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Rui Zink em Macau: “o Português tem futuro porque é uma Língua que viaja”

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 30 de Março de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , , ,

Inês Santinho Gonçalves
Do jornal Ponto Final (Macau, China)
14 de março de 2013

O autor português Rui Zink participou da Rota das Letras, o Festival Literário de Macau, China.

Deslumbrado e surpreso com a cidade, Rui Zink já começou a escrever contos sobre Macau, a propósito da Rota das Letras [o Festival Literário realizado em Macau, na China, entre 10 e 16 de março]. “Tenho histórias a nascerem-me a cada 30 segundos”, conta. Além dos painéis de debate, o escritor e professor tem estado também nas escolas a fomentar o gosto pela leitura: “Tento ser uma biblioteca viva”.

*              *              *

:::  É a primeira vez em Macau. Quais são as primeiras impressões?  :::
Rui Zink – As primeiras impressões são sempre um confronto entre uma ideia feita e a realidade. Tem sido um namoro muito interessante. Tenho estado sempre divertido, deslumbrado e surpreso. Toda a gente já sabe que Macau é uma contradição com pernas, mas mexe-se bem. Se calhar, o futuro dos portugueses agora será até melhor do que era antes. Mais vale sermos uma comunidade querida do que sermos ocupantes invisíveis. Acho que se é mais fantasma quando se manda do que quando não se manda. Acho que agora os portugueses podem descobrir o génio da sua política, o português no seu melhor, que não é a arte do desenrasca – isso é o português no seu melhorzinho –, mas a arte da diplomacia. É preciso não esquecer que nós, portugueses, somos os mais negros e os mais orientais dos povos europeus.

:::  Que ideia tinha do que seria Macau e da dimensão da presença portuguesa cá?  :::
RZ – Comparando Macau e Hong Kong, Hong Kong é mais feia, mas é negócio. Uma das atrações turísticas de Hong Kong são as escadas rolantes – aquilo é feio como a putaça, mas é prático. Um dos nossos lados maus é o lado decorativo, que é um bocadinho também o que nos aproxima da China tradicional – complicar o que se pode simplificar. Macau não me surpreendeu nem desapontou porque sabia que os portugueses eram periféricos, mas sabia que continuavam a existir os nomes das ruas e sabia que ia encontrar a calçada portuguesa. Há sempre uma confusão do essencial com o acessório. Estar lá o nome da tua não é o que é importante; era preciso uma coisa mais estrutural. Mas, enfim, gosto de Portugal como gosto de Macau porque gosto de contradições.

“Macau não me surpreendeu nem desapontou. Sabia que continuavam a existir os nomes das ruas e sabia que ia encontrar a calçada portuguesa. Gosto de Portugal como gosto de Macau porque gosto de contradições.”
 

:::  Como professor, que balanço faz deste contacto que está a ter com as escolas?  :::
RZ – Acho que está a correr muito bem. Nós escritores vivemos numa bolha. Há um provérbio guineense de que gosto muito, que diz: “Quem sabe se a sopa está boa não é quem a faz, é quem a come”. Tento sempre dar o meu melhor. O meu melhor é, num espaço curto, conseguir com que os alunos fiquem curiosos por coisas que disse e depois vão, por eles próprios, procurar mais. Já fui à Escola Portuguesa e à Escola Luso-Chinesa Técnico Profissional. Fiz questão de falar em português, mas também de que tudo o que eu dissesse fosse traduzido para os alunos que não falam português – quando chego a um sítio, falo para toda a gente. Quero mostrar que um escritor é um leitor e que esta coisa de “ter cóltura” não tem de ser uma grande chatice. Pode ser, pelo contrário, um instrumento de descoberta do mundo. Daí ter contado a história de como descobri a leitura porque precisava de alguma coisa que explicasse o meu amor adolescente. Além de ser uma história verdadeira, é uma história cómica, e por isso faz sucesso. O humor muitas vezes é demasiado local, mas há um tipo de humor que, com sorte, passa. Estava a falar com adolescentes e se falo de problemas de amor não é possível falhar. Quando eles sorriram e ouvi um burburinho na sala, pensei: “OK, são meus; agora posso ser chato e posso ser didático”. Eu tento ser uma biblioteca viva; sou a biblioteca da Gulbenkian, da minha infância, que vem agora a Macau.

:::  Como vê a questão da Língua Portuguesa em Macau?  :::
RZ – Já soube que a administração portuguesa descurou durante muito tempo a promoção da Língua. A Língua é hoje uma das riquezas portuguesas. E vejo, infelizmente, muitas vezes um desprezo pela Língua. Não tenho dúvidas que o grande promotor do português é o Brasil. Só as pessoas que vivem em Coimbra de Baixo é que não sabem isso. O português tem futuro se percebermos que a nossa riqueza é a aliança. Se começa a haver muita gente a dizer: “Ah, aquilo é mal falado”, como já ouvi de um professor de um filho meu, estamos a dar um tiro no pé. Acabamos a falar finlandês, acabamos a falar uma língua que não tem projeção. O português é, de facto, atraente para uma parte da China porque há interesses culturais e comerciais não só com Portugal, mas também com o Brasil, com Angola, com Moçambique.

:::  Isso quer dizer que é a favor do Acordo Ortográfico?  :::
RZ – Isso quer dizer que o Acordo Ortográfico é uma questão que não me aflige. Não sou a favor nem contra, porque sou contra esta confusão. Acho que nos últimos dois anos as pessoas contra e a favor do Acordo parecem aqueles casais que gostam tanto dos filhos, querem cada um ficar com a custódia dos filhos, que acabam por os enviar para o psicanalista. No mundo da Internet, cada vez mais globalizado, um jovem português fala no Facebook com amigos do Brasil. Aquilo que fazia os sotaques diferentes, as palavras diferentes, vivia do isolamento. Porque é que num país é “goleiro” e noutro é “guarda-redes”? Porque nenhum dos países tinha referente. Mas num mundo em que o Atlântico já não é um mar, mas um rio, o português tem futuro porque é uma das grandes Línguas de cultura internacional no mundo, é uma Língua que viaja. Por isso temos de nos aliar e não dar um tiro no pé. Não sei se o Acordo Ortográfico é bom ou mau, mas sei que a discussão brutal nos últimos dois anos é um tiro no pé.

“A Língua é hoje uma das riquezas portuguesas. O português é, de facto, atraente para uma parte da China. O português tem futuro se percebermos que a nossa riqueza é a aliança.”

:::  Já tem ideias para o conto?  :::
RZ – Já comecei a escrever. Tenho uma página de dois contos. Não sei ainda se os dois contos vão ser variantes do mesmo, não sei se vou fazer microcontos, numa espécie de mosaico. Neste momento tenho histórias a nascerem-me a cada 30 segundos. Segunda-feira, escrevi isto: “Um português e um chinês fotografam a mesma coisa. Um porque a acha curiosamente chinesa, o outro porque a acha exoticamente portuguesa.” Isto aconteceu-me ontem ao pé das Ruínas [da Catedral] de São Paulo; descobri que eu e um chinês estávamos a olhar para a mesma coisa e por motivos contrários. Outra nota: “Na Calçada das Verdades entro numa loja. O dono não se perturba, está a jogar e jogar é mais importante. Ao fim de um bocado decido ir-me embora, até que chega a mulher e lá compro o chá.” As ideias surgem e tomo notas, vou fazendo desenhos.

:::  O seu novo livro A Instalação do Medo não é um livro humorístico – pode ser lido como uma alegoria à difícil situação que Portugal atravessa –, mas acaba por partir de um conceito com bastante graça.  :::
RZ – Pensemos n’A Metamorfose de Kafka: Gregor Samsa acorda de manhã e descobre que está transformado em barata. Há uma leitura trágica daquele texto, que é a antevisão do fascismo, mas há também uma leitura cómica. Neste meu texto, a ideia não é ser cómico ou deixar de ser cómico; a ideia é absurda: dois homens vêm para instalar a TV Cabo, mas, ao invés da TV Cabo, é uma coisa abstrata chamada Medo. Implica que o leitor, desde logo, decida se quer seguir ou não o texto. Sabia sobre o que é que este livro era para ser – a estrela do livro é o horror económico, é o “economês”. Mas como não podia falar só sobre isso, decidi encontrar uma estrutura: dois homens batem à porta de uma mulher e dizem: “Bom dia minha senhora, vimos instalar o medo”. Têm um catálogo de medos – o primeiro medo é o da infância. Eu tinha duas leituras no princípio. Escrevi primeiro uma versão em que explicava o ponto de vista da mulher, que estava angustiada. Depois fiz uma outra versão mais neutra. A primeira seria muito para mostrar a revolta dela, a humilhação dela. E de repente descobri que era muito mais interessante, até para o mistério da narrativa, nunca mostrar a mulher por dentro e deixar que o leitor tire as suas conclusões. Decidi mostrar mais os dois homens e depois ir humanizando, porque a verdade é que os filhos da mãe são humanos. É um livro que tem uma característica que têm muitos textos meus: têm humor, mas depois tiro-o. Na primeira lavagem têm humor, mas depois faço mais duas lavagens para que fiquem apenas como uma vaga poeira. Há ali humor, porque há um diálogo entre as personagens e a certa altura estão a repetir tantos clichés económicos que, para mim, aquilo tem piada. Mas é uma piada angustiante, não é para fazer rir – ou seja, será para fazer rir o espírito, mas não para fazer rir a cara.

:::  As épocas de crise são, geralmente, boas para a produção humorística. No entanto, isso não parece estar a acontecer agora, em Portugal. O país chegou a uma fase em que já não se consegue rir?  :::
RZ – Estamos numa fase cinzenta. A sensação que tenho é que Portugal está no intervalo do jogo e estamos a perder por 3 – 0, mas se agora refrescarmos a defesa e mandarmos mais cedo para o balneário um ou dois jogadores adversários, talvez a coisa melhore. Há um lado cinzento, mas acho que este ano vamos ver grandes produções de humor. Uma das coisas que abateu os portugueses foi o facto de o ministro Miguel Relvas, mesmo depois daquele ataque cerrado, se ter aguentado até agora. É a prova de que o nosso tiro de canhão não está a chegar. Ele é a prova da impunidade. Eu, por acaso, tenho a opinião contrária: quero que o ministro Miguel Relvas continue no Governo o mais tempo possível, porque ele é a prova de que o Governo não é tão competente, não é tão sério, tão justo e nem tão bem intencionado como diz que é.  :::

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GONÇALVES, Inês Santinho. “Macau é uma contradição com pernas”
(Entrevista a Rui Zink).
Extraído do jornal Ponto Final – Macau, China.
Publicado em: 14 mar. 2013.

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Leia também:
Agualusa: “Se Macau fosse cenário de um livro, seria um lugar de encontro” – 15 de março de 2013

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