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Mobilização pela manutenção do Português como Língua de Ensino na França

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 23 de Novembro de 2012 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Emmanuelle Leroy Cerqueira
Do blogue Global Voices
14 de novembro de 2012


O português conta com aproximadamente 250 milhões de falantes e é a sexta língua mais falada do mundo. Há por volta de 2 milhões de lusófonos na França, principalmente imigrantes e filhos de imigrantes portugueses.

No dia 30 de agosto de 2012, Geneviève Fioraso, a ministra do Ensino Superior, deu uma entrevista ao Médiapart sobre a reestruturação necessária das universidades, na qual ela diz:
“Ter o português em todas as universidades é algo necessário? Eu adoro o português, mas ter uma disciplina rara em todas as universidades pode não ser útil.”

Essa entrevista mexeu com a comunidade lusófona da França, e um apelo foi lançado no Facebook pela Casa Amadis, uma associação lusófona de Montpellier [cidade do sul da França, na costa mediterrânea], para protestar contra a declaração da ministra:
“É necessário saber que o português é a terceira [maior] Língua europeia de comunicação, que é falada por mais pessoas em todo o mundo do que o francês e que é a Língua de um dos países do G20, o Brasil. (…) Defender o ensino do português, do italiano, do árabe… na França, é também contribuir para a defesa da Francofonia.”

Esse apelo foi depois retomado pelo LusoJornal, um jornal das comunidades lusófonas da França e da Bélgica. Alexandra Custódio, de Saint-Étienne [cidade no centro-leste da França], declara no número 94 que:
“Os 2 milhões de franceses, os 60 mil empresários de origem portuguesa que contribuem diariamente para a economia do nosso país e que são completamente bilíngues em português/francês, foram até o presente momento um trunfo para a França, uma ponte natural para o acesso a esses mercados de Língua Portuguesa, mas agora eles se sentem ‘ignorados’ e estão revoltados.
As empresas na França recrutam todos os dias um grande número de graduados, gerentes de venda, engenheiros etc… que falam português. A França precisa de alunos formados em português. Vocês sabiam que os estudantes que saem das universidades francesas, formados em português, têm uma taxa de emprego de mais de 90%?”

A França é o segundo maior parceiro do Brasil em termos de investigação científica e de inovação tecnológica, depois dos Estados Unidos. Muitas são as universidades brasileiras envolvidas em acordos de cooperação internacional com a França por meio de projetos de pesquisa, geralmente com o apoio de financiamentos bilaterais tais como CNPq-CNRS [do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, do Brasil, e do Centro Nacional da Pesquisa Científica, da França].

[A associação de jovens da comunidade lusófona da França] Cap Magellan – Le Portugal sans clichés enfatiza a importância desses intercâmbios universitários.
“Este ensino é realmente indispensável, porque cada vez mais empresas, mas também laboratórios de pesquisa, das formações mais diversas, demandam por especialistas capazes de trabalhar com o Brasil, Angola e outros países lusófonos. A cooperação universitária franco-brasileira também está indo de vento em popa, já que o Brasil acabou de criar um amplo programa de formação internacional para os seus estudantes: o Ciência Sem Fronteiras.”

O primeiro-ministro da República Portuguesa, Pedro Passos Coelho, e o presidente francês, François Hollande, em Chicago (EUA) em maio deste ano: crescimento da cooperação internacional entre a França e os países da Lusofonia.
 

O blogue Correspondances Transatlantiques (Correspondências Transatlânticas), em uma carta endereçada à ministra, sublinha:
“[…] a vivacidade do interesse dos brasileiros pela criação literária, artística e cinematográfica francesa (o Brasil é também o maior mercado da América do Sul para a literatura francesa).”

E lembra das questões econômicas e culturais da aprendizagem do português na França:
“Além do facto de que muitas indústrias de setores-chave da economia brasileira são francesas (exploração de petróleo, particularmente), os próximos eventos de porte mundial no Brasil (Jogos Olímpicos, Copa do Mundo de Futebol) devem aumentar a atratividade que o Brasil vai exercer sobre as empresas francesas. Esses eventos devem, portanto, oferecer novas oportunidades de negócios nas áreas de construção, transportes, engenharia ambiental e energias renováveis.”

Paulo Pisco, deputado dos portugueses do estrangeiro na Assembleia da República de Portugal, responde em francês e em português à ministra, em um artigo publicado no Médiapart:
“A Senhora Ministra poderia ter pensado no profundo legado cultural português que vai do Japão ao Canadá, do Sri Lanka ao Uruguai. Poderia ter pensado na crescente importância da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que tem 12 países de todas as partes do globo que querem ser membros associados, entre eles destaque para a Indonésia, Venezuela ou Marrocos. O Senegal ou as Maurícias, por exemplo, já são membros associados.”

A ministra francesa da Investigação e do Ensino Superior, Geneviève Fioraso, lamentou o mal-entendido gerado pela declaração feita à imprensa em agosto.
 

Laeticia Trigo, que participou do apelo lançado no Facebook, recebeu a seguinte resposta da ministra, que autorizou a publicação da carta [na página da campanha da Casa Amadis no Facebook]:
“Eu sinto muito por este mal-entendido. […] Minha mensagem, inadequadamente retraduzida (talvez eu não tenha sido bastante clara com a jornalista) foi a seguinte: em um contexto em que as universidades enfrentam situações financeiras cada vez mais preocupantes desde a transição para a autonomia (mal) efetuada das universidades seguindo a Lei Pécresse de 2007, é necessário organizar uma oferta de formação em rede e em conjunto. Acontece que eu havia recebido duas universidades que tinham uma oferta de formação em português para 4 estudantes em um caso e 3 em outro. Assumo o facto de que não podemos mais sustentar financeiramente este tipo de formação. […] É claro, isso requer uma ajuda à mobilidade dos estudantes para não penalizar uma disciplina tal como ocorre com uma Língua utilizada por uma comunidade com grande presença em nosso território. […].”  :::

(Tradução de Richard de Araújo.)

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CERQUEIRA, Emmanuelle Leroy. Mobilisation pour le maintien du portugais comme langue d’enseignement en France.
Extraído do blogue Global Voices (Vozes Globais).
Publicado em: 14 nov. 2012.

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Leia também:
França quer acabar com o Ensino do Português nas universidades? – 6 de setembro de 2012
O Português não é uma Língua rara – Paulo Pisco – 22 de outubro de 2012
Eurodeputado Nuno Melo defende promoção do Português na Comissão Europeia – 23 de outubro de 2012

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