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Rebatendo os “fantasmas” do Acordo Ortográfico – (II)

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 21 de Dezembro de 2012 by ronsoar Tagged: , , ,

Ronaldo Santos Soares
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é a mais recente etapa de um longo processo de união de regras de escrita iniciado há mais de um século.
 

Continua a seguir a relação dos 15 itens a serem desmistificados em torno do Acordo Ortográfico assinado em 1990 e questionado em setembro pelo Comité de Tradução e Direitos Linguísticos do PEN Internacional, a associação mundial de escritores, poetas e romancistas.

Com o esclarecimento, mostramos que o Acordo Ortográfico, construído de forma conjunta no espírito da Lusofonia, é um importante instrumento para garantir à Língua Portuguesa o estatuto de Língua de trabalho e de Língua oficial de uso internacional. Um Acordo que veio para unir, em vez de dividir.

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–– Vamos rebater cada um dos itens do PEN Internacional
contrários ao Acordo Ortográfico ––

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8) Há questionamentos, até de escritores, de tradutores e de linguistas, quanto a um português estandardizado e universal.
A fase de implantação de mudanças, em qualquer área humana, sempre gerou dúvidas e discussões – não foi diferente quanto à ortografia. Não se chegaria a uma unanimidade, mas chegou-se a um consenso sobre as mudanças, sugeridas por especialistas da Língua e em âmbito mundial.

Há ainda várias razões para esses questionamentos. Principalmente de ordem pessoal dos autores – quanto à inadaptação às novas regras, diferentes das aprendidas em tempos de escola – e com um certo fundo nacionalista ou saudosista, de que a Língua pertence a um país só – o que é uma visão anacrónica para estes atuais tempos de globalização, ainda mais para uma Língua transcontinental.

É verdade que falta ainda o Vocabulário Comum, mas está em elaboração com base nas diretrizes dadas pelo Acordo e será divulgado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) em meados de 2014.

As novas regras de grafia serão válidas para o mundo inteiro e tornarão mais fácil o aprendizado da Língua Portuguesa escrita no estrangeiro.
 

9) Todas as tentativas anteriores de promover a união escrita da Língua fracassaram.
A unificação de regras de escrita da Língua Portuguesa não pode ser vista como reformas diferentes e isoladas, mas, ao contrário, como etapas graduais de um longo processo que começou em 1911 e vai até hoje. Houve percalços, mas foi mantido o processo de aproximação das regras de escrita da Língua comum por diversas etapas em 1911, 1931, 1943, 1945, 1971, 1973, 1986 e 1990.

Aliás, todas essas etapas foram bem-sucedidas até aqui quanto a seu uso e aplicação e todas elas com impacto maior de mudanças sobre a Língua escrita do que o atual Acordo de 1990.

10) A estandardização da escrita além-fronteiras é ideia mais rejeitada que aceite.
As mudanças sempre geraram alguma resistência no início: até mesmo Fernando Pessoa manifestou-se contra a reforma ortográfica de 1911! Mas depois, percebe-se que a padronização das regras de grafia fortalece a Língua escrita e o sentimento de pertença a uma grande comunidade transversal a culturas e presente ao redor do mundo, unida por uma Língua comum. Além da partilha de toda uma tradição e herança da Língua Portuguesa escrita ao longo de nove séculos e que influenciou o pensamento do mundo moderno.

O Acordo Ortográfico fortalece a Língua escrita e o sentimento de pertença a uma grande comunidade transversal a culturas e presente ao redor do mundo, unida por uma Língua comum.
 

11) A língua francesa refreou a criação natural de um vocabulário e limitou a força criativa da Língua. A atual força motriz do francês está na inclusão das diferenças na Língua.
Cada grande língua do mundo possui uma história própria e características próprias que a distinguem. No mundo de língua francesa, por longo tempo predominou o conceito de que o francês correto era apenas o falado e escrito na França. Com isso, não houve deriva na Língua escrita, já que a regra era seguir as normas ortográficas ditadas pela Academia Francesa.

Esse pensamento linguístico foi substituído há quase meio século pela ideia da Francofonia – que inspiraria, mais tarde, a Lusofonia. A língua francesa passa por um processo de construção conjunta executado por todos os países que a adotam como oficial. Com isso, há valorização dos usos regionais do francês, inclusive vindos de locais da própria França com língua regional própria.

E tanto no momento em que a França era o centro da língua quanto no atual momento da Francofonia, todo o mundo sabe que não houve freios ou vedação à criatividade artística e intelectual dos escritores, filósofos, poetas e romancistas de língua francesa, nem houve impedimentos à expansão mundial do idioma e das obras nele escritas.

Com o Acordo, será restituído à Língua o seu caráter internacional e transcultural, ao acabar com a duplicidade de documentos oficiais em português.
 

12) A língua inglesa floresceu graças às diferenças ortográficas, gramaticais e de vocabulário. O mesmo ocorreu na língua espanhola, cuja força crescente é conferida na inclusão das diferenças.
Sempre houve contactos intensos entre o mundo de língua inglesa, entre a Inglaterra e os Estados Unidos (ao contrário do que ocorreu no mundo de Língua Portuguesa). Não foram interrompidas as trocas literárias e culturais, a ponto de não ser necessário um código ortográfico de regras de escrita. Esses contactos frequentes, que seguem até hoje, ajudaram a uniformizar a escrita da língua inglesa e, ainda assim, há diferenças residuais na grafia de algumas palavras entre o inglês americano e o inglês europeu.

Na língua espanhola, houve o mesmo processo que no francês: até recentemente, prevaleceu a ideia de a Espanha ser o centro do mundo que fala espanhol, com as diretrizes da Real Academia Espanhola. Somente nos últimos anos, a própria Real Academia consagrou os usos do espanhol falado no mundo fora da Espanha, com o reconhecimento dos usos de cada país que o adota como oficial. A língua é a mesma, com seus diversos sotaques e palavras regionais, mas – é essa a questão – há um código ortográfico único e uma gramática unificada de âmbito mundial e que valoriza os usos regionais do espanhol.

13) Há no Acordo muitas exceções que geram um conjunto de contradições de regras e prejudicam o projeto de estandardização da escrita da Língua.
O Acordo aponta diretrizes a serem seguidas em todo o mundo para a grafia das palavras em português. Todas as dúvidas quanto à grafia e às regras novas de escrita serão resolvidas com a publicação do Vocabulário Ortográfico Comum, a ser lançado em meados de 2014.

O importante é que, em vez de dois sistemas ortográficos conflitantes, a Língua escrita passará a adotar um sistema de união, de alcance mundial, que respeita a história da Língua e que reconhece as variações de grafia de toda a Lusofonia.

O Acordo Ortográfico apenas atinge a grafia: não fere a criatividade expressiva da Língua que vai muito além da escrita.

14) O Acordo limita a criatividade de escritores no mundo lusófono, nem indica conduzir a um aumento da circulação de livros no mundo lusófono.
O Acordo Ortográfico não fere a criatividade expressiva da Língua, que compreende muitos outros detalhes além da grafia: a expressão criativa está também no significado dos termos, na colocação das palavras nas frases, nos contextos culturais aos quais as palavras estão relacionadas, nos gêneros de discurso adotados, na sonoridade da Língua falada. O Acordo apenas unifica as regras de grafia, restituindo à Língua o seu caráter internacional e transcultural.

O Acordo ainda acaba com o tratamento atual dado à Língua Portuguesa como se fosse duas Línguas. O fim da duplicidade de documentos oficiais em português representará menos custos de publicação, além de maior difusão mundial das obras escritas, com um conjunto ortográfico de escrita a ser seguido no mundo inteiro. As editoras portuguesas e brasileiras (bem como dos outros países lusófonos) podem aliar-se em associação para a divulgação, em escala internacional, das obras literárias, didáticas e de cunho informativo em Língua Portuguesa.

15) O Acordo é uma regra artificial imposta para minar a força da Língua Portuguesa.
Não se pode pensar o Acordo como uma “regra artificial” – senão, deveríamos pensar que todas as regras de uniformização da escrita adotadas desde 1911 (e, porque não dizer, desde Camões) seriam regras artificiais e que cada pessoa deveria escrever da forma como bem entender, o que seria um desastre para a sua comunicação linguística escrita.

Nem se trata de um ordenamento imposto ou ditado por um ou outro país, e sim de um acordo internacional, elaborado por especialistas da Língua de todos os países lusófonos, de um consenso assinado pelos governos de todos os países de Língua Portuguesa, que perceberam na unificação das regras de ortografia um claro benefício ao ensino e à promoção da Língua, o que fortalece a presença do português no mundo.

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Em vez de dois (ou vários) códigos de escrita conflitantes entre si, haveria um só modelo ortográfico a abranger todas as modalidades da Língua Portuguesa no mundo. Além de fazer com que a Língua seja mais facilmente aprendida e adotada no estrangeiro, a nova ortografia respeita as culturas que se expressam em Língua Portuguesa; inclui-as todas, ao invés de deixá-las divididas.

Uma vez desfeitos aqui todos os temores quanto ao Acordo Ortográfico e apresentados os benefícios que trará ao aprendizado e à projeção da Língua “filha ilustre do Latim”, cabe aqui tomar emprestado, e sobre o mesmo tema, as palavras do escritor D’Silvas Filho, membro do Conselho Científico da Sociedade da Língua Portuguesa:
“Lembra-se finalmente que, qualquer que seja a nossa idade, espírito jovem é o daquele que aceita o devir de Heráclito como uma lei natural e não o de quem está sistematicamente contra a mudança, sem sequer atender ao seu lado positivo.”  :::

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:::  Continuação de:
Rebatendo os “fantasmas” do Acordo Ortográfico – (I)  :::

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Postado por: SOARES, Ronaldo Santos. Rebatendo os “fantasmas” do Acordo Ortográfico.
— Defesa da Língua Portuguesa

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Leia também:
Acordo Ortográfico: a caminho de uma Língua policêntrica – (I) – 12 de novembro de 2012
Acordo Ortográfico: a caminho de uma Língua policêntrica – (II) – 13 de novembro de 2013

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