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Estrangeirismos de estrangeirismos – Arnaldo Niskier

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 30 de Setembro de 2012 by ronsoar Tagged: , , ,

Arnaldo Niskier é ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Ventos da Lusofonia transcreve o artigo assinado pelo jornalista e escritor Arnaldo Niskier, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras entre 1998 e 1999. Niskier também é acadêmico correspondente no Brasil da Academia de Ciências de Lisboa.

O tema abordado pelo autor são as palavras de importação, as que são provenientes de outras línguas e que são usadas na comunicação em Língua Portuguesa, adaptadas ou não a ela. São os genericamente chamados estrangeirismos, que fazem parte da Língua, mas cujo uso exige moderação, sobretudo quando há termos equivalentes em português. O autor declara no artigo que, “hoje, estamos muito mais às voltas com a língua inglesa. Ainda assim, sem defender o seu emprego exagerado, principalmente quando há termos equivalentes na Língua Portuguesa. O modismo deve ser condenado, até mesmo pelo seu caráter transitório.”

O seguinte artigo foi publicado no Brasil, na edição de 6 de setembro de 2012, no jornal Folha Dirigida, especializado em concursos para o acesso à carreira pública.

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–– Estrangeirismos de estrangeirismos ––

Do jornal Folha Dirigida (Brasil)
6 de setembro de 2012

Quando estive em Tóquio, graças a um voo inaugural da saudosa Varig –(1)–, espantei-me, logo no primeiro jantar, com o pedido de “pão” ao garçom, feito por um nosso anfitrião. Pão, o que seria pão em japonês? O espanto maior é que era pão mesmo, palavra deixada entre os nipônicos pela passagem de jesuítas portugueses por aquelas paragens.

Tal fato me remeteu para o livro Estrangeirismos, escrito por Cândido de Figueiredo –(2)–, em 1902, em que ele afirmava que “há estrangeirismos de estrangeirismos”. Enriquece a obra com vários exemplos, mostrando a mobilidade dos termos já àquela época. São suas palavras: “Uns são imprescindíveis e fazem parte do idioma nacional; outros convenientes, e do seu discreto emprego podem advir vantagens; outros, ainda, são toleráveis, e procede louvavelmente quem os dispensa; e muitos há, muitíssimos até, que só se empregam por indesculpável ignorância ou por condenável desapreço à pureza da Língua.”

Na época em que Cândido de Figueiredo, da Academia das Ciências de Lisboa, escreveu essa obra, naturalmente os estrangeirismos mais citados eram os galicismos e os latinismos, por motivos óbvios. O latim foi a língua que com mais abundante vocabulário contribuiu para a formação da linguagem portuguesa, especialmente quando nos referimos à norma culta.

É claro que, um século depois, com a incrível revolução científica e tecnológica, essa realidade modificou-se e, hoje, estamos muito mais às voltas com a língua inglesa. Ainda assim, sem defender o seu emprego exagerado, principalmente quando há termos equivalentes na Língua Portuguesa. O modismo deve ser condenado, até mesmo pelo seu caráter transitório.

Sobre o tema, não podemos deixar de referir ao tráfego de palavras, como revelam os estudos de Rosa Cunha-Henckel –(3)–, quando se dedicou aos africanismos de origem tanto na obra de José Lins do Rego (1901-1957). Aí podem ser pinçadas palavras que hoje fazem parte do nosso cotidiano, de que são exemplos expressivos as seguintes que selecionamos: mucama, cachimbo, caçula, cafuné, moqueca, quitanda, quilombo, senzala, tanga e zumbi, para só ficar nessas.

No trabalho lapidar de Cândido de Figueiredo, mais extensos, podemos colher um número maior de palavras importadas, mas que hoje fazem parte indissociável do nosso cotidiano. Vamos aos exemplos a nosso ver mais significativos, sem esgotar a matéria: abajur, alter ego, avalanche, bife, bibelô, cabaré, cassetete, deboche, descoberta, detalhe, drapejar, elite, emoção, flanar, grátis, golpe de vista, hangar, idem, isolado, item, jockey, lavabo, legenda, madame, menu, morgue, persona grata, pic-nic, puré, quiproquó, repórter, restaurante, sanduíche, silhueta, sui generis, toalete, turbina, ultimatum, verve, viável, iate etc. Para aprofundar mais o exame dessas palavras, aconselha-se pesquisar no “Vocabulário de palavras e frases latinas e estrangeiras” do Dicionário de Moraes (nona edição) –(4)–.  :::

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–– Notas: ––
–(1)–  Varig – Viação Aérea Rio-Grandense, uma das primeiras companhias aéreas do Brasil. Foi fundada em 1927, porém, teve sua falência decretada em 2006.

–(2)–  António Cândido de Figueiredo (1846-1925), filólogo português, foi o autor do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, publicado em dois volumes, cuja primeira edição é datada de 1899. A obra – um dos mais renomados dicionários publicados em Portugal – teve ainda mais seis reedições.

–(3)–  A professora doutora Rosa Cunha-Henckel, natural do Recife, leciona Língua Portuguesa no Instituto de Filologia Românica da Universidade Livre de Berlim, e no Instituto de Romanística da Universidade Friedrich Schiller de Iena, ambas na República Federal da Alemanha.

CUNHA-HENCKEL, Rosa. Tráfego de palavras: africanismos de origem banto na obra de José Lins do Rego. Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 2005. 269 p.

–(4)–  Antônio de Moraes Silva (1755-1824), nascido no Rio de Janeiro, foi o autor de um dos dicionários pioneiros da Língua, o Diccionario da Lingua Portugueza, feito em dois volumes e publicado em Lisboa em 1789. A nona edição do Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio de Morais Silva, com o “Vocabulário de palavras e frases latinas e estrangeiras”, presume-se ter sido publicada entre 1900 e 1922.

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NISKIER, Arnaldo. Estrangeirismos de estrangeirismos.
Do jornal Folha Dirigida (Brasil).
Publicado em: 6 set. 2012.
Extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras.

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