Articles

A ditadura dos linguistas – Pedro Tadeu

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 19 de Setembro de 2012 by ronsoar Tagged: , , ,

Pedro Tadeu é jornalista do
Diário de Notícias.

Em um texto veiculado no jornal Público, de 2 de julho de 2012, com título “Redação – Declaração de Amor à Língua Portuguesa“, a escritora Teolinda Gersão apresentou “a pedido dos netos” a crítica ao Programa de Português do Ensino Básico e ao Dicionário Terminológico – do Ministério da Educação de Portugal –, sob a forma de uma redação dirigida a uma professora de português.

A “Redação” lançada em Público motivou, cinco dias depois, uma resposta veemente, no mesmo jornal, da professora drª. Maria Helena Mira Mateus, catedrática da Universidade de Lisboa, em defesa da nova política de ensino. Por sua vez, a escritora publicou, no dia 13 de julho, uma réplica em forma de carta aberta explicando o porquê das críticas ao Programa de Português do Ensino Básico, em vigor em Portugal desde março de 2009.

Ventos da Lusofonia reproduz a opinião do jornalista Pedro Tadeu, do Diário de Notícias, publicada em 4 de setembro de 2012. O autor opinou sobre a polémica questão da nomenclatura para o ensino gramatical da Língua Portuguesa no Ensino Básico e no Ensino Secundário – o que deu origem à discussão, via artigos na imprensa, entre Teolinda Gersão e Maria Helena Mateus Mira. A opinião do autor mostra uma visão mais crítica em relação à nova – e complicada – terminologia de ensino da Língua.

*            *            *

–– A ditadura dos linguistas ––

Pedro Tadeu
Do jornal Diário de Notícias – Lisboa, Portugal
4 de setembro de 2012


 

A escritora Teolinda Gersão resolveu caricaturar o ensino da Língua Portuguesa no nosso sistema de ensino. A questão que levantou, através de um texto publicado no jornal Público, é a da complexidade da gramática ensinada nas aulas e as contradições que os alunos têm de enfrentar ao longo do seu estudo. Basta um exemplo, dos vários levantados pela escritora, para se perceber o tipo de problema que ela identifica: até ao 7º. ano são ensinados os complementos circunstanciais de modo, tempo e lugar, mas, a partir do 8º. ano, esses conceitos deixam simplesmente de existir, o que inevitavelmente deve estabelecer uma enorme confusão nos alunos e nos próprios professores.

Mas há mais. Teolinda descreve uma lista de conceitos que acha serem de utilidade duvidosa para a compreensão da Língua: verbos transitivos diretos e indiretos, ou diretos e indiretos ao mesmo tempo; verbos de estado, verbos de eventos que podem ser instantâneos ou prolongados; verbos epistémicos, percetivos ou psicológicos; sujeitos nulos, entre muitos outros mimos.

Essa crítica motivou uma resposta em defesa do Programa de Português do Ensino Básico, assinada por Maria Helena Mira Mateus, “Professora catedrática jubilada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa”, que levanta uma questão pertinente, que resumo assim: aprender Português não é só ler uns livros e não dar erros de ortografia; é também perceber o que está por detrás da construção da Língua.

Volto à essencial proposta de Vasco Graça Moura sobre o cânone literário (e aproveito para pedir desculpa por ter, estupidamente, dado a entender que a sua proposta implicava “banir” do ensino autores como Fernando Pessoa ou José Saramago) e relembro o que ele constata: “deveria haver um conjunto de obras literárias escritas na nossa Língua que todos teriam de conhecer” e, “no plano do ensino, isto parece uma evidência elementar, mas tem andado mais ou menos esquecido”.

Releio a discussão entre a escritora e a linguista, entre os que acham que se devem ler mais e mais obras literárias e os que pugnam pela predominância do ensino da gramática. Não tenho pretensões de pedagogo ou de especialista na Língua. Olho apenas para a minha experiência de vida, para o que foi a minha própria educação, a da minha filha, já adulta, e a de inúmeros jovens jornalistas que, ao longo de quase 30 anos de carreira, trabalharam comigo.

Não será essa minha experiência uma estatística fiável, mas constato que os que na escola leram mais livros são melhores redatores e oradores do que os que estudaram mais gramática. E têm, ainda, outra vantagem: aprenderam a pensar.  :::

.
TADEU, Pedro. A ditadura dos linguistas.
Extraído do jornal Diário de Notícias – seção Opinião.
Lisboa, Portugal.
Publicado em: 4 set. 2012.

*            *            *

Leia também:
A polémica terminologia portuguesa da Língua – 16 de julho de 2012

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: