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Uma língua de 15 mil anos: origem comum das línguas euro-asiáticas (e do português)?

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 15 de Maio de 2013 by ronsoar Tagged: , ,

Baseado em reportagens do The Guardian (Reino Unido), do The Week Magazine e do The Washington Post (EUA)
10 de maio de 2013

:::  Cientistas do Reino Unido divulgaram estudo sugerindo que uma língua pré-histórica falada há 15 mil anos foi a origem comum das línguas euro-asiáticas – e também do português.  :::

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Os estudiosos da origem das línguas já perceberam como facto a semelhança de diversas palavras de mesmo significado em vários idiomas. Um exemplo é “mãe” em português: –– torna-se mère em francês, madre em espanhol e em italiano, mother em inglês, Mutter em alemão, moeder em holandês, mater em latim, mat em russo, madar em farsi (ou persa), ma em hindi e matru em sânscrito.

E se dissermos que, com base nisso, essa palavra tinha uma forma comum usada há 150 séculos, na Pré-História, em uma língua remota que deu origem a todas essas que são faladas hoje por metade da população mundial, incluindo as línguas neolatinas?

Esse é o caminho defendido por um estudo realizado por uma equipa de linguistas britânicos e neozelandeses da Universidade de Reading, cidade situada no Vale do Tâmisa, a 50 quilómetros a oeste de Londres. O trabalho (aqui disponível em inglês) foi publicado no início de maio pela revista científica da Academia Nacional de Ciências dos EUA.

–– De volta à Torre de Babel ––

Uma equipa comandada pelo professor Mark Pagel realizou estudo sobre a presumida origem comum de pelo menos 700 línguas euro-asiáticas.

 

Essa equipa descobriu vestígios de que muitas das línguas faladas no mundo hoje – o que envolve, por baixo, cerca de 700 línguas de diversos ramos linguísticos modernos, a incluir, entre outros, idiomas tão diferentes entre si, como o português, o farsi (ou persa), o alemão, o hindi ou o russo – descendem de uma única língua ancestral pré-histórica, de cerca de 15 mil anos atrás.

“Todos na Eurásia podem traçar a sua ascendência linguística para um grupo ou grupos de pessoas que viveram cerca de 15 mil anos atrás, provavelmente no sul da Europa, quando houve o fim da última grande glaciação”, disse o biólogo Mark Pagel, especialista em Teoria da Evolução e em linguística histórica e professor da Universidade de Reading, em reportagem do jornal britânico The Guardian.

–– “Palavras ultraconservadas” por 15 mil anos ––
Como os investigadores chegaram a essa conclusão? Através da comparação de um pequeno conjunto de palavras em várias línguas bem diferentes entre si, mas que se assemelham umas às outras no som, no aspecto visual e no significado. Estes termos afins – como “mãe”, madre, materMutter, citadas no início deste artigo – são referidos como “cognatos”.

Seguindo o rasto dentre essas palavras cognatas, a equipa chegou a 23 “palavras ultraconservadas”, que praticamente não variaram com a passagem dos séculos e que, pelo menos, seriam muito próximas das palavras pertencentes a essa presumida língua pré-histórica. Estas palavras incluem “mãe”, “não”, “o que”, “homem”, “mão”, “puxar”, “fogo”, “dar”, “cinzas”, e várias outras que se acredita que sejam as mais usadas nessa língua antiga e em todas as centenas de outras que dela derivaram nos últimos 15 mil anos.

Na lista publicada nesse estudo das 23 palavras que mais têm semelhança nas línguas eurasiáticas estudadas, o pronome “tu” aparece no topo, seguida de “eu”, “não”, “o que”, “nós”, “dar” e “quem”.

–– Uma superfamília euro-asiática de línguas ––
Com esses dados, a equipa de linguistas desenhou uma árvore genealógica traçando estas “palavras ultraconservadas” em sete grandes ramos de famílias linguísticas, que abarcam línguas faladas hoje por cerca de metade da população mundial e que abrangem uma vasta área geográfica de onde elas surgiram na Europa e na Ásia: de um extremo, de Portugal, das Ilhas Britânicas e da Escandinávia, até o outro, na Índia e na Sibéria, alcançando a costa oeste do Mar do Japão e a região do Ártico.

Os investigadores defendem que essa língua original antiquíssima deu origem ao grande ramo de línguas indo-europeu, que reúne outras famílias de línguas que incluem:
– o latim e as neolatinas, como o português, o espanhol, o catalão, o francês, o italiano;
– as germânicas, como o inglês, o sueco, o dinamarques, o holandês e o alemão;
– as célticas, como o irlandês, o gaélico, o galês e o bretão;
– as eslavas, como o russo, o ucraniano, o polaco, o checo e o búlgaro; e
– as indo-sanscríticas, como o sânscrito, o hindi, o urdu, o punjabi e o bengali, entre outras.

E não só fez surgir as línguas indo-europeias como também a outros seis grandes grupos de famílias de línguas:
– o altaico, que abrange o turco, o usbeque e o mongol;
– o chukotko-kamchatkano, no extremo nordeste da Sibéria;
– o dravidiano, que deu origem às línguas do sul da Índia;
– o inuíte-yupik, da língua esquimó, do Ártico;
– o cartveliano, que deu origem ao georgiano, no Cáucaso; e
– o urálico, que inclui o finlandês, o húngaro, o careliano e algumas outras línguas do norte da Rússia.

–– Origem linguística comum: uma ideia ainda controversa ––
Infelizmente, diversas outras famílias linguísticas importantes estão ainda excluídas dessa origem comum de acordo com o estudo: faltou explicar a origem do chinês; do japonês; das línguas semíticas, como o fenício, o árabe e o hebraico; do berbere e do egípcio antigo; das centenas de línguas da África; e das centenas de línguas ameríndias.

O estudo britânico é controverso, pois é conhecido o facto de que as línguas e os vocábulos mudam com o tempo, seja no formato, seja no som: o português atual não é o mesmo que o português medieval ou que o latim que lhe deu origem. Estima-se que, de acordo com o que afirma esse mesmo estudo, ocorre uma troca ou mudança de cerca de metade do número de vocábulos de uma língua em um intervalo de cada 2 mil a 4 mil anos – o suficiente para a formação de novas línguas e dialetos. Por isso, há muitos linguistas que resistem à ideia de que uma palavra tenha o som e o significado inalterados por mais de 15 mil anos.

Essas “palavras ultraconservadas” não só ajudaram a levantar a hipótese de uma língua ancestral eurasiática – berço de centenas de outras línguas atuais em uso pelo mundo –, como deram uma grande pista sobre o que os povos que as falavam, ao longo dos tempos, consideraram de maior importância para a conservação de seus grupos sociais.

“Fiquei muito feliz mesmo por ver lá o verbo ‘dar'”, declarou Pagel, em entrevista ao jornal The Washington Post, dos EUA. “A sociedade humana é caracterizada por um grau de cooperação e de reciprocidade que simplesmente não se vê com nenhum outro animal. Os verbos tendem a mudar rapidamente, mas este aqui não!”  :::

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(Postado por Ronaldo Santos Soares.)
–– Baseado em reportagens do The Guardian (Reino Unido), do The Week Magazine e do The Washington Post (EUA). ––

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