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Macau: a memória dos riquexós

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 24 de Setembro de 2012 by ronsoar Tagged: , ,

::: Triciclos tradicionais podem acabar a breve trecho :::

Cecília Lin
Do jornal Hoje Macau
Macau, China

Os triciclos riquexós estão sob ameaça de extinção em Macau.
 

Em Macau, os triciclos eram utilizados pelos residentes como forma de transporte regular nos anos 1960. Agora, só os turistas fazem uso deste serviço, até porque os mais jovens não querem dar continuidade à profissão.

Com o aumento dos acidentes rodoviários, causados pelos autocarros, crê-se uma boa altura para trazer à memória da população esta profissão tradicional e, de outro modo, lamentar o seu desaparecimento.

Os primeiros meios de transporte na história de Macau foram as liteiras chinesas, de que só se serviam os ricos ou comerciantes. Antes da Segunda Guerra Mundial, riquexós de duas rodas, que só faziam uso da capacidade de pedalar dos homens e do seu impulso das mãos para avançar, acabam por tornar-se o meio de transporte principal para o povo.

Cerca de mil triciclos entraram no território em 1948, substituindo os riquexós e ficaram o novo meio de transporte por excelência a um preço mais acessível. Este período foi o ponto alto dos triciclos na história de Macau. O segundo pico foi nos anos 1960, causa do rápido crescimento populacional face ao êxodo continental. Até aos anos 1970, os triciclos eram não só utilizados por residentes mas também por turistas de Hong Kong, imagens patentes nos filmes de época da região vizinha. Este foi, de resto, o último pico na história dos triciclos.

–– Perdeu o papel de transporte público ––

Hoje, há apenas cerca de 60
riquexós em circulação em Macau.

Os autocarros, que hoje são o transporte público por excelência, foram passando por diferentes fases de desenvolvimento, cada vez mais desde o nascimento no ano de 1925.

A Sociedade de Transportes Coletivos de Macau estabeleceu-se em 1986, logo seguida da companhia Transportes Urbanos de Macau, nascida em 1988, até que em 2011, a terceira companhia do autocarro Reolian estabeleceu-se no mercado de Macau.

Em fevereiro deste ano, concretizou-se a primeira fase do Metro ligeiro, que tudo indica, vai entrar em funcionamento em maio de 2015.

Os triciclos só permanecem no território, enquanto transporte público, até aos anos 1960, pelo que agora são um meio que funciona em exclusivo para o transporte de turistas, que partem de três pontos turísticos de Macau: Leal Senado, Templo de A-Má e as Casas-Museu da Taipa, de quinta-feira a domingo.

O Governo deixou de atribuir licenças para os triciclos desde a administração portuguesa. De qualquer forma, também não há jovens que queiram trabalhar nesse setor, que depende da força do motorista e não tem um rendimento fixo. Estima-se assim que em dez anos a profissão ficará extinta e permanecerá apenas para a memória histórica da cidade.

–– Os desafios atuais ––
De acordo com o diretor da Associação dos Condutores de Triciclos de Macau (ACTM), Lei Kuok Wai, embora existam 60 triciclos em Macau, haverá menos de trinta condutores do triciclo nesta profissão até 2012. A maioria deles vão mudar para outro setor por causa do rendimento não fixo.

Como a profissão é voluntária e já não há produção de triciclos, cada vez se regista um menor número devido a danos causados.

O custo de uma viagem turística a bordo de um triciclo pode custar entre 200 a 250 patacas [cerca de 20 a 24,75 euros]. Na época alta de turismo, um condutor do triciclo pode ganhar de 6.000 a 8.000 patacas [de 595 a 793 euros] por mês; ao contrário, na época baixa para o turismo, ganha-se em torno de 3.000 patacas [297 euros] por mês.

Nas duas últimas décadas, quase ninguém se interessou por dar continuidade à profissão, nem os próprios reformados. O condutor mais “novo” já tem mais de 60 anos.

–– Novas oportunidades na cidade ––

Assim como os riquexós antigos, os triciclos poderão apenas fazer parte da memória e da história de Macau.

Os triciclos são hoje uma imagem de marca do território e envergam a sua quota-parte de história de uma cidade com diferentes características culturais e sociais.

“Algumas agências de turismo quiseram alugar centenas de triciclos e respectivos condutores, mas o número de triciclos era menor do que o pretendido. [Hoje em dia há cerca de 60 triciclos, sendo que as agências pretendiam pôr ao serviço à volta de 200 veículos.] Também as operadoras de jogo se mostraram interessadas em contratar o serviço dos triciclos para levarem os clientes aos casinos. Iriam pagar também os custos, mas no fim o preço deste serviço não chegou a um acordo”, disse Lei Kuok Wai, director da ACTM.

O responsável disse também que é necessária mais ajuda do Governo [da Região Administrativa Especial de Macau], tendo a Secretaria para os Assuntos Sociais e Culturais afirmado em ocasiões anteriores o desejo de manter esta profissão antiga.

“Será que a máquina vai substituir o motor humano para poupar forças dos condutores? Ou, tal como na Malásia e em Pequim, podemos esperar que o Governo compre os triciclos e contrate os condutores, dando-lhes um rendimento fixo, de forma a melhorar a imagem da indústria, a fim de reestruturar a indústria. O primeiro problema, porém, são as licenças dos triciclos.”

No ano passado, a Direção de Serviços de Turismo (DST) assinou na sexta-feira um protocolo com a ACTM, providenciou um uniforme para que os condutores deste tipo de transporte possam ser melhor identificados e alugou alguns triciclos para exposição aos turistas.

“Mais importante do que subsidiar uma atividade é criar condições para que [esta profissão] seja reconhecida, valorizada e devidamente paga”, disse João Costa Antunes, o diretor da DST.

Podemos então esperar por mais triciclos nas ruas de Macau ou teremos de nos contentar com fotos e reservá-los na memória? Vamos ver.  :::

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LIN, Cecília. A memória do riquexó.
Extraído do jornal Hoje Macau (Macau, China)
Publicado em: 10 jul 2012.

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