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Sobre manifes e o tratamento de estrangeirismos

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 24 de Janeiro de 2013 by ronsoar Tagged: , , ,

 

A questão levantada sobre a grafia de palavras estrangeiras coloca uma reflexão sobre o tratamento dessas palavras na Língua Portuguesa. A entrada de termos estrangeiros é uma prova da vitalidade da Língua em uso, mas as palavras devem amoldar-se aos padrões de escrita e de pronúncia para que sejam reconhecidas como parte da Língua.

Assim foi o caso de palavras que entraram na Língua Portuguesa, de início mantendo a forma original e sendo facilmente reconhecidas como termos estrangeiros. Como club, percebida como palavra da língua inglesa, e chic, de origem francesa. Tais termos passaram por mudanças na grafia e na pronúncia para se adaptarem aos padrões ortográficos, fonológicos e de flexão da Língua Portuguesa. Com isso, temos “clube” e “chique”, que não causam estranhamento, pois estão plenamente integradas ao vocabulário português.

Devido à maciça entrada de termos estrangeiros no português de hoje, e em enorme intensidade, muitas delas já não passam por esse processo de adaptação – principalmente as que se referem às tecnologias de ponta e às áreas técnicas.

Por isso, é de grande importância um trabalho de pesquisa de tradução de termos novos e de criação lexical, como já é desenvolvido, por exemplo, por órgãos técnicos da língua francesa e da língua espanhola.

Tal trabalho dará impulso à renovação lexical da Língua, vitalizando o seu uso nas áreas de especialidade técnica e, por extensão, em todas as áreas da Língua vernacular, tal como já ocorre hoje com as duas grandes línguas aqui citadas, irmãs do português.

Abaixo, um artigo da coluna Português Atual, do Jornal de Notícias, de Portugal, ilustra esse assunto, sobre a necessária adaptação de termos estrangeiros aos padrões da Língua Portuguesa.

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–– Manif, manif. ou manife ––

Lúcia Vaz Pedro, do Jornal de Notícias (Lisboa, Portugal)
6 de janeiro de 2013

 

Apesar de a palavra “manif” ser contemplada na maior parte dos dicionários, urge ter em atenção alguns aspetos.

Em primeiro lugar, na linguagem jornalística, e uma vez que não são aconselháveis as abreviaturas nem o itálico, é aceitável que a palavra seja grafada desse modo.

Em segundo lugar, os dicionários grafam, primeiramente, o estrangeirismo que é utilizado em português; em seguida, regra geral, essas palavras são adaptadas às regras da nossa Língua.

É o que acontece, por exemplo, com as palavras clube (s) ou chique (s), em que se acrescentou um -e no final da palavra (paragoge).

Ora, numa altura em que Portugal deve assumir-se em todos os sentidos e em que a Língua Portuguesa está em crescimento, seria importante repensarmos o uso de alguns estrangeirismos.

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Assim, por exemplo, quando se escreve manif ou manifs, forma de origem francesa, estamos a negligenciar o valor da nossa língua, uma vez que, em português, não temos o singular terminado em -f nem o plural terminado em -fs. A terminação em consoante só acontece no singular de palavras terminadas em -l, -r, -s e -z (jornal, mar, lápis, rapaz). Em posição final, as outras consoantes só ocorrem ou em onomatopeias e interjeições (uf!) ou em estrangeirismos (self, rap, spot), devendo ser assinalados em itálico ou entre aspas.

No caso de manif dever-se-ia, pois, seguir essa regra, isto é, acrescentar um -e final ou -es, no caso do plural: manife, manifes. Nestes casos, estamos perante uma redução da palavra “manifestação”, tal como acontece em “profe”, “profes”. Este processo tende a ocorrer em palavras muito longas e, em particular, em compostos greco-latinos, de que são exemplo nefrologia, pornografia ou fotografia.

No entanto, há sempre a possibilidade de se escrever “manif.”, com um ponto no final da palavra, pois trata-se de uma abreviatura.

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VAZ PEDRO, Lúcia. Manif, manif. ou manife.
Extraído do Jornal de Notícias – seção Português Atual
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 06 jan. 2013.

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