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Linguagem popular, sim ou não – Arnaldo Niskier

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 7 de Outubro de 2012 by ronsoar Tagged: , , , , ,

Arnaldo Niskier é ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Ventos da Lusofonia transcreve o artigo assinado pelo jornalista e escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras entre 1998 e 1999. Niskier também é acadêmico correspondente no Brasil da Academia de Ciências de Lisboa.

Nele, o autor faz uma clara distinção entre dois fenômenos da Língua Portuguesa (e das grandes línguas de expressão mundial): o que são os regionalismos – que “são sempre aceitos” – e o que é linguagem coloquial ou popular – “que se admite na fala, mas se condena na escrita”. E ainda acrescenta, em defesa do Acordo Ortográfico de 1990, relativo exclusivamente à escrita e não à fala da Língua: “Cada povo que cuide das suas peculiaridades prosódicas. Mas escrever de uma só forma é medida de inteligência e simplificação, que já vem tarde.”

O artigo foi originalmente publicado no jornal Tribuna de Petrópolis (Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro), na edição de 2 de agosto de 2012.

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–– Linguagem popular, sim ou não ––

Do jornal Tribuna de Petrópolis
Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil
2 de agosto de 2012


 

No debate em torno de uma conferência, na “Semana de Arte” promovida pela Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, no Píer Mauá, um aluno do interior perguntou se deveríamos condenar a linguagem popular, “pois esse pessoal fala de forma inadequada”.

Primeiro, tivemos que esclarecer a diferença entre linguagem popular e regionalismos. Os termos utilizados por escritores como Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, José Cândido de Carvalho, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado e Dias Gomes, para só ficar nesses exemplos, são típicos da cultura local, que deve sempre ser respeitada. As expressões, apesar de inovadoras, podem vir a figurar em dicionários e vocabulários de transmissão da norma culta ou padrão, sem nenhuma dificuldade. Os regionalismos são sempre aceitos.

Em segundo lugar, temos a questão controvertida da chamada linguagem popular. O filólogo Antônio Houaiss –(1)– chegou a popularizar o verbete “mengo”, diminutivo do clube mais popular do Brasil –(2)–. Mas ele jamais aceitaria adotar a palavra “pobrema” ou “aroporto” – e dar-lhes o status de uma expressão legítima do português contemporâneo.

Vê-se, pois, que há uma abissal diferença entre linguagem popular e regionalismos. A prosódia, que é a forma de dizer a palavra, tem total liberdade, não se devendo exigir que um gaúcho fale com a mesma pronúncia do que um paraense. Ou que, em virtude do Acordo de Unificação da Língua Portuguesa, que é eminentemente ortográfico, passemos a impor a Portugal ou Angola, por exemplo, o nosso gostoso e incomparável sotaque. Cada povo que cuide das suas peculiaridades prosódicas. Mas escrever de uma só forma é medida de inteligência e simplificação, que já vem tarde.

O Museu da Língua Portuguesa, de São Paulo, realizou uma interessante e concorrida mostra, intitulada “Menas – o Certo do Errado, o Errado do Certo” –(3)–, em que todas essas questões foram debatidas por professores e especialistas. E claro que o ex-presidente Lula foi muito lembrado, pois no início do seu primeiro mandato presidencial era comum utilizar a palavra “menas”. Foi devidamente aconselhado e abandonou o hábito.

Voltou à tona o “caso Jânio Quadros” –(4)–, quando se atribuiu ao ex-presidente que renunciou a expressão “Fi-lo porque qui-lo”. Uma vez, em sua residência, após a renúncia, num papo agradável, tivemos o ensejo de perguntar sobre isso. Sua resposta foi peremptória: “Senhor professor, eu nunca disse isso. Foi invenção da imprensa. A frase certa –e que eu disse– foi ‘Fi-lo porque quis.’ Quando essas coisas se entranham e são exploradas politicamente, o que fazer? Procurei sempre esclarecer o assunto, sem muito êxito.”

Os puristas, especialmente os gramáticos, condenam esses equívocos, tipo “ela está drumindo” ou “o incêndio me trouxe perca total”. São frutos da linguagem coloquial, que se admite na fala, mas se condena na escrita.  :::

Instalações da exposição “Menas – o Certo do Errado, o Errado do Certo”, que esteve em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, de São Paulo, em 2010. 

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–– Notas: ––
–(1)–  Antônio Houaiss (1915-1999), filólogo brasileiro, autor do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2000) e um dos negociadores brasileiros da elaboração do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.

–(2)–  Clube de Regatas do Flamengo – do Rio de Janeiro, é um dos mais populares clubes de futebol do Brasil, fundado em 1895.

–(3)–  A exposição “Menas – o Certo do Errado, o Errado do Certo” esteve em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, de São Paulo, em 2010.

–(4)–  Jânio da Silva Quadros (1917-1992), ex-presidente da República do Brasil, eleito em 1960 e que renunciou ao cargo em agosto de 1961, sete meses após tomar posse. Jânio Quadros foi professor de Língua Portuguesa antes de iniciar a carreira política.

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NISKIER, Arnaldo. Linguagem popular, sim ou não.
Do jornal Tribuna de Petrópolis – Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil.
Publicado em: 02 ago. 2012.
Extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras.

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