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O que o MEC não “encherga” – Arnaldo Niskier

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 19 de Junho de 2013 by ronsoar Tagged: , , ,

Arnaldo Niskier é ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Ventos da Lusofonia transcreve o artigo assinado pelo jornalista e escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras entre 1998 e 1999. Niskier também é acadêmico correspondente no Brasil da Academia de Ciências de Lisboa.

Nele, o autor criticou os rumos tomados pela correção das redações do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que está a cargo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), do Ministério da Educação do Brasil (MEC).

A correção das redações do ENEM é coordenada por professores doutores em Linguística da Universidade de Brasília (UnB).

A imprensa brasileira têm mostrado as falhas graves no processo de correção das redações do exame, que garante aos egressos do Ensino Médio o acesso às universidades federais. São exemplos disso uma redação repleta de erros ortográficos que obteve a nota máxima e outra redação com uma receita de macarrão instantâneo (ou Miojo, nome comercial como é chamado o produto no Brasil).

Tal facto “leva a crer que está certo o professor que, diante desse descalabro, achou que se deveria dar à OAB a correção das redações” – em uma referência ao Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, conhecido por seus elevados índices de reprovação –: “‘Pelo menos eles fazem a coisa com seriedade’.”

“O pior de tudo é que o aluno se torna a maior vítima desse lamentável processo. […] Vêm os inovadores e topam tudo pela mudança, provocando o caos no ensino”, declarou Arnaldo Niskier, que não deixa dúvidas aos estudantes: “O adequado é a norma culta, e ponto final.”

O artigo foi originalmente publicado no jornal Folha Dirigida, do Rio de Janeiro, na edição de 25 de maio de 2013.

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–– O que o MEC não “encherga” ––

Arnaldo Niskier
do jornal Folha Dirigida (Rio de Janeiro, Brasil)
25 de maio de 2013

Acreditamos piamente que os examinadores do ENEM, contratados pelo MEC para a correção das provas de Língua Portuguesa, saibam como são escritas as palavras “enxergar”, “razoável” e “trouxe”. Se deram 1.000 pontos, para provas consideradas perfeitas, com os candidatos utilizando as formas “enchergar”, “rasoavel” e “trousse”, como comprovou o jornal O Globo, é porque desprezaram a norma padrão ou culta, numa atitude francamente irresponsável. São linguistas da Universidade de Brasília que orientaram esse comportamento, com o beneplácito do INEP.

Parece que o ENEM sofre com alguma caveira de burro que o acompanha desde os primeiros exames. Isso pode ser consequência da guerra surda travada entre linguistas (em geral jovens) e gramáticos, que se digladiam para interpretar, cada um a seu modo, a melhor maneira de promover a integridade do nosso vernáculo.

O pior de tudo é que o aluno se torna a maior vítima desse lamentável processo. Os professores, em geral, seguem a orientação dos gramáticos e respeitam a norma padrão, expressa no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras. Vêm os inovadores e topam tudo pela mudança, provocando o caos no ensino. Cabe ao MEC uma palavra ponderada de orientação, mas este abre mão dos seus poderes e se deixa levar, como uma folha de papel ao vento, correndo de um lado para o outro.

A prova de que a correção é feita de modo superficial e rápido está no fato revelado de que um aluno inseriu, no meio da redação, uma explicação sobre como se prepara um Miojo, e ficou por isso mesmo. Ou seja, passou direto, sem que o examinador tenha percebido. Irresponsabilidade?

As explicações do INEP são risíveis diante de uma enxurrada de erros crassos de concordância verbal, acentuação e pontuação. Esses “desvios” não são considerados graves pelo MEC, o que nos leva a crer que está certo o professor que, diante desse descalabro, achou que se deveria dar à OAB a correção das redações. “Pelo menos eles fazem a coisa com seriedade”.

O Guia do Participante do ENEM, que foi alvo de muitas críticas, nos primeiros exames, prometeu um rigor extremo nas competências, mas não é o que ocorre na prática. A primeira das cinco competências é muito clara quando recomenda “demonstrar domínio da norma padrão da Língua escrita”. Se, na hora da correção, isso se afrouxa, é claro que se está indo por um caminho condenável.

Os que amam a Língua Portuguesa, sendo ou não especialistas, assistem a esse triste espetáculo e se perguntam se vale a pena lutar para que haja dois exames ao ano, como muitos pretendem. Estamos diante de uma questão de competência, pois recursos não faltam. Quem garante que a UnB está fazendo a seleção dos examinadores de forma isenta? De todo modo, o problema está posto e merece uma ampla discussão. Não se deve deixar os candidatos com esse tipo de perplexidade, sem saber o caminho a tomar. O adequado é a norma culta, e ponto final.  :::

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NISKIER, Arnaldo. O que o MEC não “encherga”.
Do jornal Folha Dirigida (Rio de Janeiro, Brasil)
Publicado em: 23 maio 2013.
Extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras.

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Leia também:
•  Brasil: ENEM exigirá domínio mais apurado da Língua Portuguesa – 04 de junho de 2013

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