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Gol contra – Arnaldo Niskier

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 17 de Janeiro de 2013 by ronsoar Tagged: , , , , , ,

Arnaldo Niskier é ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Ventos da Lusofonia transcreve o artigo assinado pelo jornalista e escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras entre 1998 e 1999. Niskier também é acadêmico correspondente no Brasil da Academia de Ciências de Lisboa.

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Nele, o autor expõe opinião contrária ao prolongamento no Brasil da transição para a obrigatoriedade do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa através de decreto da presidenta da República, Dilma Rousseff, promulgado em 28 de dezembro de 2012. As novas regras de escrita foram bem assimiladas no Brasil, “mas no último minuto, quando o jogo parecia ganho, o Governo fez um gol contra, adiando o início para 2016, de forma incompreensível para os brasileiros”.

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A decisão oficial brasileira de adiar o fim da transição ao Acordo Ortográfico para 31 de dezembro de 2015 seria para sincronizar com o calendário de vigência das mudanças ortográficas em Portugal – onde o prazo de transição expira em 31 de maio de 2015.

O artigo foi originalmente publicado no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, na edição de 3 de janeiro de 2013.

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–– Gol contra ––

Arnaldo Niskier
do Jornal do Commercio (Rio de Janeiro, Brasil)
3 de janeiro de 2013

 

Tínhamos tudo para caminhar serenamente, em nosso país, na implantação do Acordo Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa. Ele foi aceito por todas as camadas da nossa população, mas no último minuto, quando o jogo parecia ganho, o Governo fez um gol contra, adiando o início para 2016, de forma incompreensível para os brasileiros.

Embora parecesse pacífica a implementação do Acordo Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa, na sua versão de 1990, a comunidade lusófona reagiu de maneira diferente. O Brasil aderiu com entusiasmo a essa ideia de simplificação. A partir de 2013 todos os seus instrumentos de comunicação, como jornais, revistas, livros e emissoras de rádio e televisão obedecerão aos ditames do Acordo, sacramentado pelo ex-presidente Lula, em 2008, numa simpática cerimônia, simbolicamente realizada na sede da Academia Brasileira de Letras.

O mesmo, infelizmente, não está ocorrendo em Portugal e nas nações luso-africanas. Há fortes reações, com argumentos inaceitáveis: o Brasil estaria exercendo uma forma de neocolonialismo, querendo impor a sua vontade cultural. Alguns jornais portugueses, como Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Público, i, Diário Económico e Jornal de Negócios, além da revista Sábado, desrespeitam o Acordo e agem como se estivessem com a corda no pescoço. Não existe o consenso social mínimo em torno do assunto.

Um bom número de intelectuais protesta contra o que eles classificam como “empobrecimento da Língua Portuguesa”. A Faculdade de Letras de Lisboa está na linha do que se pode classificar como “desacordo”. O jornal Público anuncia com entusiasmo que o governo brasileiro estaria para dar uma volta e conceder um prazo de mais seis anos para tornar obrigatórios todos os postulados. Não é o que se espera. Livros, jornais e revistas circulam de acordo com as novas regras, com a expectativa de que assim será possível sonhar com a oficialização do nosso idioma na Organização das Nações Unidas, uma velha reivindicação estratégica, que se liga ao pedido para que tenhamos assento permanente no Conselho de Segurança da entidade.

O curioso, nessa história toda, é que o Acordo contempla a maioria dos itens da Reforma de 1945, que recebemos de Portugal. Não se mexe na forma de falar, garantindo-se a individualidade dos sotaques (prosódia). A quantidade de palavras mexidas é mínima (menos de 3% dos termos usuais) e a grita pode esconder interesses econômicos disfarçados: o medo de o Brasil, com isso, procurar a conquista de novos mercados no exterior para os seus livros, por exemplo.

O que há de concreto é a decisão política de simplificar o idioma de Camões, aliás, hoje mais fácil de entender pela semelhança com o português que praticamos. O ano de 2013 será marcado pela adoção plena, pelos 200 milhões de brasileiros, de uma grafia simplificadora, apesar dos embaraços com que ainda nos deparamos diante dos hifens traiçoeiros. Mas isso é questão de tempo.  :::

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NISKIER, Arnaldo. Gol contra.
Do Jornal do Commercio (Rio de Janeiro, Brasil).
Publicado em: 03 jan. 2013.
Extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras.

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Leia também:
Acordo Ortográfico: Brasil adia a obrigatoriedade para 2016 – 29 de dezembro de 2012
Brasil: “não há motivo para adiar Acordo Ortográfico”, dizem especialistas – 06 de janeiro de 2013
O Acordo Ortográfico para integrar o mundo de Língua Portuguesa – 23 de dezembro de 2012

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