multilíngue, que se incline para a cultura do encontro e da hospitalidade dos povos indígenas”. O foco linguístico e da poesia, segundo Lucchesi, está em “delinear o trânsito cultural da América Latina”. O autor, inclusive, compara a defesa das línguas indígenas com a demarcação dos territórios dos povos indígenas do Brasil.

O artigo de Marco Lucchesi foi originalmente publicado no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, na edição de 25 de setembro de 2013.

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–– Direitos linguísticos ––

Marco Lucchesi
do jornal O Globo (Rio de Janeiro, Brasil)
25 de setembro de 2013


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A agenda intercultural da América Latina deve se orientar para um conhecimento maior das línguas de nosso continente. Não como favor, mas como demanda que promova uma democracia consistente, uma democracia coral, de timbres variados, de que todos façam parte.

Um ponto de partida multilíngue, que se incline para a cultura do encontro e da hospitalidade dos povos indígenas. Se no Brasil, não há latim nas escolas, tampouco se aprofundam rudimentos de tupi antigo. Penso em Lima Barreto –(1)– e no quanto seria importante não nos esquecermos de que se praticam pouco menos de trezentas línguas hoje em nosso país.

Urge delinear o trânsito cultural da América Latina, quais seus interlocutores realmente comprometidos com projetos multilaterais, que não se resumam a circuitos sem emoção, sem contraste, meramente econômicos e, portanto, voláteis, em nuvens de capital, erráticos e velozes.

Deve-se condenar com firmeza a hegemonia linguística, que impede a integração das línguas, valendo-se de uma gramática única, desligada da beleza do encontro, que demoniza as línguas nativas e seu território, sobretudo este, como faz a bancada ruralista e seus aliados no Congresso –(2)–, para quem os índios dispõem de terra excessiva, em detrimento do cultivo da soja, que seria, esta sim, a única commodity –(3)– capaz de salvar a economia brasileira. Cada coisa em seu lugar, alguém chegou a dizer, com a seguinte frase lamentável “a soja na terra e o índio no museu”.

Eis por que a demarcação precisa ser imediata, e que não falte coragem ao poder executivo e sensibilidade, mínima que seja, por parte do judiciário. Não há outra forma para a equação do patrimônio imaterial da língua com o capital simbólico da terra, tão imbricadas se mostram, dentro de uma cultura da hospitalidade, que é a única que o Congresso tem obrigação de implementar.

Alguns livros recentes me parecem essenciais, na defesa de nossas línguas, como Rio Babel, de José Ribamar Bessa e a antologia da poesia brasileira, organizada por Sergio Cohn, Poesia.br, com um volume dedicado aos cantos ameríndios.

Esse me parece um indício crucial de um processo de mudança na renovação dos currículos nas escolas, incluindo-se um conjunto de disciplinas breve e compacto. Não mais “o milagre de uma língua única”, mas o de sua multiplicação, em todos os rincões do Brasil, que precisa desconstruir, nos livros didáticos, a ideia aparente de uma torre de Babel.

É preciso descer as escadas da torre, no corpo sinuoso de nossa Língua Portuguesa, que olha escandalosamente para o futuro.

A poeta paraguaia Susy Delgado publicou Caminho do Órfão, em guarani e espanhol, onde se integram e misturam ambas as línguas, como se mandasse um aviso: “outras formas deste caminho interminável, que cada dia mais se parece a uma Babel desértica.”  :::

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–– Notas: ––
–(1)–  Lima Barreto (1881-1922), jornalista e escritor, cujo estilo de compor romances e de registrar o discurso de seus personagens antecedeu as tendências da moderna literatura brasileira, em uma fase conhecida no Brasil como Pré-Modernismo, das obras literárias das duas primeiras décadas do século XX.

Foi o autor do romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), no qual o personagem-título – um nacionalista fanático e idealista, porém, muito alheio à realidade dos costumes políticos do país – chegou a endereçar petição ao Congresso Nacional, propondo o tupi-guarani como língua nacional do Brasil.

–(2)–  O Congresso Nacional é o Parlamento brasileiro, dividido em duas casas legislativas: o Senado Federal, composto por 81 senadores que representam os Estados brasileiros, e a Câmara dos Deputados, composta por 513 deputados federais que representam proporcionalmente a população dos Estados.

–(3)–  Commodity – nome em inglês para “matéria-prima comercializável” ou “produto de base”, geralmente um produto primário, vindo da agricultura, da pecuária e do extrativismo vegetal e mineral. Por exemplo: soja, trigo, algodão, café, suco de laranja; carne bovina, carne suína; ouro, carvão mineral, cobre, minério de ferro, petróleo e prata, entre outros.  :::

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LUCCHESI, Marco. Direitos linguísticos.
Extraído do jornal O Globo – Rio de Janeiro, Brasil
Publicado em: 23 set. 2013.
Extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras.

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Leia também:
Uma em cada quatro línguas indígenas do Brasil corre risco de desaparecer, diz estudo – 16 de outubro de 2013

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