Articles

Colômbia: achados de um falante do espanhol em um dicionário de Português

In Defesa da Língua Portuguesa, Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 29 de Abril de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Os presidentes de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, e da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o secretário de Estado da Cultura de Portugal, Jorge Barreto Xavier, inauguraram o Pavilhão de Portugal na Feira do Livro de Bogotá, em 17 de abril.
 

O jornal colombiano El Espectador publicou um artigo interessante sobre a 26ª. Feira Internacional do Livro de Bogotá (FILBo), que ocorre entre 17 de abril e 1 de maio e que pelo segundo ano seguido homenageia a literatura de Língua Portuguesa. Portugal é o país convidado de honra da grande feira literária da Colômbia, cujo tema é O Mar; o Brasil foi o país convidado no ano passado.

Mais propriamente, o artigo aborda sobre as diferenças e as semelhanças entre duas línguas muito próximas entre si: as duas grandes línguas ibéricas, a de Luís de Camões e de José Saramago e a de Miguel de Cervantes e de Gabriel García Márquez. Abaixo, um pouco da impressão de um falante da língua espanhola sobre as palavras da Língua Portuguesa.  :::

.
*              *              *

–– Os achados em um dicionário de Português ––

Juan Villamil
Do jornal El Espectador (Bogotá, Colômbia)
24 de abril de 2013

–– Idioma próximo do espanhol? ––
:::  Agora que Portugal é o convidado de honra da Feira do Livro de Bogotá, é bom perguntarmos sobre a importância da Língua de Camões, Pessoa e Saramago.  :::

.
Um brasileiro diverte-se ao contar, quase ao pé da letra, cada uma das variações que pôde provar – sem sorte – antes de comprar o produto mais comum do mercado colombiano. Agora, lamenta pelo facto de não ter optado desde o início por escrever essa palavra em um pedaço de papel. Em português, assim como no espanhol, a sua morfologia é a mesma: “sal”. Mas em uma boa parte das regiões lusófonas, pronuncia-se /sáu/.

O português, de um modo geral, evita as terminações consonantais. A semelhança morfológica é em si a razão arquetípica que sustenta a crença de que as duas línguas são muito parecidas. A realidade, porém, é menos cómoda.

Em um artigo publicado em 2008 pela Fundação do Espanhol Urgente, Fundéu –(1)–, a entidade estima que os cidadãos espanhóis usam, em média, umas mil palavras ao falar. E acrescentou: “Somente os muito bem instruídos atingem os 5.000 vocábulos. De facto, alguns jovens utilizam somente um arsenal de 240 palavras.”

Dependendo da fonte consultada (e da língua), esses números podem subir ou descer drasticamente, mas fica estabilizado entre as 200 e as 5.000 palavras. Se considerarmos – como observou em 2010 o vice-diretor da Real Academia Espanhola, José Antonio Pascual – que “é de costume estimar o léxico de uma língua acrescentando em torno de 30% ao dos dicionários”, o espanhol, então, tem pouco mais de 100.000 vocábulos. Portanto, mesmo os mais instruídos usam em seu cotidiano apenas 5% do total da língua.

O português, com o mesmo método de comparação, tem um léxico mais extenso, de cerca de 140.000 palavras (número baseado no Dicionario Priberam da Língua Portuguesa, de Portugal). No entanto, o número de palavras de uso cotidiano em média tende à universalidade. Usamos entre 200 e 5.000 palavras. Talvez seja essa a maneira mais prática de catalisar a comunicação entre duas pessoas.

Uma vez lidos estes números, a semelhança mencionada entre o português e o espanhol faz mais sentido. Não seria possível que entre esses 5% de palavras comumente usadas pelos altamente instruídos haja uma boa quantidade de homónimos entre duas línguas que são mutuamente (quase) compreensíveis? Sim, é possível. Tudo isso é! Mas a realidade abastece-se do acaso, e não da conveniência. Mesmo que um leitor culto [da língua espanhola] possa entender uma parte considerável de um texto em português (e isso é o suficiente para incentivá-lo a comprar livros nesse idioma), a homonímia das palavras não quer dizer também que haja homofonia ou sinonímia.

A Comissão Europeia –(2)– publicou em sua página da Internet uma lista dessas palavras, conhecido como “falsos cognatos” ou “falsos amigos”, graças à colaboração dos boletins Puntoycoma e A Folha: mais de 500 termos têm uma grafia semelhante em ambos os idiomas, mas com significados diferentes ou até mesmo opostos. Além disso, existem os vocábulos equivalentes, iguais, que caíram em desuso em uma ou em outra parte. “Lembrar” e “devastar” são bons exemplos: existem, significam a mesma coisa, mas parecem condenados ao exílio em 95% do idioma em que é menos usado.

Não deixa de ser lamentável. O espanhol e o português são línguas complexas e fascinantes; em seus resquícios pode-se tropeçar em achados inquietantes. “Elucidário”, por exemplo, é a palavra em português que designa o “livro que elucida ou explica o sentido das coisas ocultas”. Você sabia que havia uma palavra para A Náusea –(3)– ou para Deixemos Falar o Vento –(4)–? Existe o equivalente em espanhol? Claro! Outras palavras (abro o Dicionário da Língua Portuguesa e deixo cair o dedo: esse é o método): “almejar” é, ao mesmo tempo, “desejar ardentemente” ou “estar a agonizar”; pura poesia em português, criação de mariscos –(5)– em espanhol. Ou “aluado”, que significa “influenciado pela lua”, enquanto alunado –(6)–, em espanhol, só se aplica aos animais enfermos pela exposição aos raios da lua. Ou “âmago” –(7)–, palavra raramente usada em português, mas que ostenta um significado que abrange boa parte de toda a literatura: “a parte mais íntima; a essência”.

Sobre as diferenças fonéticas, às vezes inevitáveis, preferirei permanecer em silêncio. “Você vai querer conhecê-las pelos seus próprios meios”.  :::

(Tradução de Ronaldo Santos Soares)

.
–– Notas ––
–(1)–  A Fundação do Espanhol Urgente (Fundéu) é uma entidade internacional fundada em Madri em 2005, com o objetivo de zelar pela uniformização das regras e pelo bom uso da língua espanhola nos meios de comunicação, sobretudo nas mídias informativas. O órgão é patrocinado pela agência de notícias EFE e pelo banco BBVA e conta com a assessoria da Real Academia Espanhola.
–(2)– A Comissão Europeia é o órgão executivo máximo da União Europeia, encarregado de implementar os programas e tratados nos 27 países-membros do bloco. Desde 2004, a Comissão Europeia é presidida pelo ex-primeiro-ministro da República Portuguesa, José Manuel Durão Barroso.
–(3)– A Náusea, obra literária do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), cuja primeira edição foi publicada em 1938.
–(4)– Deixemos Falar o Vento, romance do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994), publicado em 1977.
–(5)–  Almejas, “mariscos”, em espanhol.
–(6)–  Há ainda na Língua Portuguesa o termo “alunado“, que significa “grupo ou conjunto de alunos”.
–(7)–  Amago, “ameaça” em espanhol.

.
VILLAMIL, Juan. Hallazgos en un diccionario Portugués.
Extraído do jornal El Espectador – Bogotá, Colômbia.
Publicado em: 24 abr. 2013.
.

*              *              *

Leia também:
Colômbia: Portugal, país convidado de honra da Feira do Livro de Bogotá – 18 de abril de 2013
Feira do Livro de Bogotá – Portugal e Brasil: literaturas em evidência – 03 de julho de 2012

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: