Articles

A querela sobre o Acordo Ortográfico em Portugal – Carlos Reis

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 15 de Fevereiro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , ,

O professor Carlos Reis é antigo reitor da Universidade Aberta, de Portugal.

 

O professor universitário Carlos Reis – antigo reitor da Universidade Aberta, de Portugal – escreveu recente artigo no jornal Expresso, de Lisboa, esclarecendo as posições quanto ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado em 1990.

Segundo Carlos Reis, as novas regras de escrita estão sendo seguidas por todos os países de Língua Portuguesa. “Voltámos a isto porque o Brasil decidiu prolongar por algum tempo o período de transição para a vigência obrigatória do AO, mas manteve-o em vigor. Só isso.” O artigo lança críticas à oposição exagerada em relação ao Acordo Ortográfico em Portugal – mesmo com a ratificação feita pelo Governo português em 2009 e com a entrada em vigor de sua obrigatoriedade de uso em 2015.

O professor Carlos Reis lembra que sempre houve regulações quanto à ortografia – a parte visível do idioma, “a epiderme da língua”. E que elas são necessárias, pois as línguas também sofrem da “congénita imperfeição que afeta produtos humanos”. “Para atalhar a imperfeição regulamos a língua até onde isso é possível, sem que tal signifique mutilar singularidades.”

O artigo assinado pelo professor Carlos Reis – intitulado Um homem mordeu um cão – está transcrito abaixo e foi publicado na edição do Expresso de 9 de fevereiro.

*              *              *

–– Um homem mordeu um cão ––

Carlos Reis
do jornal Expresso – seção Opinião
9 de fevereiro de 2013

Não cabe aqui o meu espanto por ver reacesa a querela do Acordo Ortográfico (AO). Aumenta esse espanto quando pessoas que estimo e intelectualmente respeito enfileiram numa fúria contestatária baseada em argumentos parciais, desinformados e não raro tendenciosos.

Para nos entendermos, lembro factos. O AO foi firmado em 1990 pelos (então) sete países de Língua Oficial Portuguesa; em 2004, Timor-Leste aderiu a ele. Que eu saiba, nenhum dos países foi coagido. De então para cá, a esmagadora maioria desses países tomou decisões jurídico-políticas de ratificação, o último dos quais (Moçambique) em junho do ano passado.

Outros factos: no nosso sistema educativo o AO está em progressiva adoção, sem notícias de estragos de monta; na comunicação social está generalizada, salvo escassas exceções que confirmam a regra, a utilização do AO.

Alguns números: em meados de 2012, dos dez jornais e revistas portugueses de maior circulação, oito usavam o AO; os dois que o não faziam ocupavam a antepenúltima e a penúltima posição, nesse índice de circulação. No caso das televisões, todas as de sinal aberto e praticamente todas as do cabo seguem o AO. E já não falo em documentos oficiais, no Diário da República, em incontáveis sites ou no facto de estarem publicados ou em vias de o ser os Vocabulários Ortográficos que alguns reclamavam com esgazeada ansiedade.

É isto significativo para desdramatizar (porque o que está em causa é uma dramatização) a questão do AO? Claro que sim. Aquilo que contribui para a estabilização possível do idioma e para a naturalização das suas mudanças é o uso disseminado, não as sensibilidades de quem tem acesso a caixas de ressonância disponíveis.

“Para atalhar a imperfeição regulamos a língua até onde isso é possível, sem que tal signifique mutilar singularidades.” (Frontispício da Reforma Ortográfica portuguesa de 1911.)

O AO tem incongruências a reparar? Claro que tem. A grande notícia é esta: a nossa Língua, já antes do AO de 1990, registava incongruências, no plano da grafia e noutros também. E as diferenças entre variantes nacionais existem noutros grandes idiomas (no inglês, no espanhol ou no francês) espalhados pelo mundo, os tais que não têm um Acordo Ortográfico, argumento que já tive oportunidade de desmontar.

Essas são as limitações da congénita imperfeição que afeta produtos humanos como as línguas que falamos e escrevemos. Para atalhar a imperfeição regulamos a língua até onde isso é possível, sem que tal signifique mutilar singularidades. A ortografia é um dos domínios onde isso é feito, sempre (o passado mostra-o bem) com resistências, porque aí a mudança atinge a epiderme da língua (é uma metáfora, claro).

Voltámos a isto porque o Brasil decidiu prolongar por algum tempo o período de transição para a vigência obrigatória do AO, mas manteve-o em vigor. Só isso. O que lemos em artigos inflamados? Que o Brasil suspendeu, recuou, cancelou e outras coisas semelhantes. Isto é sério? Por mim, pude testemunhar, durante um ano em que vivi no Brasil, que o AO está bem e recomenda-se por aquelas terras. Foi generalizadamente adotado, não suscitou histerias, ninguém rasgou as vestes.

Falta Angola, claro, esse país que alguns agora olham como um modelo de sensata democracia cultural. Pois bem: Angola acabará por aderir ao AO; talvez a recente decisão brasileira tenha a ver com isso mesmo, coisa em que deveríamos pensar, se em Portugal houvesse pensamento estratégico sobre a Língua, em vez dos gritos lancinantes que só o fundamentalismo linguístico explica. Mas é assim que por cá se faz: se um magistrado não gosta do AO ou se uma mãe decide que o filhinho fica traumatizado por escrever ativar, é disso que se faz a notícia. Decididamente: um homem mordeu um cão.  :::

.
REIS, Carlos. Um homem mordeu um cão.
Extraído do jornal Expresso – seção Opinião.
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 09 fev. 2013.

8 Respostas to “A querela sobre o Acordo Ortográfico em Portugal – Carlos Reis”

  1. Não subscrevo o acordo ortográfico porque acho que tem muitos erros e incongruencias não é por vir agora um sr professor botar opinião e armar aos cagados que vou mudar de opinião, factos são factos e não são FATOS.

  2. Um artigo tendencioso e que se esconde sob o argumento que este AO será corrigido nos erros que apresenta. Um artigo de alguém que ainda não explicou o seu papel neste processo e o que lucrou com isso e o que lucramos todos nós com tal.
    O senhor Carlos Reis não é o único que percebe de linguística e de questões da língua, e a cada “virtude” que apresenta sobre o AO, outros tantos “pecados” podem ser contrapostos.
    Só num país como este é que se perde tempo em AO e novas nomenclaturas linguísticas e gramaticais.
    Não, senhor Carlos Reis, este AO é uma artificialismo movido por questões meramente plíticas e não por qualquer necessidade linguística, de facto.
    Neste país onde muita gente mamaàs custas de observatórios e afins, este foi mais uma pretexto para algumas pessoas meterem mais uns cobres ao bolso, com a desculpa que isso aumentaria os ganhos e peso comercial da lusofonia.
    Fala em AO, mas onde está o AO? Um AO só com 2 países? Autorizado por quem? Desde quando uns quantos filólogos e linguistas, mais uns quantos políticos incompetentes decidem a língua?
    Já ouviu falar em referendo?
    E não me venha cá dizer que é questão para especialistas, porque é especialista qualquer falante e natural da língua.
    Por isso, senhor Reis, você não tem mais direito a decidir sobre a língua do que eu, e para sobre ela opinar também não. A língua não é protectorado seu, mas património de todos nós.

    Teorize a literatura que quiser, mas deixe que as alterações se façam por força do uso reiterado, segundo a evolução natural da língua, e não por imposição desse uso.

  3. Espanto é, de facto, a palavra a utilizar.

    Desde quando a “frequência de utilização” é um argumento válido?

    As escolas usam-no – por determinação legislativa, não por concordância dos professores.

    Os jornais e os livros publicados utilizam-no – por determinação legislativa, não por concordância dos escritores/jornalistas.

    Os países (e esta noção de “país” tem muito que se lhe diga…) firmaram-no. Os países ou os representantes dos países em reuniões à socapa e sem que os fundamentos do mesmo tenham sido objecto de um debate alargado.

    É isto o que o professor Carlos Reis tem a argumentar a favor? É isto o que justifica que se fale de birra a propósito dos que se manifestam contra este Acordo?

    Imperfeição a imperfeição, comparem-se os dois Acordos: 1945 e 1990.

    Qual dos dois contempla menos excepções? Qual dos dois contempla menos duplas grafias na mesma área geográfica de utilização? Qual dos dois não remete para uma suposta “norma culta” da língua? Qual dos dois não define o que é essa “norma culta” (embora contenha a expressão)? Qual dos dois faz depender a sua plena aplicação da elaboração de um “vocabulário unificado”, que ainda não foi elaborado (sem que tal tenha impedido as autoridades portuguesas de o fazer entrar em vigor a toda a força e pressa)? Qual dos dois está ferido de ilegalidade – ou, ao menos, de contradição?

    Nitidamente, o AO90 perde neste comparativo e em toda a linha.

    E a impressão que eu tinha do sr. prof. Carlos Reis fica, mais uma vez, e infelizmente, confirmada.

    Cordialmente,

    Eduardo Coelho

  4. “seção” Opinião.?

  5. Subscrevo a Opinião de Eduardo Coelho.
    Este acordo ortográfico, é além do mais, um Absurdo..sem sentido.
    É um Facto…e um Acto estúpido. (Já agora… como é que Facto e Acto…são palavras que Vêm da mesma palavra base (Acto) e se passarão a escrever de forma diferente quando até as linguas Anglo-Saxónicas adoptaram esta Esctrita e fonografia? Facto e Ato? Que ESTUPIDEZ !!

    citando Eduardo Coelho…
    “Qual dos dois está ferido de ilegalidade – ou, ao menos, de contradição?”

  6. Ninguém é dono da língua. Ela também é minha e eu não falo nem brasileiro nem angolano nem qualquer outra de origem portuguesa. Não sou especialista por isso gostava apenas de lhe perguntar se o português é igual ao brasileiro ou ao angolano ou timorense. Ou se no futuro v. exc.ia prevê uma ditadura brasileira sobre o antigo império português, com o qual o o senhor deve ser já conivente.

  7. Pois, Portugal ratificou mas os Portugueses não ratificaram. Porque não houve um referendo? Porque já se sabe que a resposta seria um rotundo NÃO.

  8. Prezado sr. Carlos Reis,
    Diz o sr. que as pessoas que são contra um acordo “enfileiram numa fúria contestatária baseada em argumentos parciais, desinformados e não raro tendenciosos.” Parcialmente até lhe dou razão… E até lhe digo mais: algumas até aduzem argumentos contra o acordo que de rigor científico nada têm… Mas em abono da verdade, pode ter a certeza absoluta que os que defendem o acordo usam e abusam de argumentos parciais, desinformados e frequentemente tendenciosos… E não é preciso ir muito longe… basta ler o famigerado acordo ortográfico… mas adiante…
    Mais à frente o sr. diz, e passo a citar: “Que eu saiba, nenhum dos países foi coagido.” É bem verdade… o que o sr. se “esqueceu” de dizer é que milhões de pessoas escrevem segundo o novo acordo, não porque concordem com ele, não porque ele seja bom para a Língua Portuguesa ou porque esteja bem estruturado, mas sim porque a isso são coagidas… e é por isso que o acordo está “em progressiva adopção”… nada mais…
    Depois o sr. escreve: “…os Vocabulários Ortográficos que alguns reclamavam com esgazeada ansiedade.” Alguns??? Quem??? Os defensores do acordo??? Ou os que estão contra o acordo??? Bem… uma coisa é certa: quem exigiu o vocabulário ortográfico foram os feitores do acordo… sem mais comentários… Mas outra pergunta se impõe: onde é que está, passados mais de 20 anos, o vocabulário que o próprio acordo menciona???
    Mas ainda mais à frente o sr. diz: “Aquilo que contribui para a estabilização possível do idioma e para a naturalização das suas mudanças é o uso disseminado”. “Estabilização possível do idioma”??? Mas que “estabilização possível do idioma” é esta se este em menos de um século (caso único no mundo) fez três reformas ortográficas???
    “A grande notícia é esta: a nossa Língua, já antes do AO de 1990, registava incongruências, no plano da grafia e noutros também.” Grande novidade… até parece que descobriu a pólvora… bem… mas o que o sr. não diz é que se antes deste acordo existiam incongruências, este acordo apenas e só veio exponenciá-las, não resolvê-las… tudo isto para delírio dos reformadores de plantão que assim vão mantendo os seus postos de trabalho, visto que dentro em breve precisarão de fazer uma nova reforma para, além de corrigir as incongruências actuais, terem que adaptar a futura reforma às alterações fonéticas que o novo acordo vai introduzir… e é assim que os estrangeiros vão ficando com uma “excelente” ideia de nós e do nosso Idioma…
    “Por mim, pude testemunhar, durante um ano em que vivi no Brasil, que o AO está bem e recomenda-se por aquelas terras. Foi generalizadamente adotado, não suscitou histerias, ninguém rasgou as vestes.” Hummm… em que mundo vive o sr.??? Ou é daqueles que também só têm 5 min. para ler os jornais??? “Pois bem: Angola acabará por aderir ao AO; talvez a recente decisão brasileira tenha a ver com isso mesmo, coisa em que deveríamos pensar, …”… bem… o sr. precisa mesmo de se informar ou, no mínimo ler, ouvir e/ou ver os meios de comunicação social…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: