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Agualusa: “Se Macau fosse cenário de um livro, seria um lugar de encontro”

In Língua Portuguesa Internacional, Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 15 de Março de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Raquel Carvalho
do Jornal Tribuna de Macau (Macau, China)
13 de março de 2013

Para José Eduardo Agualusa, foi uma surpresa encontrar a Língua Portuguesa viva em Macau. "Eu acredito no fim das fronteiras. De todas as fronteiras." 

Para José Eduardo Agualusa, foi uma surpresa encontrar a Língua Portuguesa viva em Macau. “Eu acredito no fim das fronteiras. De todas as fronteiras.”
 

Espantou-se com os nomes das ruas e os avisos que saltam à vista em português. Se Macau, terra que percorre pela primeira vez, figurasse em livro seu, vestiria a pele de pote de confluências e lugar de encontros.

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, reflete sobre a contaminação cultural entre africanos e chineses, bem como sobre as barreiras na circulação da literatura lusófona. Autor de mais de uma dezena de romances e peças de teatro, desvenda que o próximo livro será diferente de tudo o que já fez até agora.

*             *             *

Conseguiu encontrar-se em Macau? Conseguiu encontrar alguma portugalidade?
Ainda vi muito pouco. Fiquei admirado por ver que há o cuidado de as placas serem todas com caracteres chineses e também em português. Vê-se isso não só nas placas toponímicas, mas também no interior dos prédios, em avisos… Não estava à espera disso. Já sabia que a presença da Língua Portuguesa nunca foi muito grande em Macau. Por isso, foi para mim uma surpresa encontrar a Língua Portuguesa na toponímia. Por exemplo, em Goa isso não existe. Raramente se vê alguma coisa em português. Em Goa continua a haver uma elite goesa a falar português e existem escolas para pessoas em português. Aqui fiquei admirado por ver essa presença no quotidiano, nos cartazes…

Durante a sessão na Universidade de Macau, falou-se muito da questão do português padrão, mas não se falou sobre os crioulos de origem portuguesa, como o patuá…
Isso interessa-me muito. Tudo o que diga respeito à Língua Portuguesa me interessa; portanto, os crioulos que tenham por base a Língua Portuguesa também me interessam. Muitas vezes o que acontece é que há palavras que sobrevivem, arcaísmos, que sobrevivem nesses crioulos. O crioulo que melhor conheço é o de Cabo Verde. Sou absolutamente fascinado por arcaísmos. Gosto de adquirir essas palavras e de integrá-las na minha escrita. Tenho um romance precisamente sobre isso, que é o Milagrário Pessoal.

Mas faz um esforço para descobrir palavras antigas?
Sim, faço. Eu coleciono palavras. Presto atenção aos crioulos. Dá para encontrar palavras que percebemos, mas que são arcaísmos, que pertencem à Língua, embora não as usemos mais. Imagino que também aqui em Macau existam termos próprios, com arcaísmos.

Nos romances que escreve há uma vontade consciente de espelhar essa identidade lusófona?
Não penso nisso. O Prémio Nobel da Literatura [de 1986] nigeriano, o Wole Soyinka, dizia: um tigre não precisa de afirmar a sua tigritude, um tigre salta. Eu não penso nisso, exerço naturalmente a minha identidade. Não se pensa nisso. Exerce-se como se respira. Se for dançar e pensar ‘qual é o pé que devo mexer primeiro?’, você não consegue dançar. É preciso esquecer-se para depois dançar.

Lê autores chineses?
Gosto muito de poesia chinesa, tradicional e nova poesia que consigo encontrar em português. Mas a literatura chinesa para o mundo ocidental ainda é um universo por descobrir. Está a ser feito agora, com o último Prémio Nobel da Literatura [Mo Yan], por exemplo. Tenho a certeza que a literatura chinesa é uma das literaturas que vai crescer mais nas próximas décadas.

A quantidade de chineses a viverem em África, nomeadamente em Angola, está a crescer. Acredita que isso levará a uma contaminação cultural?
Com certeza. Já existe. Em Angola e em Moçambique, que são os países que eu conheço melhor com presença chinesa, essa população vive muito isolada ainda. São chineses que vão temporariamente construir e depois regressam, mas entre esses há sempre alguns que ficam. Portanto, já é possível encontrar chineses casados com angolanos, vivendo nos bairros pobres de Angola… isso já se começa a ver. Eu acho isso fascinante e muito interessante. Tenho até num dos meus últimos livros, o Barroco Tropical, duas personagens, dois jovens irmãos de ascendência chinesa, porque eu acho que isso vai acontecer… Já está, já existe, mas dentro de alguns anos esses resultados serão mais óbvios, mais evidentes. Até por isso seria bom que a China se preocupasse não só com essa presença no terreno, na construção, e que se preocupasse também com a presença cultural. Ainda agora estive num encontro de escritores em Brazzaville [na República do Congo], que é uma cidade pequena e muito pouco desenvolvida e, de repente, no meio daquilo tem enormes construções chinesas, horrorosas, o que é inexplicável quando a China tem tão bons arquitetos e tem surpreendido o mundo com a sua arquitetura. Então talvez fosse bom a China investir também aí e não apenas construir, preocupando-se em trazer para estes países a sua melhor arquitetura.

Na sessão de domingo [10 de março] da Rota das Letras [Festival Literário de Macau], defendeu que se devem destruir fronteiras e construir pontes… Já os escritores chineses mostraram um certo receio da globalização. Como olha para esta dicotomia?
Foi uma conversa interessante porque realmente mostrou um certo receio dos escritores chineses em relação a essa abertura ao mundo, o que é muito estranho quando se está de fora e se pensa que a China é esta imensidão e tem este poder todo. A última coisa que se espera é que alguém como o chinês possa ter esse receio. Mas, depois, pensamos que os chineses construíram a Grande Muralha. Então talvez grande parte da cultura chinesa tenha sido construída por receio do outro, por medo do outro. Aí já fará sentido aquele pensamento. Para mim, o grande combate é o combate pelo fim das fronteiras. Eu acho as fronteiras a pior construção ideológica da humanidade. Eu acredito no fim das fronteiras. De todas as fronteiras.

Mas mesmo dentro do mundo lusófono ainda existem barreiras, algo que se vê na própria circulação da literatura entre os países e regiões que falam português. As editoras têm um papel importante neste sentido?
A ideia, quando ajudei a criar em 2006 uma editora brasileira [Língua Geral], era exatamente dar a conhecer ao público brasileiro autores de Língua Portuguesa, que na época não eram conhecidos. A editora triunfou nesse sentido, ou seja, essa ideia prosperou. Hoje, a generalidade das grandes editoras brasileiras estão à procura e estão a publicar autores portugueses e africanos de Língua Portuguesa. Isso no Brasil mudou nos últimos dez anos. Quando nós dizíamos “autores de Língua Portuguesa”, também estávamos a incluir os autores asiáticos – publicámos na editora, por exemplo, o Luís Cardoso e eu próprio entreguei Henrique de Senna Fernandes a uma editora brasileira, a Gryphus; portanto, um livro dele foi publicado numa editora brasileira. Mas ainda há muita coisa a fazer. Há todo um caminho que é preciso fazer ainda.

Porquê é que ainda existe este distanciamento?
Há coisas que são difíceis de explicar. Acho que a situação está a mudar rapidamente. No caso do Brasil, mudou mesmo. Mesmo nos festivais de literatura, a maioria tem essa atenção, até porque descobriram que os autores portugueses ou de Língua Portuguesa dão certo. Um exemplo bom é o Valter Hugo Mãe, que esteve na Festa Literária do Parati [cidade do Estado do Rio de Janeiro, fundada no século XVIII] e foi um sucesso imenso lá, e hoje é um fenómeno literário no Brasil. Portanto, no Brasil isto está a mudar. Em relação a Portugal, há muitos anos que os autores africanos são bem recebidos. Mas, por exemplo, os autores brasileiros menos. Estão até publicados, mas não vendem. Não têm público. É difícil explicar porquê. Eu não tenho uma explicação. Agora acho que as editoras precisam de trabalhar melhor. Em Portugal as pessoas veem filmes, novelas brasileiras, porquê é que não hão de ler? Não compreendo.

Então depende mais das editoras do que da abertura dos povos?
Pois… eu acho que sim. Acho que há leitores, mas os leitores ainda não descobriram “aquele” autor… Quando descobrirem, vão comprar.

A literatura de Macau de expressão portuguesa é provavelmente a mais desconhecida no universo lusófono…
Sim, com certeza. Porque realmente Macau está na periferia da periferia. É o território mais periférico de todos nesse sentido. Essa comunidade de falantes de Língua Portuguesa também é muito pequenina; por isso também imagino que a produção literária em Macau em português seja pequena.

Macau poderia ser cenário para um dos seus livros?
Macau tem uma coisa que a mim me interessa e me cativa, que é o facto de ser um ponto de encontro. Mesmo historicamente, como porto, etc.. É um lugar de convergências, de confluência. É um lugar onde se encontram pessoas vindas de países e lugares muito diferentes, com experiências muito diferentes e, ao mesmo tempo, com uma cultura muito própria, muito específica e muito forte. Isso a mim fascina-me, essa mistura é para mim muito interessante. Se Macau fosse cenário de um livro, seria um lugar de encontro.

Depois de A Rainha dos Estapúrdios e Teoria Geral do Esquecimento, ambos publicados em 2012, já está a trabalhar num novo livro?
Sim, estou, mas ainda não consigo falar sobre ele… É um romance… [risos]

Mas pode integrar um bocadinho deste universo oriental?
É uma coisa absolutamente diferente de tudo o que eu fiz até agora. E integra tudo. É diferente de tudo.   :::

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CARVALHO, Raquel. “Se Macau fosse cenário de um livro, seria um lugar de encontro”.
Extraído do Jornal Tribuna de Macau – Macau, China.
Publicado em: 13 mar. 2013.

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