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A Língua Portuguesa pode voltar a despertar interesse no Japão – (II)

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 2 de Outubro de 2012 by ronsoar Tagged: , , , ,

Edifício da Faculdade de Estudos Estrangeiros da Universidade de Osaka, um dos mais importantes centros acadêmicos de estudos da Língua Portuguesa no Japão.
 

Ventos da Lusofonia mostra a segunda parte da reportagem sobre o aumento da projeção da Língua Portuguesa no Japão – uma etapa nova da presença da Língua entre a sociedade japonesa. Mas a reportagem, em vez de dar um alcance da Língua no âmbito da Lusofonia, centra as suas atenções, especificamente, sobre o português brasileiro. A reportagem foi publicada no Brasil pela revista econômica Exame, em 24 de setembro de 2012.

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–– Língua Portuguesa pode voltar a despertar interesse no Japão (2ª. parte) ––

Elton Alisson, da Agência Fapesp
Da revista Exame (Brasil)
24 de setembro de 2012

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:::  Aumento do contato com brasileiros e atual projeção do Brasil no cenário mundial podem aumentar interesse pelo ensino e aprendizagem do idioma no país.  :::

–– Obstáculos para a aprendizagem da Língua ––

O professor Akira Kono, da Universidade de Osaka, entre estudantes: cresceu o interesse pela Língua Portuguesa nas universidades japonesas.

De acordo com o pesquisador, alguns dos maiores obstáculos para os japoneses aprenderem português são inerentes à própria dificuldade que têm em aprender línguas estrangeiras, de forma geral, devido à falta de semelhanças do idioma japonês com outras línguas.

Ao contrário das línguas românicas – como o português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno, que possuem afinidades que facilitam o ensino e a aprendizagem –, ainda não se sabe exatamente qual a raiz e a origem do idioma japonês.

Uma das hipóteses levantadas por Kono é que o idioma – que é extremamente peculiar e não tem distinção fonética entre as letras L e R, por exemplo – seja resultado do cruzamento de várias línguas, como o pidgin e o crioulo.

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“Gramaticalmente, a língua coreana é a mais próxima do japonês, mas a fonologia e o léxico são diferentes. Então, nesse sentido somos ‘órfãos’ em relação à filiação a famílias linguísticas e para dominarmos qualquer língua, especialmente as ocidentais, é preciso ter garra, perseverança e nos esforçarmos muito”, avaliou Kono.

Outra barreira para ensinar e aprender a Língua Portuguesa, segundo o pesquisador, é o facto de se dividir entre o português europeu e o português brasileiro, que tem em alguns aspectos suas próprias normas gramaticais.

No português falado em Portugal, por exemplo, de acordo com Kono, ainda se ensinam as seis formas verbais (eu, tu, ele, nós, vós e eles), ao passo que no Brasil elas estão sendo reduzidas para quatro, com o desaparecimento do pronome “tu” e a substituição de “nós” por “gente” ou “a gente”.

Universidade Sophia, de Tóquio, um dos primeiros centros universitários do Japão com departamento de Língua Portuguesa.

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“Eu estou muito sensibilizado e pretendo escrever um artigo sobre essa mudança radical e a simplificação do paradigma de pronomes na Língua Portuguesa no Brasil, com a expansão cada vez maior do uso de ‘a gente’ ou ‘gente’ em vez de ‘nós’, substituindo o verbo na terceira pessoa, que está fazendo com que o uso do sujeito seja mais frequente”, disse Kono.

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“Eu já tinha reparado antes nessas mudanças por meio de trabalhos publicados por linguistas brasileiros, mas estou percebendo por meio da leitura de jornais e de outras publicações do Brasil disponíveis na Internet que esses fenômenos, que até então eram mais observados na linguagem falada, estão penetrando cada vez mais na linguagem escrita”, afirmou Kono.

Contudo, na avaliação do pesquisador, essas mudanças são positivas, fazem parte do processo natural de evolução de qualquer língua, que é um mecanismo dinâmico e está em constante mutação, e já ocorreram fenômenos semelhantes com outros idiomas, como o inglês e o francês.

Já a recente reforma ortográfica da Língua Portuguesa, que aboliu, por exemplo, o uso do trema em algumas palavras, segundo ele prejudicou o ensino e a aprendizagem do idioma por estudantes estrangeiros.

“A retirada do trema de palavras como ‘frequente’ e ‘cinquenta’ fez com que nossos alunos acabassem pronunciando expressões de forma errada. Essa reforma ortográfica não teve muito cabimento”, avaliou.

Outro problema para ensinar o português do Brasil no Japão, de acordo com ele, é o desconhecimento sobre aspectos culturais, políticos, geográficos e históricos do país, que são em parte compensados pelo envio de estudantes japoneses para o Brasil para conhecer a realidade brasileira, pela leitura de livros e audição de músicas de compositores brasileiros.

“Eu me apaixonei pela Língua Portuguesa e aprendi várias expressões ouvindo música popular brasileira de compositores como Noel Rosa, Chico Buarque e Caetano Veloso. Esse é um ótimo método que eu adoto em sala de aula”, disse o pesquisador, que se interessou em aprender português ao ouvir no rádio ainda criança a versão em inglês de Garota de Ipanema, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, cantada por Frank Sinatra.

Atualmente, de acordo com o pesquisador, a Universidade de Osaka oferece 30 vagas por ano para o curso de graduação em Língua Portuguesa, que tem duração de quatro anos.

Além de Língua Portuguesa, o Departamento de Línguas da universidade japonesa também é voltado ao estudo e ensino de mais 24 idiomas, incluindo o japonês e o inglês, que é considerado a primeira língua estrangeira do país.

–– Colaboração científica com o Brasil ––

Celso Lafer: relações mais estreitas entre o Japão e o Estado brasileiro de São Paulo.

Representante no Brasil entre 1995 e 1997 da Sociedade para a Promoção da Ciência do Japão (JSPS, sigla em inglês) – a maior entidade de apoio à pesquisa no Japão –, por intermédio de um escritório que a instituição mantinha em São Paulo com apoio do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, de acordo com Kono, o Brasil é um forte candidato para o Japão aumentar a cooperação científica, por ser hoje uma das maiores potências econômicas do mundo.

“O trabalho de ensinar e disseminar a Língua Portuguesa e a cultura brasileira no Japão deve facilitar o intercâmbio entre o Brasil e o Japão em ciências, que precisa ser muito mais intensivo”, indicou.

Na avaliação dele, um dos principais obstáculos para aumentar a cooperação científica do Japão com o Brasil é o desconhecimento japonês sobre o sistema federativo brasileiro, que, apesar de centralizado, permite que os Estados tenham autonomia na elaboração e execução de suas políticas, como a científica e tecnológica.

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Como o Japão é pequeno geograficamente, suas políticas são bastante centralizadas e cada província não tem muito poder, é difícil para os dirigentes japoneses entenderem, por exemplo, a autonomia de Estados brasileiros, como São Paulo, que é responsável por mais de 50% da ciência produzida no Brasil.

“Nós devemos reconhecer a importância do Estado de São Paulo e, consequentemente, o papel que a Fapesp vem desempenhando para o avanço da ciência no Brasil”, disse Kono.

De modo a facilitar a aproximação entre pesquisadores do Estado de São Paulo com os do Japão, para intensificar a cooperação científica entre os dois países, em março de 2013 a Fapesp realizará no país um encontro com representantes da JSPS.

O evento tem o objetivo de reunir pesquisadores do Brasil com os do país para apresentar os últimos avanços na produção científica e os resultados científicos mais expressivos que obtiveram nos últimos anos, em diferentes áreas, com vistas a incrementar a cooperação científica.

“Nós temos uma grande preocupação aqui na Fapesp com o processo de internacionalização da ciência e consideramos que é muito importante estimularmos uma relação científica mais intensa com países como o Japão. Por isso que promoveremos este encontro no país”, disse Celso Lafer [ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil], presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Além disso, na avaliação de Lafer, o Estado de São Paulo tem uma relação própria com o Japão, em função de ter recebido a primeira leva de imigrantes japoneses no Brasil, no período de 1908 a 1941. “Em nenhum outro Estado brasileiro há tanta percepção do significado da importância dos laços que temos com o Japão do que em São Paulo”, disse Lafer.

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ALISSON, Elton. Língua Portuguesa pode voltar a despertar interesse no Japão.
Da Agência Fapesp de Notícias.
Extraído da revista Exame (Brasil).
Publicado em: 21 set. 2012.

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