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Uma em cada quatro línguas indígenas do Brasil corre risco de desaparecer, diz estudo

In Lusofonia e Diversidade,O Mundo de Língua Portuguesa on 16 de Outubro de 2013 por ronsoar Tagged: , , , , ,

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A defesa da diversidade linguística é princípio essencial do multilinguismo e da preservação da diversidade cultural no mundo.

Centenas de línguas são faladas no Brasil ao lado da Língua Portuguesa – o maior número delas consiste nas línguas dos povos ameríndios, naturais do país sul-americano. Mas muitas destas línguas no Brasil estão ameaçadas por contarem com muito reduzido número de falantes, o que dificulta a sua transmissão para as próximas gerações, além de não terem registro escrito ou oral da estrutura desses idiomas e dialetos.

O risco de desaparição das línguas dos povos indígenas brasileiros foi apontado na mais recente edição do Atlas das Línguas em Perigo no Mundo, da UNESCO, e também em um estudo do Museu Paraense Emilio Goeldi, de Belém, Estado do Pará.

Com isso, há a necessidade de se promover uma política de defesa do multilinguismo, visando as línguas ameaçadas de presença tradicional no Brasil. Tal medida entra em consonância com a defesa do multilinguismo no mundo e da presença da Língua Portuguesa nas instâncias internacionais.

Ventos da Lusofonia reproduz reportagem que revela esta preocupação de evitar o desaparecimento das línguas indígenas e tradicionais ameaçadas no Brasil, e que traz uma curta entrevista sobre o assunto com o diretor-executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), Gilvan Müller de Oliveira.

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–– Uma em cada quatro línguas indígenas do Brasil
corre risco de desaparecer, diz estudo ––

Maíra Kubik Mano, de Paris
Da revista eletrônica Opera Mundi (Brasil)
13 de outubro de 2013

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:::  Além disso, UNESCO também classifica 97 línguas indígenas como vulneráveis e 45 em situação de extremo perigo  :::

Uma escola indígena no interior do Estado do Amazonas: 45 línguas indígenas brasileiras estão em “extremo perigo” de desaparecer, de acordo com a UNESCO.
 

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Enquanto o português se expande, outros idiomas estão seriamente ameaçados de extinção no Brasil. Pelo menos um quarto das mais de 150 línguas indígenas do país corre o risco de desaparecer, segundo um estudo divulgado esse ano pelo Museu Paraense Emilio Goeldi.

Outro projeto de pesquisa, o Atlas das Línguas Ameaçadas, da UNESCO –(1)–, classifica, no Brasil, 97 línguas indígenas como vulneráveis, 17 em perigo, 19 seriamente em perigo e 45 em extremo perigo.

Os kanoê são um exemplo desta última situação: são apenas três falantes e estão na terra indígena Omere, em Corumbiara [Estado do Pará]. Em outros casos, como o dos xipaia, o grupo é maior, mas somente dois idosos são fluentes na língua. O restante foi alfabetizado em português.

Assim como a Língua Portuguesa deve garantir presença no mundo em defesa do multilinguismo, as diversas línguas locais faladas no mundo lusófono devem também ser protegidas para que não desapareçam.

–– Nacionalismo linguístico ––
Das 6.500 línguas do mundo, calcula-se que metade estará extinta no final do século. “Temos um processo positivo em curso, de crescimento de muitas línguas, como o mandarim, o português, o russo, e temos também um decréscimo de muitas línguas. A estrutura continua sendo desigual”, aponta Gilvan Müller de Oliveira, diretor-executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

“As línguas realmente minorizadas, as línguas indígenas ou de minorias de países, continuam no mesmo grau de ameaça que na estrutura anterior dos Estados-nação. Temos hoje a extinção de uma língua a cada dois meses”, completa Oliveira.

Durante o século XX, segundo o professor, prevaleceu o pensamento de que cada Estado-nação deveria ter uma só língua, mesmo que isso significasse enfiar o idioma nacional goela abaixo dos seus cidadãos. Inspirado no modelo francês, que reprimiu a pluralidade linguística em seu território, o Brasil teve muitas línguas que foram perseguidas, e não apenas as indígenas –(2)–.

“O momento mais específico dessa repressão ocorreu no Estado Novo de Getúlio Vargas –(3)–, num movimento político que se chamou ‘Processo de Nacionalização do Ensino’, quando as escolas em outras línguas foram fechadas, os materiais didáticos proibidos e os professores, despedidos.”

“O Brasil reprimiu e conseguiu, com sucesso, eliminar grande parte dos falantes de alemão, italiano, japonês, árabe, russo, polonês, ucraniano. Mesmo o espanhol, que foi corrente no Rio Grande do Sul no final do século XIX e começo do século XX, foi eliminado. E agora precisamos investir de novo na diversidade linguística para catapultar o país para um novo patamar de inserção internacional”, comenta –(4)–.

Para ele, a dificuldade em encontrar pessoas fluentes em outras línguas prejudica, por exemplo, o programa Ciência Sem Fronteiras –(5)–, do governo federal [do Brasil].

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–– Notas: ––
–(1)–  UNESCO é a sigla, em inglês, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Fundada em novembro de 1945, a UNESCO reúne 195 Estados membros e tem sede em Paris, França.

O Atlas das Línguas do Mundo em Perigo da UNESCO, cuja primeira edição foi lançada em 1996: alerta em nome da diversidade linguística mundial.
 

O Atlas das Línguas Ameaçadas – ou o Atlas das Línguas em Perigo no Mundo, da UNESCO – alerta sobre as línguas em risco de desaparecer e a necessidade de proteger a diversidade linguística mundial. A primeira edição impressa do Atlas foi lançada em 1996, e a versão em linha na Internet foi lançada em 2009. Tanto em papel quanto no meio digital, o Atlas está publicado em francês, espanhol e inglês.

Clique aqui para consultar a versão em linha do Atlas das Línguas em Perigo no Mundo, da UNESCO (em espanhol).

–(2)–  Por muito tempo na França, a partir da criação da Academia Francesa e com o objetivo de garantir a unidade territorial do país, vigorou a ideia de nacionalismo linguístico, estabelecendo-se o ensino exclusivo da língua francesa em todo o território francês, em detrimento das línguas regionais.

Porém, apenas nas últimas três décadas, desenvolveu-se um processo de reconhecimento da importância das línguas regionais faladas no país – como o bretão, o basco, o alsaciano, o occitano e o catalão –, como uma forma de defender o multilinguismo não apenas no mundo como também na própria França, inclusive permitindo-se que sejam utilizadas no ensino em âmbito regional ao lado do francês.

Em 1989, o governo francês fundou a Delegação-Geral para a Língua Francesa e as Línguas da França, com o fim de coordenar a política linguística da França. Sua meta original era de garantir a presença da língua francesa para as ciências e as instâncias internacionais. A partir de 2001, passou também a ser responsável pela defesa e promoção das línguas das regiões francesas.

–(3)–  O Estado Novo, no Brasil, é o nome pelo qual foi conhecido o regime ditatorial de cunho nacionalista implantado pelo então presidente da República, Getúlio Vargas, que vigorou de 1937 a 1945, ano em que foi deposto por um movimento militar.

–(4)–  Em 2010, o governo brasileiro instituiu, mediante decreto presidencial, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística, para estudar e mapear no território do país as línguas faladas pelos povos ameríndios e pelas comunidades imigrantes, visando a valorização do multilinguismo no Brasil e a preservação das línguas minoritárias, para dar-lhes o título de “Referência Cultural Brasileira”. O mapa linguístico do Brasil será lançado pelo Ministério da Cultura.

A iniciativa brasileira segue a atual experiência francesa. Pode-se não apenas garantir a primazia da Língua Portuguesa no país sul-americano, mas também preservar e promover estes grupos de línguas no Brasil: as línguas indígenas; as línguas de comunidades autóctones remanescentes; as línguas de sinais; e as línguas de comunidades imigrantes – de preferência, as que não tenham sido adotadas por nenhum país como línguas oficiais.

–(5)–  O programa Ciência Sem Fronteiras foi lançado pelo Governo brasileiro em julho de 2011, com o objetivo de conceder bolsas de estudos para alunos do ensino superior, de graduação e de pós-graduação, para intercâmbio em universidades no estrangeiro.

O programa também visa trazer às universidades brasileiras investigadores de instituições do exterior, sobretudo para pesquisas nas áreas da ciência e das tecnologias de ponta.

O Ciência Sem Fronteiras – coordenado pelo Ministério da Educação e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, do Brasil – prevê a concessão de mais de 100 mil bolsas de estudo superior até 2015.  :::

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MANO, Maíra Kubik. Uma em cada quatro línguas indígenas do Brasil corre risco de desaparecer, diz estudo.
Da revista eletrônica Opera Mundi (Brasil).
Publicado em: 13 out. 2013.

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Leia também:
A Língua que somos: o Brasil do nheengatu e das línguas indígenas – José Ribamar Bessa Freire – 26 de agosto de 2013
Brasil tem 274 línguas indígenas, segundo o Censo – 04 de setembro de 2012