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A Língua Portuguesa pode voltar a despertar interesse no Japão – (I)

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 2 de Outubro de 2012 by ronsoar Tagged: , , , ,

Imigrantes japoneses recebem aula de Língua Portuguesa a bordo do navio Kasato Maru, com destino ao Brasil em 1908: a presença de longa data da Língua Portuguesa no Japão passou por diversas etapas.
 

O interesse pelo aprendizado da Língua Portuguesa no Japão vive um momento crescente. O crescimento econômico de países da Lusofonia, bem como as novas oportunidades de relações comerciais advindas desse desenvolvimento, despertaram entre os japoneses a necessidade de domínio da Língua Portuguesa. Por enquanto, são as universidades que estão à frente do Ensino de Português Língua Estrangeira para o público japonês.

Ventos da Lusofonia mostra, em duas partes, uma reportagem sobre esse aumento da projeção da Língua Portuguesa no Japão – que, na verdade, é uma etapa nova da presença da Língua naquele país, cujos contatos iniciais remontam à Era das Grandes Navegações, no século XVI. Mas a reportagem, em vez de dar um alcance da Língua no âmbito da Lusofonia, centra as suas atenções, especificamente, sobre o português brasileiro. Confira a reportagem a seguir, publicada no Brasil pela revista econômica Exame, em 24 de setembro de 2012.

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–– Língua Portuguesa pode voltar a despertar interesse no Japão ––

Elton Alisson, da Agência Fapesp
Da revista Exame (Brasil)
24 de setembro de 2012

:::  Aumento do contato com brasileiros e atual projeção do Brasil no cenário mundial podem aumentar interesse pelo ensino e aprendizagem do idioma no país.  :::

O professor Akira Kono, da Universidade de Osaka, entre estudantes: cresceu o interesse pela Língua Portuguesa nas universidades japonesas.

O aumento do contato direto de japoneses com brasileiros nos últimos anos, em função de fatores como a globalização e o destaque que o Brasil vem ganhando no cenário mundial, podem voltar a despertar o interesse pelo ensino e aprendizagem da Língua Portuguesa no Japão.

A avaliação foi feita por Akira Kono, professor de Língua Portuguesa e Linguística na Escola de Letras e Cultura da Universidade de Osaka, no Japão, durante uma conferência que proferiu no dia 20 de setembro no auditório da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sobre o Ensino de Português no Japão.

O pesquisador participou no dia anterior de um encontro com dirigentes da Fapesp com o objetivo de discutir sobre possibilidades de se intensificar a cooperação científica de pesquisadores do Estado de São Paulo com os do Japão.

De acordo com o pesquisador, o contato dos japoneses com a Língua Portuguesa ocorreu em três diferentes etapas, que se traduziram em influências tanto no idioma estrangeiro quanto no nativo.

O primeiro contato ocorreu em 1543, com a chegada de missionários jesuítas portugueses na ilha de Tanegashima, no sul de Kiushu, que foram ao país com o intuito de disseminar o catolicismo.

Durante esse período, os jesuítas portugueses realizaram estudos sobre a língua japonesa e publicaram livros, como a A Arte da Lingoa de Iapam e a Arte Breve da Lingoa Iapoa, escritos pelo padre João Rodrigues Girão e publicados, respectivamente, em 1608 e 1620. Porém, essa etapa durou até meados do começo do século XVII, quando o cristianismo foi proibido no Japão e os jesuítas foram expulsos do país.

A chegada dos portugueses à ilha de Tanegashima em 1543 foi retratada em biombos japoneses da época.

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“Já nesta primeira etapa do contato entre os japoneses e portugueses, houve uma certa influência entre as duas línguas”, disse Kono.

“Nas cartas que os jesuítas mandaram do Japão, é possível perceber alguns léxicos do japonês, como ‘daimiô’, que significa ‘senhor feudal’ em japonês. E do lado japonês houve alguns casos isolados de japoneses que aprenderam português, mas não foram muitos”, contou.

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A segunda etapa do contato dos japoneses com a Língua Portuguesa, segundo Kono, aconteceu no Brasil, em 1908, com a primeira fase da imigração japonesa no país, encerrada em 1941, quando o Japão ingressou na Segunda Guerra Mundial.

Uma das maiores potências mundiais na época – com grandes conglomerados empresariais como Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo –, o Japão vivia ao mesmo tempo graves problemas econômicos, com desemprego elevado e condições de pobreza no campo.

Em função disso, o país enfrentava críticas de segmentos da sociedade que não concordavam com a forma com que vinha se desenvolvendo, conquistando países à força, como fez no período conhecido como “imperialista”, em que invadiu a Coreia, a Manchúria e parte da China.

Uma das alternativas identificadas para continuar a crescer pacificamente era por meio da imigração, vista como uma forma em que ambos os lados ganhavam – tanto o país que enviava como o que recebia os imigrantes – e diferente da conquista militar, em que só o país invasor se beneficia.

Por essas e outras razões, o governo japonês decidiu encampar políticas de imigração de seus cidadãos para países como o Brasil, que precisava de mão de obra para as lavouras de café em São Paulo.

“Os primeiros imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil não vieram bem preparados e não sabiam português. Mas, pouco a pouco, começaram a assimilar palavras portuguesas na língua japonesa que falavam na colônia e eram mais relacionadas ao trabalho agrícola que faziam, como ‘enxada’ e ‘camarada'”, disse Kono.

Mas, de acordo com o pesquisador, só quase oito anos depois do início da imigração japonesa para o Brasil, foi criado, em 1916, o primeiro curso de graduação em Língua Portuguesa pela Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio.

“Eu acho que, naquela época, as autoridades japonesas ainda não tinham reconhecido a importância da Língua Portuguesa para suas relações exteriores”, avaliou Kono.

Desembarque de imigrantes japoneses do navio Kasato Maru no porto de Santos em 1908: início da presença japonesa no Brasil.

“Já existiam cursos de espanhol no Japão, que se achava que era suficiente para se relacionar com a América do Sul. Mas, ao começar a se relacionar com o Brasil, se reconheceu a importância de aprender a Língua Portuguesa e se decidiu criar um curso de graduação voltado para o idioma”, disse o pesquisador.

Para iniciar o curso, a universidade pública japonesa recrutou o historiador português João Abranches Pinto, que residia no Japão na época e era casado com uma japonesa.

Com isso, embora a Língua Portuguesa fosse muito importante para o país oriental, o primeiro curso do idioma criado no Japão foi mais voltado para o português de Portugal. Por outro lado, de acordo com Kono, a iniciativa teve o importante papel de fazer com que, pelo menos, o Ensino de Português fosse mantido oficialmente no sistema educacional japonês.

Só em 1964, a Universidade Sophia, de Tóquio, uma instituição particular, criou um departamento de português, fundado por padres brasileiros, onde Kono ingressou em 1967 e iniciou seus estudos do idioma falado no Brasil.

No mesmo ano, a Universidade de Estudos Estrangeiros de Kyoto também estabeleceu um Departamento de Estudos Lusos-Brasileiros para ensinar português.

Já em 1979, também foi fundado um curso de português falado no Brasil na Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka, que em outubro de 2007 passou a ser uma faculdade da Universidade de Osaka, para a qual Kono foi o primeiro professor contratado.

Na década de 1990 – que marca a terceira etapa do contato dos japoneses com a Língua Portuguesa, quando o Japão mudou sua política de imigração e muitos brasileiros foram trabalhar no país –, a Universidade de Tenri também criou um curso de português. Porém, o curso foi abolido em 2010.

“As universidades japonesas, especialmente as particulares, estão cortando cursos, que não só os de português, em função da diminuição da população do país nos últimos anos”, explicou Kono.

Segundo o pesquisador, o corpo docente que ensina português no Japão é composto, em sua maioria, por professores japoneses, graduados em português por uma das quatro universidades que possuem cursos voltados ao idioma no país. Mas nem todos são especialistas no Ensino de Português como Língua Estrangeira.

“Nossa abordagem do idioma é mais tradicional, voltada a ensinar o aluno a não só ler em português, mas também a se comunicar com os brasileiros e ter alguma fluência no idioma, que representa um grande desafio. É muito difícil para os alunos dominarem a Língua Portuguesa”, afirmou Kono.

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–– A matéria continua no próximo artigo. ––

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