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Vladimir Passos de Freitas – o Português e a redação dos alunos de Direito

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 28 de Setembro de 2012 by ronsoar Tagged: , , , ,

Vladimir Passos de Freitas é desembargador federal aposentado do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, do qual foi presidente e que abrange os Estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. O autor é também professor doutor de Direito Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

O artigo, de sua autoria, trata do mau desempenho dos alunos dos cursos de Direito no Brasil quanto à competência de redigir um texto na Língua Portuguesa formal. Tal problema ganha maior dimensão ao se levar em conta que a boa escrita será o principal instrumento de trabalho dos futuros juristas, advogados, juízes e consultores de órgãos públicos.

O descuido dos estudantes brasileiros de Direito quanto ao uso de uma Língua Portuguesa elevada é abordado a seguir, no artigo publicado em agosto de 2012 pela revista especializada Consultor Jurídico, transcrito em Ventos da Lusofonia.

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–– O português e a redação dos alunos de Direito ––

Vladimir Passos de Freitas
do sítio Consultor Jurídico – Brasil
19 de agosto de 2012


O português dos alunos de Direito vem se mostrando cada vez mais deficiente. E não é privilégio desta ou daquela faculdade, pública ou privada, nem mesmo de determinada região. É nacional. Frases incompreensíveis, palavras utilizadas erroneamente, dificuldade extrema em redigir um texto, impossibilidade de pôr no papel o que se pensa, tudo isto vai se tornando rotina nas atividades dos estudantes da graduação.

O facto não passa despercebido aos profissionais da área. Professores comentam, as faculdades de Direito notam, escritórios de advocacia e órgãos públicos alertam os estagiários, que por vezes são mandados embora ou colocados em setores mais simples, onde não seja necessário escrever.

A situação, que se agrava a cada ano, é altamente negativa. Sofrem os estudantes, pois vislumbram as dificuldades que terão na vida profissional, perdem os que os empregam, porque o serviço que prestam não corresponde às expectativas, penam as faculdades de Direito, inclusive pelos reflexos que se fazem sentir nos exames da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], com o baixo nível de aprovação.

De quem é a responsabilidade? Que fazer?

O primeiro passo é reconhecer que estamos diante de um momento de virada cultural, de mudanças radicais. A começar pelo uso dos aparelhos eletrônicos. Mensagens eletrônicas, torpedos nos celulares, manifestações nas redes sociais, costumam ser curtas, diretas, telegráficas. Mudam comportamentos, formas de expressão, regras de conduta. Uma das consequências é a total alteração da forma de comunicar-se por escrito, o que atinge um número significativo de jovens.

Poucos com mais de 40 anos saberão o que significa a frase “quer teclar comigo?”. Resposta: trocar mensagens. Mais difícil será compreender que “sussi” é sossego e “blz” quer dizer beleza, tudo bem. Dois pontos e um colchete – 🙂 – significa feliz, mas dois pontos e um O – :O – quer dizer surpresa, “beijaum” é um beijo grande. Estamos diante de uma nova e diminuta linguagem, o internetês. Consulte-se a respeito a Wikipédia (clique aqui para ler).

Além disto, palavras estrangeiras são incluídas no vocabulário, por vezes substituindo alguma do português (deletar, por “apagar”), em outras, traduzidas indevidamente (inicializar ao invés de “iniciar”) ou mesmo inovando por completo (p. ex., printar para dizer “imprimir”).

Socialmente, o jovem que não se expressar desta forma estará excluído do grupo. Com certeza ninguém jamais ouviu ou ouvirá uma jovem dizendo “estou louca para sair com ele, porque seu português é maravilhoso, fala e escreve muito bem”.

Em um segundo plano, mas também de grande relevância, são as deficiências do Ensino Médio e Fundamental. Não é preciso ser um especialista para saber que houve uma queda brusca no nível de ensino e que não se reprova ninguém, principalmente nas escolas públicas. Segundo a mídia impressa: “A discreta melhora apresentada nos últimos anos no Ensino Médio público cessou em 2011” (Folha de S. Paulo, 15 de agosto de 2012, C1) –(*)–.

A falta de domínio do português escrito formal é refletida nos baixos índices de aprovação dos exames recentes da
Ordem dos Advogados do Brasil.

Tudo isto faz com que, ao entrar na Faculdade de Direito, o jovem acadêmico tenha grande dificuldade em expressar-se, inclusive oralmente. O seu vocabulário reduz-se a poucas palavras. Sem vocabulário, não se expõem as ideias, não se transmite o que se pensa. Daí porque surgem, nos trabalhos acadêmicos, nos testes ou nos estágios, petições lacunosas ou confusas. Ofício, carta, memorandum, nem pensar.

Não é raro que o professor encontre parágrafos incompreensíveis, petições que repetem a mesma coisa duas ou três vezes, ou referências que nada têm a ver com o assunto tratado, porque foram copiadas por quem não consegue escrever. Há uma mescla de mau português com dificuldade de organizar as ideias.

Se esta situação não é boa para qualquer estudante universitário, ela é ainda pior para o acadêmico de Direito. Sim, porque nas profissões jurídicas a exposição de ideias, falando ou escrevendo, é a imprescindível rotina de trabalho. Ao contrário, a importância será menor, por exemplo, para um profissional de área técnica.

O estudante de Direito deve procurar sair dessa situação. A regra número um é ler – de preferência, autores com redação clara, rica em sinônimos, que organize bem suas ideias. Machado de Assis, por exemplo. O editorial dos bons jornais também ajuda.

A segunda regra é escrever. Fugir da cômoda repetição de textos alheios, do “copia e cola”, do uso absoluto de modelos. Redigir é um excelente meio de aprimorar a escrita. Uma folha por dia, sobre qualquer assunto, pedindo a alguém que leia e corrija, pode gerar excelentes resultados. Escrever o que se pensa, na ordem direta.

Por parte das faculdades de Direito, também muito se pode fazer. Em primeiro lugar, enfrentando o problema. Obviamente, elas não são a causa, mas nem por isso deixam de sofrer as consequências. A queda no nível, com a consequente reprovação em Exame da OAB e concursos públicos, atinge a imagem do estabelecimento de ensino.

É preciso que se inclua o português nos cursos de graduação, como matéria obrigatória. No primeiro período e de preferência com um professor rigoroso. Se a faculdade não quiser colocar com todas as letras que está ensinando português, pode batizar a matéria com um nome mais pomposo como “Análise de texto” ou “Princípios de redação”. E se houver dificuldades com a grade horária, já que cinco anos não são suficientes para tantas matérias, que pelo menos se ofereça um módulo, isto é, aulas a que se assistem por inscrição voluntária ou ainda curso à distância, via Internet.

Os professores devem auxiliar os estudantes, tendo em mente que eles estão inseridos em um mundo novo, com regras próprias. E também, na medida do possível, evitar provas objetivas, pois não auxiliam na prática da redação. Provas orais também são importantes, porque obrigam o aluno a saber expressar-se. É dizer, não basta criticar, contar os erros encontrados nas provas. É preciso ajudar, orientar.

Os órgãos que administram as carreiras públicas também têm um papel a cumprir. Por exemplo, cursos de redação, presenciais ou à distância, podem auxiliar os assessores dos agentes do Ministério Público. Incluir o português nas provas de ingresso também é uma boa providência (o TJ-SP [Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo] inclui Língua Portuguesa nos concursos de ingresso na magistratura). Colocar a matéria nos cursos que se ministram após a posse no cargo também é importante.

Em suma, o problema aí está e é preciso enfrentá-lo. E os estudantes necessitam ter em mente que, mesmo neste novo mundo, ele sempre exigirá do profissional do Direito clareza de ideias e eficiência na exposição das teses. :::

–– Nota ––
–(*)– “Com ensino médio estagnado, MEC já planeja mudanças no currículo.” Do jornal Folha de S. Paulo (São Paulo, Brasil), 15 ago. 2012, página C1.

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FREITAS, Vladimir Passos de. O português e a redação dos alunos de Direito.
do sítio Consultor Jurídico – Brasil.
Publicado em: 19 ago. 2012

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