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Acordo Ortográfico: a caminho de uma Língua policêntrica – (II)

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 13 de Novembro de 2012 by ronsoar Tagged: , , , , ,

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Ventos da Lusofonia publica a segunda parte da reportagem do jornal Expresso das Ilhas, de Cabo Verde, veiculada em julho deste ano, sobre a construção do projeto lusófono para a Língua Portuguesa, transformando-a em uma “Língua policêntrica”.

Abaixo, será abordado o plano do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) de elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa. E também é mostrado um panorama sobre o positivo impacto económico a ser produzido pela uniformização das regras de escrita da Língua Portuguesa.

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–– Acordo Ortográfico: a caminho de uma Língua policêntrica (2ª. parte) ––

Do jornal Expresso das Ilhas (Cabo Verde)
16 de julho de 2012

O Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa – passo seguinte ao Acordo Ortográfico – está em fase de elaboração pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa, com previsão de término a partir de julho de 2014.
 


–– O Vocabulário Ortográfico Comum ––
O Acordo Ortográfico (AO) é, assim, apenas a ponta do icebergue, de todo um processo para repensar a Língua. “As coisas mais importantes virão pós-Acordo”, segundo o diretor-executivo do IILP.

Há, atualmente dois vocabulários ortográficos para os países de Língua Portuguesa: o brasileiro e o português. Um dos instrumentos que vão decorrer do AO, provavelmente o mais importante, é a criação de um Vocabulário Ortográfico Comum, o VOC. Este constitui o passo seguinte ao AO.

O VOC, conforme explica Gilvan de Oliveira é “uma base eletrónica que vai sistematizar num único léxico os vocabulários nacionais do Brasil e Portugal que já existem, dos PALOP [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] e de Timor-Leste que ainda não existem”, mas já estão a ser elaborados.

É uma lista de palavras com todos os verbos conjugados que ficará numa base eletrónica alojada no NOSi – o Núcleo Operacional da Sociedade da Informação, de Cabo Verde.

“Fizemos um acordo com o NOSi: a sede do IILP é aqui, então, é aqui que a base ficará”, diz o diretor-executivo do IILP. Quer dizer, quando o VOC estiver feito, o NOSi vai servir como plataforma para suportar este instrumento.

Neste momento o VOP, de Portugal, cuja base eletrónica foi desenvolvida pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) de Portugal, já foi cedido ao IILP, assim como o Vocabulário Ortográfico do Brasil.

Nesta fase 1 do VOC, está a ocorrer a fusão controlada da base portuguesa com a brasileira. Depois, serão introduzido os Vocabulários Ortográficos Nacionais (VONs), que estão a ser elaborados.

Há, como é óbvio, várias palavras repetidas nas variantes, mas há igualmente palavras que não são comuns aos oito países da CPLP. Quando uma palavra é introduzida, recebe também uma “etiqueta” que mostra os países onde é usada.

Assim, segundo Gilvan de Oliveira, esse instrumento terá dois impactos importantes: “primeiro, vai acabar com essa dicotomia de bases lexicais separadas entre Brasil e Portugal. Depois, os países que são tributários passaram também a ter o seu VON e um espaço próprio no VOC.”

De salientar, no entanto, que as palavras dos VONs têm de ter origem no corpus escrito, porque se trata de um vocabulário ortográfico. “Não quer refletir a fala das pessoas; reflete a escrita”, realça Gilvan de Oliveira.

–– O VON de Cabo Verde ––
“O produto final é o VOC da Língua Portuguesa, mas só se pode chegar lá a partir dos Vocabulários Ortográficos Nacionais de cada um dos países”, explica Adelaide Monteiro.

A linguista Adelaide Monteiro afirma que o VOC da Língua Portuguesa será composto pelos VONs de cada um dos países lusófonos.

Foi atribuída ao IILP a responsabilidade de levar a cabo a criação do VOC. Assim, quando as bases portuguesas e brasileira lhe foram cedidas, realizou-se a primeira reunião técnica para a elaboração do VOC, que aconteceu em setembro de 2011. Todos os países participaram e foi consensualizada uma metodologia comum.

“Neste momento, os técnicos envolvidos nisso já têm uma ideia de como vão trabalhar. Para mim, este é um instrumento importantíssimo, precisamente para essa questão de identificação com a Língua. Acaba por ser um instrumento que permite a legitimação do uso de determinados léxicos em Língua Portuguesa,” diz a coordenadora nacional, Adelaide Monteiro.

Se uma palavra não aparecer no VON, é porque o país não a considera viável.

“Haverá critérios. O país vai decidir qual é a regra, de acordo com o uso, com a tradição, com a produção dos escritores, com a fonética”, explica a coordenadora do projeto em Cabo Verde.

Agora, “estamos numa primeira fase de identificação das fontes, dos textos para recolha dos vocábulos”.

A calendarização apontava que o levantamento deveria estar pronto até 2013, mas eventualmente, devido à complexidade do processo e a alguns atrasos, esta data terá de ser adiada. E o VOC que se apontava para julho de 2014 deverá, por isso, estar concluído posteriormente.

–– Economia política da Língua ––
Na realidade, o Acordo Ortográfico é mais um passo na criação de uma Língua policêntrica.

Como referido, há atualmente duas normas para a Língua Portuguesa. A brasileira e a de Portugal, sendo que os PALOP são tributários desta.

Assim, “temos duas representações de português na Internet, temos dois vocabulários ortográficos e, mais importante, temos dois contactos com as empresas de Internet”.

Segundo Gilvan Müller, o Vocabulário Comum acabará com “essa dicotomia de bases lexicais separadas entre Brasil e Portugal”, que trata o português como se fosse duas línguas.

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A nível económico, avalia Gilvan de Oliveira, o AO é, pois, de grande importância, apesar de ser um aspecto pouco ouvido no debate.

Por exemplo, o gigante Google tem um contrato com o Brasil e outro com Portugal.

“Quando um angolano [ou outro cidadão dos PALOP] entra e usa um buscador, ou usa um corretor ortográfico ou usa um tradutor eletrónico, cai algum centavo na conta de alguma empresa de Portugal, porque Angola é tributária de Portugal”, explica o diretor-executivo do IILP. Os lucros da Língua são, pois, só divididos por dois.

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Outra questão é o português que tem sido tratado como se duas línguas fosse, o que cria problemas para os utilizadores e para as próprias empresas como a Google, a Microsoft e a Apple. Sabemos que é muito mais fácil encontrar na Internet informação em português do Brasil do que [no português] europeu. Isto, porque aquele é considerado uma Língua de nível A e o de Portugal, de nível B, devido ao número de falantes e ao valor económico que movimenta.

“Essa é uma situação francamente ridícula. Mostra que nós precisamos urgentemente de corrigir”, critica Gilvan.

O VOC surge assim num momento em que a indústria da Língua se estabelece como um ramo cada vez mais importante da economia e é a “base sobre a qual se constroem todos os instrumentos” dessa indústria.

“A Sociedade da Informação, ou a Sociedade do Conhecimento, é um tipo de sociedade que funciona cada vez mais com bens intangíveis, com bens comunicacionais”, e “toda essa informação é dependente da base linguística, é vendida por língua. Ou seja, cada vez que se vende um produto desses, vende-se também a Língua”.

Com a criação do VOC, passa a haver uma base eletrónica, a maior do mundo de Língua Portuguesa, que certamente interessará às empresas de Internet.

“Fazer um contrato com esta base implica que uma instituição como o IILP – que é uma instituição multilateral, de que todos os países fazem parte –, ao se beneficiar, todos os países beneficiam. Ninguém fica de fora”, analisa.

Uma ortografia unificada, como a do AO, “tem grandes implicações positivas para o português nas organizações internacionais, para o português na Internet, para o português na economia, mas ela é a expressão de uma Língua policêntrica”, diz Gilvan de Oliveira.

O diretor-executivo dá como exemplo daquilo que não se quer para a Língua Portuguesa – o caso do espanhol. Com a independência dos países sul-americanos, a Espanha percebeu que poderia conseguir manter a relação (e proveito) através da Língua. Então, com a Real Academia Espanhola, criou academias correspondentes nesses países, cujos membros eram indicados pela própria Real Academia.

“A Real Academia concentrou todos os projetos linguísticos, de maneira que são 21 países que falam espanhol, mas todos os contratos estão na mão de um: da Espanha”, conta Gilvan.

A Língua corresponde, graças a essa concentração, a 14% do PIB espanhol, enquanto os outros países não recebem nada.

“Esse é o modelo que não queremos, nós queremos o modelo do AO. Todos os oito [países] sentaram e todos participam de maneira igualitária.”

“O que estimula muito neste trabalho e que é pouco dito, que os críticos veem pouco, é que nós construímos na Lusofonia um modelo democrático de gestão da Língua, que eu tenho chamado de ‘português do do século XXI'”, conclui Gilvan de Oliveira.

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Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: a caminho de uma Língua policêntrica.
Extraído do jornal Expresso das Ilhas (Cabo Verde).
Publicado em: 16 jul. 2012.

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Leia também:
IILP: Reunião do Conselho Científico – Guiné Equatorial e Vocabulário Ortográfico Comum – 02 de junho de 2012
Preparando o Português para ser a “Língua da ciência” – 23 de setembro de 2012
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